Um casamento por contrato?

Aurora

Eu pisquei várias vezes, tentando processar aquela informação absurda. Um casamento por contrato? Com um homem rico que vivia escondido porque tinha o rosto destruído por um acidente? Parecia o roteiro de um filme de terror ou de um drama muito exagerado, mas os papéis timbrados bem na minha frente e o terno impecável do advogado me lembravam de que aquela era a minha realidade atual. Uma realidade bizarra e assustadora.

— Eu… eu posso pensar sobre isso? — perguntei, a voz saindo quase como um sussurro esganado. Minhas mãos ainda tremiam tanto que precisei escondê-las debaixo da mesa, apertando o tecido da minha calça para tentar conter o nervosismo.

Yuri Gomes olhou para o relógio de ouro reluzente em seu pulso esquerdo. O gesto foi frio, calculado e me fez engolir em seco.

— O senhor Rodolfo é um homem muito ocupado e o tempo dele é precioso, Aurora. Mas, considerando a gravidade da sua situação particular, você tem exatamente duas horas para pensar. Nem um minuto a mais — ele respondeu, com a voz mansa, mas firme. — Daqui a duas horas, os homens que arrombaram a sua porta hoje cedo vão descobrir que você não fugiu da cidade, mas sim que veio trabalhar. E eu garanto que eles não vão esperar até amanhã para vir atrás de você de novo.

Um arrepio violento subiu pela minha espinha. Ele tinha razão. Eu estava correndo contra o tempo e o relógio corria contra mim. Mas aceitar me casar com um completo estranho, vender a minha vida e a minha liberdade por um punhado de milhões de reais? Era uma decisão grande demais para ser tomada entre o almoço e o retorno ao escritório.

— Tudo bem. Duas horas — eu disse, tentando parecer o mais controlada possível, embora meu estômago estivesse revirando. — Mas eu tenho uma condição. Eu posso conhecer ele antes de aceitar a proposta? Pelo menos ver com quem estou lidando, conversar por cinco minutos… saber quem é o homem que quer comprar o meu sobrenome?

Yuri Gomes suspirou de forma pesada, e pela primeira vez, vi um vislumbre de algo parecido com compaixão em seus olhos profissionais. Ele guardou alguns papéis de volta na maleta fina e me encarou com total seriedade.

— Infelizmente, Aurora, o senhor Rodolfo não recebe visitas e não faz aparições públicas. Ele vive em absoluto isolamento na mansão dele. Mas posso te garantir uma coisa, de homem para mulher: o senhor Rodolfo é um homem muito bom. Uma pessoa realmente de bom coração, que passou por dores que ninguém deveria passar. Ele é profundamente solitário, Aurora. Tudo o que ele quer, no fundo, é uma esposa que o ame, que esteja ao lado dele e que preencha o vazio daquela casa enorme. Ele não é um monstro. Ele é apenas um homem que o destino castigou demais.

Uma esposa que o ame? Eu quase tive vontade de rir, uma risada nervosa e amarga que segurei a todo custo. Como ele esperava que eu amasse alguém que estava me comprando para quitar uma dívida de trinta milhões de reais? Amor não se compra com cheques de muitos dígitos, mas a minha sobrevivência sim.

— Me dá o seu cartão — exigi, estendendo a mão trêmula por cima da mesa de vidro. — Em duas horas, eu ligo para o senhor e dou a minha resposta definitiva.

Yuri abriu um pequeno compartimento da maleta, puxou um cartão de visitas preto com letras douradas e elegantes e o deslizou até mim. Eu o peguei rapidamente, enfiando-o no bolso do meu casaco de moletom como se fosse uma tábua de salvação feita de papelão. Sem dizer mais nenhuma palavra, levantei-me da mesa e saí caminhando apressada do restaurante, sem olhar para trás.

O trajeto de volta para o elevador e a subida até o meu andar foram um borrão completo. Minha mente era uma confusão de pensamentos caóticos. De um lado, a imagem da minha porta de madeira despedaçada e o cheiro de mofo do porão sujo; do outro, a imagem de uma mansão escura e um homem sem rosto esperando por mim. O que era pior? Morrer nas mãos de criminosos ou me tornar a esposa troféu oculta de um fantasma milionário?

