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CAPÍTULO 5 - NAS SOMBRAS DA FLORESTA

A noite era fria, mas Aria mal sentia.

Ela estava sentada perto da fogueira que Lira tinha acendido — pequena, controlada, escondida entre pedras para minimizar a luz. Os outros híbridos estavam espalhados pela clareira, alguns dormindo, outros vigiando, todos exaustos demais para falar.

O silêncio era pesado. Carregado de nomes não ditos.

Jax. Rynn.

Aria apertou os joelhos contra o peito, a faca ainda ao seu lado, a lâmina limpa agora, mas ela ainda via o sangue. Ainda sentia o peso de ter enfiado metal em carne viva.

Ainda ouvia o rugido distorcido do Caçador quando ela o feriu.

— Você deveria dormir. — A voz de Lira cortou o silêncio, baixa e gentil. A híbrida se sentou ao lado de Aria, estendendo um pedaço de pão achatado que tinha saído de uma mochila de emergência no veículo.

Aria balançou a cabeça.

— Não consigo.

— Eu sei. — Lira mordeu o próprio pedaço, mastigando devagar. — A primeira morte nunca sai da cabeça. Mesmo quando você não foi quem matou.

Aria olhou para ela, vendo o cansaço nos olhos dourados, as cicatrizes que marcavam os braços nus.

— Quantas você viu?

Lira riu, um som curto e sem humor.

— Muitas. Demais. — Ela olhou para o fogo, as chamas dançando nos olhos dela. — Mas ainda dói. Sempre dói.

— Como você aguenta?

— Não aguento. — Lira virou-se, encontrando o olhar de Aria. — Só continuo. Porque parar significa deixar que eles vençam. E eu não vou dar essa satisfação ao Genesis.

Aria concordou lentamente, as palavras ressoando em algum lugar profundo.

— Obrigada. — Ela sussurrou. — Por... por me salvar. No corredor. Com o Caçador.

— Você se salvou. — Lira deu um meio sorriso. — Eu só terminei o trabalho. E admito... não esperava que uma cientista tivesse coragem de enfiar uma faca em um Caçador.

— Nem eu. — Aria soltou um riso fraco, quase histérico. — Eu não pensei. Só... fiz.

— Instinto. — Lira bateu no ombro dela, suave mas firme. — Você tem mais disso do que imagina.

Antes que Aria pudesse responder, passos pesados se aproximaram. Kael emergiu das sombras, o corpo ainda coberto de sangue seco, os olhos vasculhando a clareira como se procurasse ameaças mesmo ali.

Ele parou diante da fogueira, os olhos pousando brevemente em Aria antes de se virarem para Lira.

— Quanto tempo até amanhecer?

Lira olhou para o céu, avaliando as estrelas através das copas das árvores.

— Três horas, talvez. Por que?

— Porque vamos nos mover assim que clarear. — Kael cruzou os braços, o maxilar apertado. — O Genesis não vai parar. Eles vão mandar rastreadores. Cães. Drones. Tudo que tiverem.

— E para onde vamos? — Tor surgiu das sombras, mancando levemente, o ombro enfaixado com tecido rasgado. — Não temos mapa. Não temos destino. Só temos uma floresta que pode ter armadilhas em cada passo.

Kael virou-se para ele, os olhos âmbar inflexíveis.

— Vamos para o norte. Longe das cidades, longe das estradas. Tem lugares onde eles não podem nos alcançar.

— Você conhece esses lugares? — Tor desafiou, o tom cético.

— Não. — Kael admitiu. — Mas conheço híbridos que escaparam antes. Ouvi histórias. Rumores de refúgios escondidos. Se existirem, vamos encontrá-los.

— E se não existirem?

— Então criamos o nosso. — A voz de Kael era final, sem espaço para debate.

Tor bufou, mas não discutiu. Apenas se virou, voltando para seu posto de vigia.

Lira se levantou, tocando o ombro de Aria brevemente antes de se afastar.

— Tente descansar. Amanhã vai ser longo.

Aria concordou, mas sabia que não dormiria.

Quando ficaram sozinhos — apenas ela e Kael perto do fogo — o silêncio voltou. Pesado. Carregado.

Kael se sentou do outro lado das chamas, os olhos fixos nela com intensidade que fazia a pele de Aria formigar.

— Você matou hoje. — Não era pergunta. Era constatação.

Aria engoliu seco.

— Eu... eu só feri. Lira terminou.

— Mas você enfiou a faca. — Kael inclinou-se para frente, os antebraços apoiados nos joelhos. — Como foi?

