A porta entreaberta.

Maelis Vaelor…

Fiquei parada no corredor, não consegui dar mais nenhum passo, a porta da suíte de Zairon ainda estava entreaberta quando Lyra se aproximou de mim, com aquele mesmo sorriso no rosto.

— É ficou bonito em você. — ela me olhou de cima abaixo.

Olhei para o meu vestido e depois para ela de volta.

— Obrigada. — agradeci.

— Confesso que não esperava vê-la usando algo assim hoje, cadê o seu vestido?

Eu não respondi, não estava com cabeça para os ataques de Lyra naquele momento. Ela se aproximou alguns passos, o perfume doce que usava quase escondia o cheiro lupino dela, quase…

— Zairon tem bom gosto você não acha? — ela disse segurando as laterais do vestido.

Meu coração falhou uma batida, levantei os olhos e a encarei.

— O quê?

Lyra sorriu de lado. — Achei que já tivesse percebido. — Ela alisou a própria manga como quem comentava algo sem importância. — Foi ele quem escolheu minha roupa para esta noite.

Meu estômago apertou, olhei novamente para a porta da suíte e tudo começou a fazer sentido… Ou pelo menos parecia fazer, ela percebeu exatamente onde minha imaginação havia chegado.

— Não faça essa cara Maelis. — Ela riu baixinho. — Eu e o Zairon crescemos juntos. Sempre foi natural eu entrar naquele quarto.

As palavras dela pareciam gentis, mas havia alguma coisa nelas… Como se cada frase fosse cuidadosamente escolhida para me machucar naquela noite.

— Espero que aproveite a cerimônia.

Ela passou por mim e depois parou, sem olhar para trás, falou quase num sussurro. — Algumas noites mudam completamente a vida de uma mulher, essa será uma delas.

Ela foi embora e eu continuei olhando para a porta entre-aberta do quarto de Zairon, uma parte de mim queria acreditar que tudo aquilo tinha uma explicação simples e a outra… Já imaginava exatamente qual seria.

— Maelis?

A voz da minha mãe me fez despertar em um sobresalto, ela se aproximou segurando uma pequena caixa.

— O que aconteceu?

Forcei um sorriso para ela.

— Não aconteceu  nada.

Ela conhecia meu sorriso.

— Maelis! Você nunca conseguiu mentir para mim.

Baixei os olhos, tentando não transparecer minha inquietude.

— Acho que só estou nervosa, mãe nada demais.

Minha mãe segurou minhas mãos.

— Hoje você completa dezoito anos, minha querida, é normal sentir medo. 

Balancei a cabeça, forçando um sorriso de canto, se eu dissesse o verdadeiro motivo… Precisaria admitir que estava sofrendo por um homem que jamais olharia para mim da maneira que eu desejava.

Minha Mãe me puxou pela mão e seguimos em direção a entrada do grande salão. Por alguns segundos, esqueci completamente Lyra, o Pavilhão do Limiar era ainda mais impressionante por dentro.

Colunas de pedra branca sustentavam um teto tão alto que parecia tocar a lua, cinco enormes estandartes desciam das paredes. Cada um carregava o símbolo de uma das cinco linhagens ancestrais.

Soldados ocupavam posições estratégicas, representantes das alcateias conversavam em pequenos grupos, empresários, políticos, advogados, médicos, todos humanos aos olhos do mundo, mas ali dentro todos podiam mostrar suas verdadeiras essencias. Todos eram lobisomens.

Aquele lugar lembrava muito mais uma cerimônia de Estado do que um ritual sobrenatural. Era exatamente assim que nossa espécie sobrevivia, escondida, misturada aos humanos sem jamais deixar de seguir as próprias leis.

— Fique perto de mim. — minha mãe pediu, segurando minha mão.

Assenti enquanto caminhávamos, e comecei a perceber os olhares em nossa direção, alguns curiosos, outros… Claramente de reprovação.

— É ela? 

 Escutei uma mulher perguntar.

— Sim! A governanta e a filha.

Outra respondeu.

— Pensei que fosse mais...

Ela não terminou, seu olhar desceu para meu vestido, enquanto contorcia o rosto em uma careta.

— Bonita?

A primeira sorriu.

— Importante.

Continuei andando pois aprendi cedo que responder insultos quase sempre piorava as coisas.

— Ouvi dizer que o Alfa finalmente vai anunciar uma Luna hoje.

A conversa chamou minha atenção, me aproximei tentando passar despercebida de duas mulheres que estavam alguns metros à frente.

— Sempre achei que seria Lyra.

— Ela praticamente cresceu dentro da família Draven.

— Faz sentido.

— Os dois combinam, muito.

Meu peito apertou sem perceber, procurei Lyra com os olhos, ela já estava novamente ao lado de Zairon. Conversava com alguns convidados, sua desenvoltura era inclivel ela ria como se aquele lugar lhe pertencesse, e talvez pertencesse mesmo.

Um toque grave ecoou pelo salão, as conversas cessaram imediatamente e todos abriram caminho. Uma mulher caminhava lentamente pelo corredor central, alta, elegante com os cabelos grisalhos presos num coque impecável vestida com um longo manto azul-escuro que cobria seus ombros e um cajado branco em sua mão que tocava o chão num ritmo constante.

Toc. Toc. Toc.

Não era preciso perguntar quem era a autoridade que caminhava em direção ao altar. Quando ela passou por mim… Diminuiu o passo, ela não olhou para meu rosto, olhou para o meu colar escondido entre as dobras do vestido.

Senti os olhos da Juiza suprema, permaneceram em meu pescoço por um segundo e depois seguiram em frente, senti um arrepio percorrer minha nuca, não entendi aquele olhar.

— Mãe...

Ela me respondeu quase sem mover os lábios.

— Não olhe diretamente para ela.

— Quem é?

— Ysara. A Juíza Suprema.

Continuei observando aquela mulher enquanto ela seguia para o centro do salão, por algum motivo… Tive a estranha sensação de que ela não havia me visto pela primeira vez, era como se ela já soubesse exatamente quem eu era.

O silêncio tornou-se absoluto, e Zairon se aproximou ele vestia o traje cerimonial negro da família Draven. O símbolo de Varneis brilhava discretamente sobre o peito dele.

Todos se curvaram em sinal de respeito e eu tambem, quando ergui a cabeça… os olhos dele já estavam sobre mim, não sobre minha mãe, nem sobre Lyra, mas sobre mim.

Por um instante, todo o salão pareceu desaparecer, então seus olhos desceram lentamente até o vestido azul, a expressão séria  no rosto dele suavizou, quase imperceptivelmente, como se tivesse sentido alívio.

Meu coração acelerou, talvez… Talvez aquele vestido realmente tivesse vindo dele, antes que eu pudesse entender o motivo daquele olhar… Lyra se aproximou e segurou naturalmente o braço dele.

Ela sorriu para ele e depois olhou diretamente para mim, sem mover os lábios, apenas desenhou uma única palavra.

"Meu."

Meu coração afundou, no mesmo instante, Ysara ergueu o cajado, a voz dela ecoou por todo o Pavilhão do Limiar.

— Que todos ocupem seus lugares.

A cerimônia do novo Alfa Supremo estava prestes a começar.

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