Mundo de ficçãoIniciar sessãoDois dias antes, o cemitério ainda exalava a umidade da terra recém remexida, a umidade fazia-se sentir como um cobertor pesado sobre os ombros de Carmen quando ela chegou ao local.
Ela teve um momento de hesitação antes de cruzar os portões de ferro forjado, ouvindo o som suave e distante de pássaros, como se a natureza tentasse oferecer um consolo que ela não conseguia aceitar. — Quando Carmen percebeu que estava sozinha, não no sentido de estar sem companhia — embora as flores cuidadosamente arranjadas em memória do pai, os passos distantes de visitantes e as vozes suaves de familiares a cercassem —, mas sozinha no mundo, uma figura perdida em um mar de tristeza, como uma estrela em um céu vasto, sentindo-se pequena e insignificante, perdendo-se entre constelações que outrora a iluminavam. O caixão do pai já havia sido enterrado, e o ar pesado, impregnado do cheiro da despedida que flutuava como um perfume amargo, parecia quase opressivo. —A vitória de Richard Rivera sobre a vida e suas tribulações agora se resumia a uma dura e pura verdade: ele não estava mais ali. Carmen permaneceu imóvel diante da lápide simples, admirando a gravura discreta que marcava sua existência; seus dedos apertavam o tecido fino do vestido emprestado, como se ele fosse um escudo contra a dor que a envolvia e uma lembrança constante de que ela não poderia mais ser a filha que cuidava dele. — Os olhos de Carmen, ardendo de tanto chorar, traziam à tona os ecos das noites que passavam juntos, quando ele era suas mãos, sua voz e seu fôlego, como um eco distante que retumba em uma caverna profunda e escura. — Durante seis longos meses, dedicou-se completamente a ele: trabalhava durante o dia, enfrentando as faces da vida sem ele, e à noite, cuidava dele em meio ao desgaste e à luta contra a presença constante dos sonhos que nunca vinham, como uma criança que espera ansiosamente por um presente que não chega, uma expectativa que se transformava em desapontamento. —E agora… agora não havia mais ninguém para cuidar. O luto era palpável, um peso que a envolvia como uma névoa densa e sufocante, obscurecendo a luz de sua vida e fazendo com que cada respiração se tornasse um lembrete dolorido de uma ausência irreparável. — Vamos — disse a madrasta, impaciente, quebrando o silêncio como o estalo de um copo descartável ao cair, um ato que parecia desdenhar da gravidade da situação. — mas o papai ainda não foi sepultado.Carmen virou-se lentamente, seus olhos vermelhos se fixavam no rosto gelado de Elizabeth. Era um contraste perturbador: não havia lágrimas, nem uma sombra de luto, apenas indiferença que cortava o ar como uma faca afiada, revelando o abismo entre elas. —O olhar de Carmen buscava alguma ponta de compaixão, mas encontrou apenas uma superfície dura e intransigente, um reflexo da fria realidade que agora a cercava. — Vamos pra casa — continuou Elizabeth, como se a vida seguisse em frente sem mais nem menos, como se a perda de um pai fosse apenas um detalhe insignificante em uma história que ela se recusava a intervir. — Eu tenho uma surpresa pra você. Carmen franziu a testa, incrédula, a expressão de quem acabara de receber um golpe. — Era como se a palavra "surpresa" não lhe fizesse sentido diante da tempestade emocional que a assolava. — Surpresa? — a voz dela saiu rouca e carregada de incredulidade, como se as sílabas das palavras se arrastaram, cansadas e sem vida. — Acabei de enterrar meu pai, que surpresa pode haver num dia como hoje? Elizabeth suspirou, uma expressão de cansaço nos olhos, como se estivesse lidando com um incômodo que não conseguia compreender, incapaz de perceber a profundidade da dor de Carmen. — Sua resposta ecoou vazia, uma tentativa desesperada de ignorar o luto que preenchia o ar pesado ao redor delas. — Você vai descobrir quando chegar em casa. Vamos logo, tem gente me esperando em casa. — As palavras foram ditas com tanta desumanidade que pareciam não ter relação com a realidade que Carmen estava vivendo. Assim, forçada por aquele pressentimento inquietante, Carmen seguiu em silêncio. —O caminho até o carro velho foi em silêncio, interrompido apenas pelo rangido da porta enferrujada, um som que ressoava como um aviso de que algo estava muito, muito errado. Carmen entrou no banco do passageiro, o coração apertado e a mente em guerra, observando