Mundo de ficçãoIniciar sessão
O sinal vermelho brilhava intensamente no vidro escuro do carro blindado, como uma sentença inadiável, suspensa no ar.
—Observando a cidade pela janela traseira, percebi que estava alheio às buzinas e ao tumulto da noite ao meu redor, uma sinfonia caótica de vida urbana. — Nova York, essa metrópole que conhecia como a palma da minha mão, nunca dormia; apenas trocava de disfarce como uma atriz experiente mudando de cena. Em vez das luzes ofuscantes de Broadway, agora ela vestia-se de concreto molhado, pressa e indiferença. — As ruas e esquinas, e suas sombras tinham seus proprietários, e eu era o governante da maior parte desse território, cercado por um exército fiel, mas consciente de que o poder é tão volúvel quanto a névoa da manhã que pode se dissipar a qualquer instante. — Ramón Rivera está expandindo seu domínio — informou Luca, meu irmão caçula e consigliere, com a tranquilidade de quem entende que cada palavra pode alterar o curso de uma guerra. — O nome reverberou em mim como um veneno antigo, trazendo à mente lembranças de confrontos passados e armadilhas silenciosas que deixaram cicatrizes profundas em minha alma. Ramón Rivera era mais do que um rival; ele é um erro que persistia, um câncer que se recusava a desaparecer, se espalhando como uma mancha escura nas entranhas da cidade que eu uma vez chamei de lar. —Em um mundo onde a lealdade é uma moeda escassa, ele não era apenas um antagonista, mas uma sombra que se estendia, engolindo a luz que eu lutava para proteger. — Ele não apenas avança — repliquei com frieza — Ramón invade, como uma praga que se espalha sem aviso, e o que é pior: ele se esconde nas sombras, aproveitando cada fraqueza que sua presença descobria. Luca inclinou a cabeça em sinal de compreensão, um gesto tão sutil, mas carregado de significado, em um silêncio pesado, como se a atmosfera ao redor tivesse mudado, tornando-se mais densa, como um presságio de tempestade. — O motorista mantinha firmes as mãos no volante, seus olhos fixos na estrada como se fossem faróis iluminando um caminho obscuro, enquanto dois soldados leais ocupavam o banco da frente, prontos para obedecer sem questionar, como sombras de uma história sombria que se desenrolava lentamente ao nosso redor, tecida por traições e alianças frágeis, uma dança mortal em um tabuleiro de xadrez onde cada peça poderia ser sacrificado a qualquer momento. — Os homens dele estão fora de controle — prosseguiu Luca, a preocupação evidente em sua voz, como se o peso do mundo estivesse sobre seus ombros. — Bordéis improvisados e tráfico humano, envolvendo jovens em situações que fariam qualquer um se ser decente náusear, ele é escória. — Essas atividades não são apenas crimes; são como feridas abertas em nossa sociedade, um reflexo da degradação moral que ele representa, uma expressão devastadora da impotência que tantos sentem diante de um sistema que parece protegido por invisíveis mãos corruptas. Cada relato que recebemos, cada uma das vítimas que conseguimos resgatar, é um lembrete do abismo moral que Rivera destila, jogando lama nos rostos de todos nós. —Fechei os olhos por um momento, não por surpresa, mas por desprezo. Rivera sempre foi um verme, um parasita que se alimenta da vulnerabilidade dos outros, sem qualquer remorso, sem temor à condenação. —Sua existência é como uma mancha indesejada ou um cadáver em putrefação que ainda respira, e faz parte de uma sociedade que clama por justiça. — Ele sempre tratou pessoas como carne e é apenas mais mercadoria para ele. — murmurei, lembrando de tantas vidas que ele destruiu ao longo dos anos, vidas que poderiam ter sido tão plenas, tão ricas em esperança. — E, assim como todos os criminosos que acreditam estar acima da lei, ele vai pagar por isso. — Não há como escapar das consequências; cada ação traz uma reação, como o peso de uma pedra jogada em um lago, criando ondas que eventualmente alcançam a costa. É um ciclo inexorável de justiça cósmica; mesmo que ele ache que seu domínio é inabalável, as engrenagens da verdade se movem de maneira silenciosa, mas constante, sempre roendo as fundações de sua impunidade. —Uma hora, as marés mudarão, e quando acontecer, aqueles que desequilibram a balança da moralidade sentirão o peso da culpa como um manto pesado os envolvendo, sufocando-os até que não possam respirar. — Pare o carro agora! — ordenei, as palavras escapando de mim como uma correnteza incontrolável. —A urgência na minha voz fez com que o motorista freasse imediatamente, os pneus rangendo