Mundo ficciónIniciar sesiónO domingo no evento de carros clássicos se transformou em uma tarde inesperada de intimidade. Rebeca e Otávio, com sua química espontânea, logo se afastaram, deixando Eliza e Gabriel sozinhos. Eles passearam entre os veículos reluzentes, e Gabriel, com uma paixão que Eliza nunca imaginara, explicou cada detalhe dos motores, a história por trás de cada modelo, os desafios de restauração.
Eliza, embora não entendesse muito de mecânica, ouvia fascinada. Não era apenas o que ele falava, mas a forma como seus olhos escuros brilhavam com entusiasmo, a maneira como ele gesticulava com as mãos fortes. Ela, por sua vez, compartilhou histórias engraçadas da faculdade de medicina e as pequenas vitórias do seu primeiro mês no Saint Jude. As risadas deles se misturavam ao som dos motores e da música ambiente. Em um momento, Gabriel a levou até um Chevrolet Impala 1967 impecável. — Esse é o meu sonho — ele confessou, os olhos fixos no carro. — Restaurar um clássico como esse, peça por peça, até ele rodar perfeito de novo. — É como a medicina, não é? — Eliza observou, seu olhar encontrando o dele. — Encontrar o problema, ir a fundo, e trazer algo de volta à vida. Gabriel sorriu, um sorriso genuíno e largo que raras vezes ela tinha visto. — Exatamente, Dra. Martins. Você entendeu. Eles se perderam na conversa até o sol começar a se pôr, pintando o céu em tons de laranja e roxo. Quando Gabriel a levou para casa, o silêncio no carro não era mais de formalidade, mas de uma compreensão mútua que havia crescido entre eles. Ao se despedir, ele segurou a mão dela por um instante a mais, e o toque elétrico fez o coração de Eliza pular uma batida. — Eu me diverti muito, Gabriel — ela disse, a voz quase um sussurro. — Eu também, Eliza — ele respondeu, seus olhos fixos nos dela, prometendo algo mais que a médica ainda não conseguia decifrar. A segunda-feira chegou, e com ela, a dura realidade do hospital. Eliza caminhava pelo corredor, com um sorriso discreto no rosto, ainda pensando no domingo. Mas a aura de tranquilidade durou pouco. Ao passar pelo balcão das enfermeiras, ouviu cochichos que a fizeram parar. — Parece que a Dra. Martins está fazendo mais do que aprender sobre bisturis — disse a Dra. Sofia Alvarez, uma residente ambiciosa e conhecida por seu temperamento competitivo, olhando para ela com desdém. Ao lado dela, a Dra. Camila Mendes, outra residente, riu. — O Dr. Vance deve ter encontrado uma nova "interna" para suas lições particulares. Cuidado para não confundir o jaleco com um vestido de gala, querida. As palavras, ditas em tom de escárnio, atingiram Eliza como um choque. Ela sentiu o sangue ferver. Sofia e Camila sempre foram as mais inclinadas a fofocas e a tentar sabotar quem elas viam como ameaça, especialmente se a ameaça estivesse perto do cobiçado Dr. Vance. Eliza se virou, encarando as duas com seus olhos verdes faiscando. — Doutora Alvarez, Doutora Mendes — ela disse, a voz controlada, mas firme. — Sugiro que se concentrem em seus próprios pacientes, e não na vida pessoal dos seus colegas. Acredito que o juramento que fizemos foi para salvar vidas, não para alimentar fofocas baratas. Sofia e Camila se entreolharam, surpresas com a resposta. Antes que pudessem retrucar, a voz grave de Gabriel ecoou pelo corredor: — Algum problema aqui, senhoritas? Gabriel Vance estava parado a poucos metros delas, o olhar sério varrendo as três. Sofia e Camila empalideceram, e o silêncio se instalou. Eliza manteve a postura, mas sentiu um frio na barriga. — Não, Dr. Vance — Sofia gaguejou. — Estávamos apenas... discutindo um caso. Gabriel ergueu uma sobrancelha, um indício de que não acreditava em uma palavra. Seus olhos se demoraram em Eliza por um instante, transmitindo uma mensagem silenciosa de apoio. — Ótimo. Então, voltem ao trabalho. E lembrem-se: a eficiência e o profissionalismo são prioridades neste hospital. Ele se afastou, mas Eliza sabia que o incidente não seria esquecido. As provocações das "rivais" eram apenas o começo, e agora, com a intervenção de Gabriel, a situação poderia se tornar ainda mais tensa. O Saint Jude, que antes parecia um lugar de oportunidades, agora também parecia um campo de batalha.