Voltei para a minha mesa no escritório. Sentei-me de forma mecânica na cadeira ergonômica e liguei a tela do computador. Meus olhos viam as planilhas cheias de dados e números, mas minha mente estava no cartão preto dentro do meu bolso. Olhei para o relógio no canto inferior da tela. Faltavam uma hora e quarenta e cinco minutos. O tempo estava voando.

Tentei focar no trabalho para fazer o tempo passar de um jeito menos doloroso, digitando algumas informações aleatórias apenas para parecer ocupada caso o supervisor passasse. Quinze minutos se passaram na mais perfeita e angustiante calmaria. Eu jurava que estava segura ali dentro. A empresa era enorme, tinha catracas eletrônicas com biometria no saguão, seguranças armados na entrada principal e câmeras vigiando cada centímetro dos corredores. Os agiotas eram monstros, mas não eram loucos de invadir um império corporativo no meio do centro financeiro da cidade. Eles não fariam isso. Não teriam coragem.

Eu estava completamente errada.

Do absoluto nada, um estrondo ecoou vindo da direção da recepção do andar. O som de vidro se partindo foi seguido imediatamente por gritos finos e desesperados das secretárias.

— Onde está a Aurora?! Cadê a vadia?! — aquela mesma voz grossa, violenta e assustadora que tinha me acordado de manhã berrou, ecoando pelo teto alto do escritório aberto.

O meu coração parou. O choque elétrico que percorreu o meu corpo me deixou paralisada na cadeira, com os dedos congelados sobre o teclado do computador. Minha boca secou instantaneamente. Eles estavam ali. Eles tinham quebrado a segurança, tinham invadido o meu santuário.

As pessoas ao meu redor começaram a levantar das mesas em pânico, olhando em direção à entrada. O som de passos pesados e correria começou a se aproximar do meu setor. Eles estavam procurando por mim de mesa em mesa, derrubando divisórias e assustando todo mundo.

O instinto de sobrevivência, aquele mesmo que me jogou para dentro do porão sujo horas atrás, chutou a minha mente para fora do estado de choque. Eu não podia deixar que me vissem ali.

Me joguei para debaixo da mesa, engatinhando rápida como um bicho assustado entre as pernas das cadeiras dos meus colegas que corriam para o lado oposto. O banheiro feminino ficava a poucos metros da minha fileira. Aproveitando o caos e os gritos das pessoas correndo em direções aleatórias, eu me arrastei pelo chão, levantei num pulo quando cheguei perto da porta de madeira branca e entrei com tudo no banheiro, batendo a porta atrás de mim.

Entrei na última cabine, a mais afastada de todas, e tranquei a portinha de plástico com o trinco trêmulo. Subi em cima do vaso sanitário, encolhendo as minhas pernas e colando os meus joelhos no peito, para que ninguém conseguisse ver meus pés por debaixo da fresta da porta caso entrassem ali para revistar.

O banheiro estava em silêncio, mas do lado de fora, os gritos continuavam. Eu conseguia ouvir o barulho de objetos sendo jogados e a voz do agiota exigindo o meu paradeiro, ameaçando quem ficasse no caminho dele.

Lágrimas grossas e quentes começaram a rolar pelo meu rosto descontroladamente. O medo me consumia por inteira, fazendo meus dentes baterem uns contra os outros. Eu estava encurralada. Não tinha porão dessa vez, não tinha vizinha de trás para fugir pelo quintal. Se eles passassem por aquela porta branca, a minha vida acabaria bem ali, no chão sujo de um banheiro de escritório.

Apertei o meu moletom com força, sentindo o objeto quadrado no meu bolso pressionar a minha coxa. O cartão do advogado Yuri Gomes.

Olhei para o relógio no meu pulso. Não tinham se passado nem trinta minutos da nossa conversa. Mas eu não precisava de mais duas horas. Eu não precisava de mais nenhum segundo para pensar. O jogo tinha acabado para mim e eu tinha perdido de todas as formas possíveis.

Apertei o cartão contra o peito, soltando um soluço abafado no escuro da cabine do banheiro, enquanto ouvia o som de passos pesados chutando as portas do corredor logo ali fora.

Eu vou ter que aceitar, pensei, fechando os olhos com força extrema, sentindo o terror e a resignação tomarem conta da minha alma. Eu vou ter que aceitar o contrato com ele. É isso ou morrer.

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