contra o asfalto molhado. A mulher lançou-se diante do veículo, como se estivesse buscando sua última chance de escapar de um destino terrível, uma cena digna dos pesadelos mais sombrios. —O carro parou bruscamente, e por um momento, o mundo pareceu congelar — nenhum som, exceto a chuva fina que caía, criando um manto de desespero ao nosso redor. Não houve impacto físico, mas um choque emocional reverberou em mim, como se um grito estivesse preso na minha garganta, esperando para ser libertado. — No entanto, o meu medo não era apenas por ela; era por todos os momentos que este tipo de violência se repetia nas sombras da cidade, e por todas as vidas que poderiam ser salvas, mas que estavam condenadas a permanecer à margem. Logo atrás dela, surgiram dois homens, ágeis e brutais, como sombras que emergiram da escuridão, com expressões de desprezo que pareciam atestar que haviam descarregado sua ira em outras vítimas antes. —Um deles agarrou-a pelo braço de forma implacável, enquanto o outro puxava seus cabelos com força. Ela se debatia, seus olhos implorando por ajuda, mas o mundo ao seu redor parecia estar paralisado em um estado de indiferença; o medo levava a um silêncio cúmplice. — Ninguém nunca fazia nada, porque o terror havia se tornado um normativo. A cena era uma dança de desespero e poder, onde cada movimento contava uma história de impotência e dor. — Era como se as pessoas ao nosso redor se tornassem espectadores de um espetáculo macabro, absorvendo cada instante sem coragem para intervir. Abri a porta, e o som da chuva se misturou ao caos ao meu redor, como uma sinfonia trágica em meio ao desespero. —A água gelada escorreu pelo meu rosto, mas não me incomodou; já estava acostumado ao frio e à escuridão em que essa cidade mergulha. — Soltem-na agora!— exigi, minha voz baixa e controlada, mas carregada de uma ameaça palpável, como uma tempestade prestes a eclodir. —O vento carregava meu tom firme, aumentando a tensão, embora eles rissem, desdenhosos, como se minha autoridade fosse uma brisa leve, sem poder real. — Mas eu sabia que havia um limite para a audácia deles. — E você acha que pode dar ordens pra gente gringo? — zombou um deles, com desprezo que quase lhe conferia uma aura de inocência. — Mais um almofadinha de terno, vem querer cantar de falo? Permiti que um silêncio pesado se instalasse entre nós, como um pano impenetrável cobrindo a tensão no ar. Não respondi, apenas deixei o ambiente absorver o momento, sentindo a eletricidade da mudança iminente. —Com um estalar de dedos, chamei dois gigantes que emergiram atrás de mim, suas tatuagens à mostra e olhares implacáveis, como feras despertando para a ação. A força deles era palpável; eram homens que não precisavam de mais motivação para obedecer. — Cada um deles representava uma linha de defesa, um bastião contra a injustiça em cada esquina, e, ao vê-los, uma onda de alívio misturada à adrenalina percorreu meu corpo, criando um novo tipo de resistência que estava prestes a ser revelada. — Ele é Giovanni Luchezzi — anunciou um deles, com um tom grave que cortou o ar como uma faca afiada. O silêncio que se seguiu foi palpável, como se o universo inteiro tivesse parado para absorver a gravidade do nome proferido. O riso que antes preenchia o ambiente evaporou instantaneamente entre os homens, e o nome, como uma maldição, flutuava no espaço, transformando-se em uma lâmina invisível, cortante e precisa. —As expressões se tornaram pálidas, e logo, a resistência deles derreteu, soltando a mulher impiedosamente, como se ela fosse um fardo muito pesado para continuar segurando. Ela caiu diretamente nos meus braços, sua figura leve e quase etérea estava agora à mercê de um mundo que parecia ter perdido toda a esperança. — Seu corpo tremia mesmo desacordado, como se resistisse a se entregar totalmente à escuridão que a consumia, segurando meu paletó com mãos desesperadas, como se fosse sua última âncora de esperança, um último laço com a vida que tão abruptamente havia se mostrado tão cruel. — Por favor… — murmurou com a voz trêmula, seu sussurro de desespero ressoou em meu peito, ecoando como uma súplica direta à minha alma. — Antes que as certezas dela dissipar-se completamente, ela implorou: — Não deixe eles me levarem, por favor... Desmaiou em meu abraço, e eu a contive firmemente, o pescoço e os ombros dela acolhidos por meus braços protetores, enquanto meu olhar se tornava sombrio e cheio de determinação. —Meus homens arrastavam os agressores para longe, cada passo carregando a urgência de um fardo, e a tensão no ar mudava rapidamente, como um céu que escurece antes de uma tempestade, prenunciando a fúria que estava prestes a se desatar. Eu sabia que, independentemente do que viesse a seguir, não deixaria que ela se tornasse mais uma vítima das sombras que me cercavam. — Vocês sabem o que fazer, não os matem antes das respostas!