Mundo de ficçãoIniciar sessãoAurora
Eu recuei na cadeira do escritório, sentindo meu corpo inteiro gelar. Minhas mãos apertaram os braços da cadeira com tanta força que meus nós dos dedos ficaram brancos.
— Eu não sei quem você é — eu disse, tentando manter a voz baixa para não chamar a atenção dos meus colegas de trabalho que estavam logo ali do lado. — E eu não vou a lugar nenhum com você.
O homem de terno chique não piscou. Ele não parecia surpreso com a minha recusa. Ele apenas ajeitou a maleta fina que segurava e deu um suspiro curto, o tipo de suspiro de quem está muito acostumado a dar ordens e ser obedecido sem questionamentos.
— Aurora — ele falou, num tom muito calmo, mas que me deu arrepios na espinha. — Eu sei exatamente o que aconteceu na sua casa hoje de manhã. Eu sei que a sua porta foi arrombada com violência. Se você quiser continuar respirando amanhã, sugiro que me acompanhe agora mesmo. Não sou eu quem quer te machucar. Pelo contrário.
A menção à minha porta arrombada me atingiu como um soco forte no estômago. Como ele poderia saber daquilo? Tinha acabado de acontecer. O pânico, que eu achei que tinha controlado, voltou a subir pela minha garganta e me sufocar. Será que ele trabalhava para os agiotas? Será que eles tinham me achado tão rápido assim? Mas agiotas não mandam advogados engravatados e polidos para conversar no meio do expediente de uma empresa. Eles mandam homens enormes com armas.
— Para onde? — perguntei, a voz tremendo tanto que quase não saiu.
— Para o restaurante no térreo do seu próprio prédio. Em público. Seguro e cheio de gente — ele prometeu, apontando para a porta de vidro do setor. — Apenas uma conversa rápida.
Eu olhei para os lados, me sentindo um bicho encurralado. Meus colegas digitavam em seus computadores, tomando café, ignorando completamente o meu desespero silencioso. Engoli em seco, lutei contra a vontade de chorar de novo e acenei com a cabeça. Levantei de forma mecânica, peguei a minha bolsa velha e o segui até o elevador, com as pernas bambas.
O restaurante do prédio era um lugar muito chique, onde apenas os diretores da empresa costumavam comer. O cheiro de café caro e comida boa enchia o ar. Fomos até uma mesa bem afastada no canto, perto de uma grande janela de vidro que mostrava o movimento da rua. Eu me sentei na ponta da cadeira acolchoada, pronta para correr para a rua a qualquer momento.
O homem sentou na minha frente de forma muito elegante e abriu a sua maleta.
— Meu nome é Yuri Gomes — ele finalmente se apresentou de forma oficial, tirando alguns papéis com selos importantes de dentro da pasta. — Sou advogado particular. E estou aqui hoje representando um homem chamado Rodolfo Alves. Ele é um magnata, um homem de negócios de grande prestígio, que tem um profundo interesse em você, Aurora.
Franzi a testa, totalmente perdida naquelas palavras. Aquele nome não significava absolutamente nada para mim.
— Rodolfo Alves? — repeti, achando tudo aquilo muito estranho. — Quem é ele? E como, em nome de Deus, um homem rico sabe quem eu sou? Eu sou apenas uma assistente comum, afundada em problemas até o pescoço.
Yuri Gomes juntou as mãos em cima da mesa de vidro e me olhou com uma expressão muito séria.
— O senhor Rodolfo é um empresário extremamente reservado. Ele conheceu o seu nome e o seu rosto através dos muitos currículos que você andou entregando e espalhando pela cidade nas últimas semanas — o advogado explicou, sem desviar o olhar do meu.
Eu abaixei a cabeça, sentindo o meu rosto queimar de vergonha. Era a mais pura verdade. Mesmo tendo esse emprego onde eu estava agora, o meu salário não cobria nem a sombra dos juros absurdos que os agiotas exigiam de mim. Nas minhas horas de almoço e em todos os meus finais de semana, eu saía desesperada entregando currículos em qualquer lugar que pagasse um pouco a mais. Limpeza, recepção, garçonete, qualquer coisa. Eu precisava de dinheiro para não morrer.
— Eu vi a sua ficha — Yuri continuou a falar com a sua voz mansa. — Sei que você já tem um emprego estável aqui. Mas também sei perfeitamente o motivo de você estar procurando outro emprego de forma tão desesperada. Você precisa de muito dinheiro, Aurora. Mais dinheiro do que um trabalho comum pode pagar.
Cruzei os braços perto do corpo, tentando me defender daquela invasão de privacidade assustadora.
— Isso não é da sua conta, nem da conta do seu cliente — eu disparei, tentando parecer corajosa, embora estivesse morrendo de medo. — O que ele quer comigo então? Me oferecer uma vaga de emprego na empresa dele? É para isso que viemos até aqui?
Yuri deu um sorriso muito pequeno.
— O senhor Rodolfo quer lhe oferecer exatamente aquilo que você mais precisa agora: dinheiro. Ele está disposto a resolver o seu problema. Ele oferece o pagamento total de todas as suas dívidas com os agiotas.
O mundo parou de girar. O barulho dos talheres luxuosos no restaurante, as conversas das outras mesas, o barulho dos carros na rua... tudo sumiu. Trinta milhões de reais. Ele estava falando em pagar mais de trinta milhões de reais por mim.
Meu coração começou a bater tão forte que me deixou tonta e com falta de ar.
— Como... como ele sabe sobre isso? — perguntei, sentindo um frio terrível na barriga. — A minha dívida não é uma informação pública! Como ele sabe dos agiotas? Como ele sabe de tudo?!
— Aurora, por favor, entenda a situação — o advogado disse com a voz firme. — Rodolfo Alves é um magnata. Ele é um homem imensamente rico e muito, muito influente na sociedade. Quando ele se interessou pelo seu currículo, ele simplesmente mandou investigar a sua vida inteira. Ele sabe de tudo sobre você.
Eu me encolhi na cadeira, sentindo como se não tivesse onde me esconder. Yuri não parou de falar. Ele começou a listar os meus traumas como se lesse uma lista no papel.
— Ele sabe sobre a trágica morte do seu pai há alguns anos. Sabe sobre a sua mãe desaparecida, que sumiu no mundo e deixou você completamente sozinha para lidar com o caos. E, principalmente, ele sabe exatamente o tamanho da dívida que seu pai deixou. Ele sabe que o seu tempo acabou hoje de manhã.
As lágrimas começaram a cair dos meus olhos. Era humilhante.
— Tá... — eu sussurrei, secando o rosto com as mãos trêmulas. — Tá bom. Mas ninguém dá dinheiro de graça. O que ele quer em troca de pagar tudo isso?
Yuri Gomes respirou fundo e olhou bem fundo nos meus olhos.
— O senhor Rodolfo quer que você se case com ele.
Arregalei os olhos, chocada e confusa.
— Casar? Por quê? Por que ele faria isso? — perguntei quase gritando num sussurro.
O advogado olhou para os papéis na mesa, com uma expressão pesada.
— O senhor Rodolfo é um homem que foi muito maltratado pela vida, Aurora. Há algum tempo, ele sofreu um acidente terrível. Um acidente tão feio que ele foi completamente desfigurado. O rosto dele foi destruído, e as lesões foram tão profundas que ele não pôde fazer cirurgias para refazer a sua face direito. Ele vive escondido do mundo desde então.