a madrasta dar partida como se aquele dia fosse apenas um contratempo, uma simples página virada no livro da vida. —Cada movimento de Elizabeth parecia um insulto ao seu sofrimento, e o peso da perda a envolvia como uma névoa densa, distorcendo sua percepção da realidade em meio à angústia. — Parece que você não se importa — murmurou Carmen, a voz trêmula de emoção, cada palavra uma maré de dor que quase a fazia afogar. — Meu pai acabou de morrer, e você nem tem um pingo de respeito. E, ao olhar para Elizabeth, percebeu que a madrasta, por outro lado, parecia se divertir com a situação, rindo pelo nariz, alheia ao turbilhão de sentimentos que a consumia. — Para Elizabeth, a morte era apenas um evento a ser esquecido em prol de novas surpresas, uma nova história para contar. Carmen fechou os olhos por um momento, desejando que tudo aquilo fosse um pesadelo do qual pudesse acordar. — Querida, viúva é quem morre, não quem fica. Ele foi, não foi? Quando sua mãe morreu, ele seguiu a vida e casou comigo para ajudar a te criar. As palavras insensíveis de Elizabeth caíram sobre Carmen como uma pedra, provocando um nó na garganta, como se suas emoções fossem castigadas. — O que deveria ser um momento de luto e entendimento se tornava, nas mãos de Elizabeth, uma ocasião para invalidar as feridas da filha. Carmen podia sentir a frieza das palavras ecoando em sua mente, cada sílaba perfurando a já frágil estrutura de seu coração. — Era como se a anfitriã de sua própria dor estivesse desfilando sua indiferença, tirando de Carmen o direito de sentir sua perda. A cada palavra de Elizabeth, Carmen sentia seu estômago embrulhar, como se cada lembrança desoladora do que havia perdido fosse um golpe direto. —Lembranças da infância invadiam sua mente: momentos em que seu pai a confortava após pesadelos, ou a forma como seu sorriso iluminava o ambiente, agora apagado para sempre. A raiva que se acumulava dentro dela era uma tempestade à espera de explodir, ao mesmo tempo que a dor da saudade a envolvia como um cobertor sufocante. — Era injusto o que Elizabeth fazia, distorcendo a verdade e reescrevendo a história entre elas, como se Carmen fosse a única responsável pelo fechamento das feridas familiares. — Você nunca cuidou de mim — respondeu, incapaz de conter a dor que finalmente transbordava. — Sempre me deixou fazer tudo por conta própria! Lembro-me de quando eu tinha apenas treze anos e era eu quem cozinhava, enquanto você assistia TV. — Essa será a lembrança que guardarei, talvez o maior arrependimento do meu pai, que em vida sempre desejou um lar onde pudéssemos ser uma família completa. No final, enquanto ele se foi, fui eu quem realmente ficou sozinha, cuidando de mim mesma, com uma mãe que parecia mais uma estranha em vez de uma figura protetora. — Drama — retrucou Elizabeth com uma frieza que fazia o ar parecer mais denso entre elas. Sua expressão, quase imperceptível, transparecia uma mistura de desdém e impaciência. — Entra em casa e cala a boca, antes que eu perca a paciência. Não temos tempo para suas crises emocionais agora. —Ao chegarem, Carmen sentiu uma estranha sensação de desconexão. A casa, que sempre havia representado um refúgio em meio ao caos de sua vida, parecia diferente. —Um carro, imponente e escuro, que ela nunca tinha visto antes, estava parado em frente ao portão, como uma sombra ameaçadora. Seu tamanho exagerado e a pintura lustrosa pareciam completamente deslocados em meio à simplicidade da vizinhança. —Dois homens encostados nele trocavam palavras em espanhol, suas vozes eram baixas, mas carregavam uma tensão palpável que fazia o estômago de Carmen se revirar em um misto de curiosidade e apreensão. — O que esses mexicanos estão fazendo aqui? — a pergunta escapuliu de sua boca, um alerta percorrendo sua espinha, como se um instinto primitivo lhe dissesse para se afastar . “Mexicanos” foi a palavra que ela usou, mas sua mente não conseguia se desvencilhar do preconceito que a cercava. — Elizabeth, por sua vez, apenas sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos e que parecia esconder muito mais do que revelava. — Vieram buscar a mercadoria deles. — As palavras de Elizabeth ressoa como um sino de alarme, fazendo o coração de Carmen disparar. — Cada sílaba era como um golpe, e ela mal podia acreditar no que estava ouvindo. As palavras de