— declarei, com uma frieza controlada, como um comandante em meio à batalha. A minha voz ressoou firme, ecoando a determinação que ardia dentro de mim. — Quero respostas antes que o sangue seja derramado. Façam os passarinhos cantarem, quero saber o quê ia fazer com ela, e quem mandou. Luca me observava em silêncio, mas a pergunta em seu olhar era clara: quem era aquela mulher? Por que havia caído nas minhas mãos? —As respostas, no entanto, ainda me escapavam, como areia entre os dedos, enquanto eu lutava para manter o controle sobre a situação que rapidamente se tornava caótica. Os carros que estavam atrás, todos sob meu comando, começaram a se movimentar, prontos para executar a ordem dada com a precisão de uma máquina bem lubrificada. O movimento era metódico, como se nossos corpos estivessem sincronizados em uma dança milenar. — Entrei novamente na viatura, acomodando o corpo inconsciente dela com um cuidado que me surpreendeu, quase como se cada centímetro de sua fragilidade despertasse em mim uma onda inesperada de proteção. Sua vida, ali no meu abraço, representava uma incógnita, lembrando-me de como uma vida pode se transformar em um instante, dependendo das circunstâncias. — O barulho da cidade se dissipava ao nosso redor, enquanto me afundava nos labirintos de pensamentos sobre o destino que a unira a mim. — Levem-na até minha casa — ordenei com determinação, a voz firme e inabalável. — Chamem um médico, agora, diga que é emergência. —A urgência da situação estava impregnada nas minhas palavras, pois cada segundo contava. O motorista acenou em concordância, os olhos fixos na estrada à frente, mas eu estava focado na mulher que jazia inconsciente em meus braços. — Enquanto encarava o rosto sujo e vulnerável da desconhecida, uma estranha sensação de responsabilidade começou a se formar dentro de mim, como se eu estivesse segurando a linha delicada entre o caos e a segurança. Uma involuntária conexão se formava entre nós, uma teia invisível que me instigava a proteger aquela vida frágil, mesmo sem saber a verdade por trás de sua situação. — E quando eu voltar, vamos resolver essa situação...— murmurei para mim mesmo, as palavras carregando um peso que eu não queria reconhecer. A incerteza da situação pairava sobre mim como uma nuvem densa, mas eu sabia que cada resposta que eu buscava me levaria mais perto de desvendar o mistério ao meu redor, mesmo que a sombra da guerra já estivesse se formando em meu horizonte. — O sinal abriu, e a cidade começou a se mover novamente, como um um organismo pulsante, repleto de sons e movimentações frenéticas. As luzes dos carros iluminavam o asfalto, enquanto as vozes apressadas das pessoas que passavam próximas a mim se misturavam em um emaranhado de preocupações cotidianas. — Porém, naquele momento, eu não percebia que tinha declarado guerra, uma guerra silenciosa contra um destino implacável. Tampouco sabia que aquela mulher — caída em meus braços, salva por um golpe do destino — seria a única capaz de ameaçar tudo o que eu havia construído ao longo da minha vida. — Sua presença era como uma tempestade prestes a se desatar, capaz de arrasar os alicerces que eu havia cuidadosamente levantado, um edifício sólido de planos e aspirações que parecia impenetrável até então. Enquanto seus olhos se fecharam lentamente, entregando-se a um sono vulnerável, percebi que aquela figura frágil e inconsciente, apesar de toda a sua delicadeza, possuía um poder imenso. —Era o poder de reverter minhas conquistas e desafiar tudo o que eu acreditava ser seguro. — O cheiro de seu cabelo misturava-se com o aroma urbano ao nosso redor, e, por um momento efêmero, tudo o que eu conhecia dissolveu como a névoa da manhã, e está claro que a batalha estava apenas começando. Aquela mulher, mesmo sem saber, tornava-se a chave para um enigma que poderia desvendar não apenas os meus medos mais profundos, mas também conferia a ela um lugar central em uma história que nem eu mesmo havia previsto. — E à medida que a cidade continuava a girar ao nosso redor, eu sentia que minha vida estava prestes a tomar um rumo inesperado, onde a salvação e a destruição poderiam muito bem ter o mesmo rosto.