— Horrível. — A palavra saiu crua, honesta. — Eu senti quando... quando a lâmina entrou. Senti ele gritar. E eu...

— Não se arrependa. — Kael a interrompeu, a voz baixa mas firme. — Ele teria te matado. Teria matado Lira. Não havia escolha.

— Eu sei. — Aria fechou os olhos, respirando fundo. — Mas isso não torna mais fácil.

— Não deveria. — Kael se levantou, contornando o fogo até ficar ao lado dela. Ele se ajoelhou, ficando no nível dos olhos dela. — Se matar ficasse fácil, você se tornaria como eles. Como os Caçadores. Como o Genesis.

Aria abriu os olhos, encontrando o olhar âmbar dele a centímetros de distância.

— E você? — Ela sussurrou. — Matar ficou fácil para você?

Algo passou pelo rosto dele. Dor. Arrependimento. Raiva.

— Não. — Ele admitiu, a voz mais baixa ainda. — Mas ficou necessário. E eu aprendi a carregar o peso.

— Você não deveria ter que carregar sozinho.

Kael a encarou, os olhos vasculhando o rosto dela como se procurasse mentiras. Mas não encontrou nenhuma.

— Por que você se importa? — A pergunta era quase acusação. — Você mal me conhece. Eu quase te matei. Te odiei no segundo em que te vi. E ainda assim... você está aqui. Sangrando por nós.

Aria segurou o olhar dele, mesmo que cada instinto gritasse para desviar.

— Porque eu vi o que eles fizeram com vocês. Vi os arquivos. Os experimentos. As torturas. — Sua voz tremeu, mas não quebrou. — E eu não fiz nada. Por anos. Eu fui cúmplice. E agora... agora eu tenho que tentar consertar. Mesmo que nunca seja suficiente.

Kael ficou em silêncio por um longo momento. Então ele estendeu a mão, os dedos roçando a marca roxa no pescoço dela — onde ele tinha apertado, onde quase tinha tirado sua vida.

O toque era leve. Quase gentil.

— Eu te machuquei. — Ele disse, a voz rouca.

— Eu sei.

— E eu faria de novo. Se achasse que você era ameaça.

— Eu sei. — Aria não recuou. — Mas eu não sou. E um dia... talvez você acredite nisso.

Kael deixou a mão cair, mas os olhos ainda a prendiam.

— Você é estranha, humana.

— Aria. — Ela corrigiu, um pequeno sorriso tocando os lábios. — Meu nome é Aria.

— Aria. — Ele testou o nome, como se provasse algo novo. Então assentiu, se levantando. — Descanse, Aria. Amanhã, você vai precisar de força.

Ele se virou para ir embora, mas parou, olhando para trás.

— E obrigado. Pelo que fez hoje. Você salvou Lira. E... me salvou de tomar uma decisão que eu teria me arrependido.

Antes que Aria pudesse responder, ele desapareceu nas sombras, deixando-a sozinha perto do fogo.

Mas desta vez, o silêncio não era tão pesado.

E pela primeira vez desde que abriu aquela cela, Aria sentiu que talvez — apenas talvez — tivesse feito a escolha certa.

Ela não dormiu.

Mas quando o céu começou a clarear, pintando o horizonte de cinza e rosa, Aria se levantou. As pernas doíam, o corpo protestava, mas ela forçou-se a ficar de pé.

Os outros já estavam acordando, checando ferimentos, pegando o pouco que tinham.

Kael estava perto do veículo, verificando o combustível. Quando viu Aria se aproximar, ele acenou com a cabeça — não caloroso, mas reconhecendo sua presença.

— Pronta?

— Não. — Aria admitiu. — Mas vou de qualquer jeito.

Kael quase sorriu. Quase.

— Então você está aprendendo.

Eles partiram quando o sol tocou o topo das árvores, o veículo avançando lentamente por trilhas improvisadas. A floresta era densa, mas bela — uma promessa de algo além da prisão que tinham deixado.

E enquanto Aria olhava pela janela, vendo a luz filtrar pelas folhas, ela fez uma promessa silenciosa.

Jax. Rynn. Eu vou garantir que sua morte não foi em vão.

Eu vou lutar. Vou sangrar. Vou provar que merecia estar aqui.

Ou vou morrer tentando.

Ao seu lado, Kael dirigia em silêncio, os olhos fixos à frente.

Mas de vez em quando, ele olhava para ela.

E Aria sentia o peso daquele olhar — desconfiança ainda, sim.

Mas também algo mais.

Algo que ainda não tinha nome.

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