O envelope permaneceu sobre a mesa da cozinha como um corpo estranho que ninguém ousava remover.
Mesmo depois da saída do delegado Moura, ninguém sugeriu jogá-lo fora. A ameaça escrita à mão parecia ter se entranhado na casa, contaminando o ar, os móveis, os passos. Luna sentia isso em cada respiração.
Ela mantinha Elias junto ao corpo desde o amanhecer.
O menino não chorava. Não perguntava. Não reclamava. Apenas desenhava — compulsivamente — como se cada traço fosse uma tentativa silenciosa de organizar o caos que não conseguia expressar em palavras.
— Ele não vai à escola — disse Adrian, com firmeza, quebrando o silêncio na sala.
Luna ergueu os olhos.
— Nem hoje, nem nos próximos dias — ele continuou. — Já falei com uma professora particular. As aulas serão aqui. Sempre acompanhadas.
— Isso vai chamar atenção — Luna ponderou.
— Prefiro atenção a enterro — respondeu ele, seco.
Ela não contestou.
Adrian caminhava de um lado para o outro, falando ao telefone com a empresa de segurança.