Elizabeth desestabilizam Carmen como se o chão tivesse se aberto sob seus pés, um abismo de incerteza a engolindo. —Ela não queria acreditar que isso estava acontecendo, que havia algo oculto que ligava sua família àqueles homens misteriosos. — Que mercadoria? — ela engoliu em seco, a garganta apertada, enquanto a ansiedade se acumulava dentro dela como uma onda prestes a transbordar. — O que você vendeu do meu pai? — O desespero na voz de Carmen denunciava não só a preocupação com a segurança de seu pai, mas também um sentimento de traição que a fazia reverberar com raiva e confusão. Cada pergunta parecia abrir mais feridas do que curar, e naquele momento, o mundo que ela conhecia começava a ruir. — Anda, entra — chamou Elizabeth, abrindo o portão com uma impaciência visível que transparecia em cada movimento brusco. — Pablo, Juan, por favor, entrem, estou prestes a entregar a encomenda. Um dos homens murmurou algo em castelhano, a suavidade de sua voz contrastando com a tensão palpável no ar. — A frase carregava uma intensidade que fazia o estômago de Carmen se revirar, como se suas palavras fossem veneno cuspido em sua direção. — Estamos esperando há quase uma hora, e isso não é aceitável para quem como nós tem um comprometimento a manter. — Meu marido morreu hoje — respondeu Elizabeth, seu tom frio e cortante revelando uma apatia inquietante. —Ela parecia alheia à gravidade da declaração, como se estivesse apenas cumprindo um dever que não aceitava como parte de sua vida. — Fui enterrar o defunto, e o que mais desejo? Um luto público? Carmen sentiu o sangue ferver em suas veias, sua raiva crescente ampliou-se a tal ponto que sua cabeça começou a latejar em um ritmo ensurdecedor. —Cada palavra proferida por Elizabeth cortava como vidro, exacerbando a batalha interna que lhe consumia. — Você fala do meu pai como se ele fosse um estorvo! — gritou, sua voz ressoando pela sala como um grito de alarme em meio a um incêndio. A fúria ardente em seu peito a fez enfrentar Elizabeth, os olhos lançando chamas. — Quem cuidava dele era eu! Eu estava lá quando ele precisava de alguém que realmente se importasse! —A expressão de Elizabeth virou-se lentamente, um sorriso cruel se formando em seus lábios, um sorriso que fazia o coração de Carmen acelerar, mas não de excitação; era o reconhecimento do perigo que emanava daquela mulher. O que antes parecia ser uma simples disputa familiar agora se tornava um terreno minado onde cada palavra errada poderia detonar uma explosão incontrolável. — Justamente, pelo menos pra isso você serviu — Elizabeth disparou, sua expressão implacável e seus olhos frios como gelo cortando qualquer traço de resistência que Carmen ainda pudesse ter. As palavras da mulher reverberaram na mente de Carmen, como um eco de desgraça, e cada sílaba parecia um lembrete do quão desprovida de valor ela se sentia naquele momento. —Era como se Elizabeth estivesse desnudando sua alma, revelando a crueldade brutal que permeia o ambiente ao seu redor. Naquele momento, o mundo de Carmen começou a ruir, como um castelo de cartas desmoronando ao menor toque. —As paredes que antes a protegiam agora pareciam se fechar, esmagando suas esperanças e sonhos. Carmen sentiu sua respiração ficar irregular, enquanto visões de um futuro que ela nunca pediu começaram a dançar diante de seus olhos, cada uma mais aterrorizante que a anterior. —Uma onda de desespero a invadiu, lembrando-a de todas as vezes que ela lutou por um espaço no universo e o quanto esse esforço agora parecia em vão. — Vai pro teu quarto — ordenou Elizabeth, a frieza na voz cortante como uma lâmina afiada, escalando mais um nível de opressão. — Arruma tuas coisas, agora, os teus patrões não podem esperar. — Arranjei outro serviço pra você, e não me faça repetir. Pensei que você fosse mais esperta do que isso. Outro serviço, subindo as escadas com as pernas tremendo, Carmen respirou fundo, tentando entender o que estava acontecendo. — Cada passo parecia uma eternidade; o som dos seus pés descalços contra o piso frio ecoava no silêncio opressivo da casa, como se cada movimento estivesse sendo monitorado por uma força invisível. A porta do seu quarto se aproximava, mas sua mente estava longe, presa no turbilhão de suas circunstâncias. —Até que as vozes vindas da sala interromperam seus pensamentos, fazendo-a hesitar.






