Contrato assinado

Aurora

A caneta tinteiro pesava uma tonelada entre os meus dedos. Olhei para a folha de papel timbrado pousada sobre a mesa de mogno do escritório particular de Yuri Gomes. O documento estava repleto de termos jurídicos complicados, cláusulas de confidencialidade e números com tantos zeros que minha mente mal conseguia processar. No topo, o nome reluzia em letras pretas: Contrato de União Civil e Mútuo Consentimento de Rodolfo Alves.

— Só falta a sua assinatura aqui, Aurora. E na próxima página também — a voz de Yuri ecoou pela sala silenciosa, calma e profissional.

Olhei para a linha em branco no final da folha. Aquela assinatura era o preço da minha vida. Trinta milhões de reais já haviam sido transferidos naquela mesma hora para uma conta judicial para liquidar a dívida do meu pai com os agiotas. Eu estava salva deles. Mas, em troca, eu estava deixando de me pertencer. Respirei fundo, sentindo o ar sumir dos meus pulmões por um segundo, e apoiei a ponta da caneta no papel. Desenhei as letras do meu nome com a mão trêmula, primeiro em uma página, depois na outra.

Pronto. Está feito. Eu sou uma mulher casada.

Larguei a caneta sobre a mesa e encarei o advogado, engolindo em seco. O silêncio que se seguiu pareceu durar uma eternidade.

— Quando eu vou conhecer o meu marido? — perguntei, tentando manter a voz firme, embora o meu coração estivesse batendo forte contra as minhas costelas. — Quando vou ver o senhor Rodolfo?

Yuri recolheu os papéis com cuidado, guardando-os em uma pasta de couro. Ele me olhou com uma expressão séria, mas não havia crueldade em seus olhos, apenas uma formalidade rígida.

— Essa noite, Aurora. Você irá para a mansão dele ainda hoje — ele respondeu de forma direta. — Mas preciso reforçar o que conversamos antes. A regra principal deste contrato é absoluta e inegociável: vocês só vão interagir à noite e no mais completo escuro. Você não pode vê-lo durante o dia, sob nenhuma circunstância. Os aposentos dele estarão trancados e ele só aparecerá quando o sol se puser e todas as luzes do quarto estiverem apagadas.

Eu pisquei, sentindo um arrepio estranho correr pela minha nuca. Casar no escuro com um homem que eu nunca vi.

— E quando isso vai mudar? — insisti, cruzando os braços. — Eu vou viver no escuro para sempre?

— Só quando ele se sentir à vontade e permitir que você o veja sob a luz — Yuri explicou, levantando-se da cadeira. — Até lá, o cumprimento dessa cláusula garante a validade do acordo. Se você quebrar a regra e acender a luz, o contrato é desfeito e você terá que devolver cada centavo. E nós dois sabemos o que acontece se o dinheiro sumir.

Eu abaixei a cabeça, lembrando do pânico que vivi no banheiro do escritório. O medo de morrer ainda estava fresco demais na minha memória.

— Tudo bem — murmurei, resignada. — Eu aceito as condições. No escuro, então.

Yuri assentiu com a cabeça e abriu a porta da sala, fazendo um gesto para que eu o seguisse.

— Excelente. Agora que a parte burocrática está resolvida, vamos cuidar de você. O senhor Rodolfo fez questão de que você recebesse o melhor tratamento possível antes de ir para a mansão.

Nós descemos até o estacionamento subterrâneo, onde um carro preto blindado e luxuoso nos esperava. O motorista nos levou até um dos bairros mais caros e nobres da cidade, parando em frente a um prédio deslumbrante com fachada de vidro e mármore. Era um spa de altíssimo luxo, daqueles que eu só via em perfis de celebridades na internet e nunca imaginei que passaria perto da porta.

Assim que entramos no ambiente, que cheirava a lavanda e óleo de alecrim, uma mulher jovem, de aparência impecável e sorriso caloroso, veio ao nosso encontro. Ela vestia um terno feminino sob medida e segurava um tablet de última geração.

— Aurora, esta é Samanta, sua nova assistente pessoal — Yuri nos apresentou de forma breve. — A partir de hoje, ela cuidará de absolutamente tudo o que você precisar. Roupas, horários, compromissos e bem-estar. Samanta, deixo a senhora Alves em suas mãos.

