Mundo de ficçãoIniciar sessãoMaelis Vaelor…
As palavras de Zairon permanecem suspensas no salão, durante alguns segundos, nada acontece.
Continuo olhando para ele, esperando que termine a frase, que acrescente uma explicação, que diga que foi obrigado, que existe algum engano ou que pretende retirar aquelas palavras antes que o Selo as reconheça.
Zairon não diz mais nada, o fio escarlate estremece entre nós, uma rachadura atravessa a luz, depois outra, o primeiro impacto atinge meu peito como um golpe, o ar desaparece dos meus pulmões, e minhas pernas perdem a força. Seguro o vestido, tentando permanecer de pé, mas a dor cresce até alcançar meus ossos.
O fio se parte, uma das extremidades desaparece dentro do peito de Zairon, a outra se retrai para o meu corpo como uma lâmina em brasa.
Caio de joelhos, minha mãe grita meu nome, ao mesmo tempo, um uivo atravessa o pavilhão, outro responde, as feras que estavam curvadas se levantam agitadas. Olhos ganham reflexos dourados, garras aparecem e rosnados sacodem o salão. Um dos Alfas Territoriais segura a própria cabeça, como se lutasse contra a fera dentro dele.
— Controlem-se! — Zairon ordena.
Ninguém obedece de imediato, o Selo do Instinto pulsa sobre o altar, as cinco chamas se agitam, crescendo até quase alcançar o teto de vidro.
— O que está acontecendo? — alguém pergunta.
— Ela foi rejeitada — responde outra voz.
— Uma não manifesta quase se tornou Luna Suprema.
— A Deusa deve ter cometido um erro.
As palavras chegam abafadas, como se eu estivesse novamente debaixo da água, loba Vazia. Rejeitada. Indigna.
Minha mãe tenta se aproximar, mas algumas pessoas bloqueiam o caminho. Ysara ergue o cajado, ordenando que todos recuem, porém o salão se transforma num redemoinho de vozes e movimentos.
Lyra surge diante de mim, ela se abaixa com cuidado, segurando a saia para não tocar no chão.
— Maelis — ela chama, com uma falsa preocupação. — Você está me ouvindo?
Ergo os olhos, uma lágrima escorre pelo rosto dela, perfeita o bastante para convencer qualquer pessoa que observe de longe.
Lyra toca meu ombro, seus dedos apertam exatamente onde bati durante a queda daquela manhã.
— Eu avisei. — ela sussurra perto do meu ouvido. — Você não usaria esse vestido por muito tempo.
Empurro a mão dela.
— Não toque em mim.
Ela recua depressa, levando a mão ao peito. Zairon dá um passo em nossa direção, por um instante, nossos olhos se encontram.
A máscara de frieza permanece no rosto dele, mas sua mão se fecha com tanta força que os nós dos dedos perdem a cor, será mesmo que existe dor em seus olhos.
Não me importa, ele prometeu me manter segura, foi ele quem me destruiu, tento me levantar, mas o pavilhão gira. Minha respiração fica curta demais, rápida demais. Puxo o ar, porém meus pulmões não parecem recebê-lo.
— Maelis, olhe para mim. — minha mãe pede, finalmente alcançando meu lado.
Não consigo o teto de vidro parece descer sobre minha cabeça, as paredes se aproximam, comprimindo o espaçom, minhas mãos formigam e o som dos rosnados se transforma num zumbido agudo.
— Preciso sair daqui.
— Espere. Eu vou com você.
— Não.
Se permanecer mais um segundo neste salão, vou desaparecer diante de todos, passo por minha mãe e corro. Alguém chama meu nome, não sei se é minha mãe, Ysara ou Zairon.
Não me viro, atravesso os portões do Pavilhão do Limiar e entro na floresta, o ar frio b**e no meu rosto, mas não consegue alcançar meus pulmões. A barra do vestido prende nos arbustos, os galhos arranham meus braços e minhas botas afundam na terra úmida.
Continuo correndo, a música da cerimônia desaparece atrás de mim, depois somem as vozes, permanecem apenas meus passos e as palavras de Zairon, repetidas dentro da minha cabeça.
Eu a rejeito.
Tropeço numa raiz e quase caio, apoio a mão num pinheiro, tento respirar lentamente, como minha mãe ensinou, mas o ar entra aos pedaços. O chão se move sob meus pés.
— Uma coisa de cada vez. — murmuro para mim mesma.
A casca da árvore pressiona minha palma, áspera, fria, real. Fecho os olhos e conto as respirações.
Uma.
Duas.
Na terceira, o medalhão esquenta, abro os olhos, o metal queima contra minha pele. Puxo a corrente para afastá-lo, mas a pedra presa no centro pulsa como um pequeno coração.
Uma névoa branca se arrasta entre as árvores, não existe vento, mesmo assim, ela avança, olho para trás, as luzes do pavilhão desapareceram, embora eu não tenha corrido por tanto tempo. A trilha por onde vim está coberta por raízes e pinheiros antigos.
— Mãe?
Nenhuma resposta.
Um sussurro atravessa a floresta.
— Maelis...
Meu corpo inteiro se arrepia.
— Quem está aí?
A névoa se abre diante de mim, revelando uma trilha estreita. Meu bom senso ordena que eu recue, mas não existe mais caminho atrás de mim, o medalhão puxa a corrente na direção da passagem, como se alguma coisa invisível o chamasse.
Avanço, a cada passo, a floresta muda, os pinheiros ficam mais altos, as raízes mais grossas, e o silêncio mais profundo a trilha termina numa clareira.
Cinco pedras enormes formam um círculo sob a luz da lua, reconheço os símbolos gravados nelas.
Varneis.
Serelis.
Nevessa.
Ruveria.
Solenira.
Existe um espaço vazio entre a primeira e a última pedra.
Um sexto lugar, me proximo devagar.
— Isso não deveria estar aqui.
O medalhão queima ainda mais, a corrente se rompe mas a joia não cai, permanece suspensa diante do meu peito, envolvida por uma luz prateada.
Os símbolos das cinco pedras se acendem, a névoa invade o espaço vazio e sobe, formando uma coluna branca. Aos poucos, ela se abre no meio como uma cortina.
Do outro lado, enxergo árvores que não pertencem à Reserva Dorenva, pequenas luzes azuladas flutuam entre os galhos e, muito além delas, uma claridade ilumina o horizonte.
Passos correm pela floresta atrás de mim.
— Maelis! — Zairon grita.
Meu coração se contrai, como assim ele está vindo, durante um segundo vergonhoso, quase me viro, quase espero por ele, então lembro do modo como pronunciou meu nome diante das cinco linhagens.
Não como uma promessa, como uma sentença, seguro o medalhão suspenso no ar e atravesso a névoa, o frio muda, o cheiro da floresta muda, a passagem começa a se fechar atrás de mim.
Zairon surge entre as árvores, correndo em minha direção, nossos olhos se encontram pela última abertura, ele estende a mão.
— Não atravesse!
A névoa se fecha, e a voz dele desaparece, quando me viro, a floresta termina poucos metros adiante.
Um vale imenso se abre diante de mim, cercado por montanhas e atravessado por um rio prateado. No centro dele, uma cidade impossível brilha sob a lua.
Atrás de mim, um galho se parte, não estou sozinha, uma voz feminina surge entre as árvores:
— A sexta Vereda voltou a se abrir.
Prendo a respiração, a mulher dá mais um passo na minha direção.
— E escolheu você.