O som daquele nome, senhora Alves, fez meu estômago dar uma volta completa.

— É um prazer enorme conhecer você, Aurora! — Samanta disse com uma simpatia tão genuína que me fez relaxar os ombros pela primeira vez no dia. Ela pegou a minha bolsa velha e desgastada sem demonstrar nenhum preconceito. — Vamos? Temos um longo e delicioso dia pela frente. O senhor Rodolfo pediu para não economizarmos em nada.

Samanta me guiou para uma sala privativa à luz de velas, onde uma massagista me esperava. Eu me deitei na maca, ainda tensa, achando que tudo aquilo era um sonho maluco. Mas conforme as mãos da mulher trabalhavam nas minhas costas, desfazendo os nós de puro estresse que se acumularam nos últimos meses de perseguição, meu corpo finalmente começou a ceder. Chorei baixinho, lavando a alma, sentindo o peso do medo ser empurrado para longe.

Depois da massagem, fui levada para a ala do salão de beleza do spa. Foi uma transformação completa. Três profissionais começaram a trabalhar em mim ao mesmo tempo. Cortaram as pontas duplas do meu cabelo, hidrataram os fios até eles brilharem como seda e fizeram uma escova perfeita. Outra profissional cuidou das minhas unhas, lixando e pintando com uma cor elegante. Fizeram extensão de cílios, deixando meu olhar marcante, redesenharam minhas sobrancelhas e limparam cada centímetro da minha pele. Quando olhei no espelho, mal consegui me reconhecer. Eu não era mais a menina assustada e suja de terra do porão. Eu parecia uma mulher poderosa.

Mas o choque de verdade veio quando Samanta me levou ao shopping mais luxuoso da cidade.

Entramos primeiro em uma boutique de lingeries de grife francesa. Samanta conversava com as vendedoras como se estivesse escolhendo doces em uma padaria.

— Vamos levar este conjunto de renda preta, aquele de seda vermelha, os modelos brancos com transparência e todos os corsets disponíveis no tamanho dela — Samanta ordenava, enquanto as funcionárias corriam para empilhar caixas e mais caixas de cetim.

Fiquei com o rosto ardendo de vergonha ao olhar para aquelas peças minúsculas e extremamente sensuais. Eu sabia exatamente para que serviriam aquelas lingeries. Elas seriam usadas na escuridão daquela mansão.

Depois, passamos por lojas de roupas de alta costura, sapatos de grife que custavam mais do que um ano do meu antigo salário, joalherias onde os diamantes brilhavam sob os holofotes, e lojas de maquiagem importada. Eu não escolhia nada; Samanta simplesmente olhava o que combinava comigo e entregava o cartão de crédito preto sem tarja, que parecia não ter limites. No final da tarde, os seguranças do shopping estavam carregando mais de trinta sacolas enormes atrás de nós.

Eu estava em choque absoluto. Minhas mãos suavam só de pensar nos valores que estavam sendo digitados naquelas máquinas de cartão.

— Samanta… para, por favor — eu sussurrei, puxando o braço dela de canto no meio do corredor do shopping, enquanto olhava para os seguranças carregando aquela montanha de luxo. — Isso tudo é uma loucura. Como alguém pode gastar tanto dinheiro assim comigo em poucas horas? Eu nunca vi tanta riqueza na minha vida inteira. É um absurdo!

Samanta parou, olhou para mim com um sorriso doce e tocou levemente o meu ombro, tentando me acalmar.

— Aurora, querida, não fique assustada — ela disse, com a voz suave e tranquila. — Eu sei que para você isso parece uma fortuna inimaginável. Mas escute o que vou te dizer: tudo o que gastamos aqui hoje, todo esse luxo, essas roupas e joias… não representam nem um grão de areia comparado à fortuna real de Rodolfo Alves. Ele é um dos homens mais ricos do país. Para ele, isso é apenas um detalhe. Ele quer que a esposa dele tenha o melhor. Então, por favor, apenas aproveite. Você merece ser bem cuidada.

Olhei para o cartão preto na mão dela e depois para o meu reflexo na vitrine de uma loja de grife. Eu tinha roupas caras, joias no pescoço e uma assistente pessoal, mas a verdade continuava martelando na minha mente: o sol estava começando a se pôr. E a noite na mansão escura estava apenas começando.

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