Rejeitada pelo alfa destinada a colocá-lo de joelhos
Rejeitada pelo alfa destinada a colocá-lo de joelhos
Por: Aldenise Silva
A filha da governanta!

Dorenva Reserve, Washington 4 de outubro de 2017

Maelis Vaelor…

Acordo antes do despertador e encontro minha mãe passando o uniforme de governanta na pequena cozinha da casa onde vivemos, nos fundos da propriedade Draven.

— Você deveria voltar para a cama. — ela diz, sem tirar os olhos do ferro. — A cerimônia só começa à noite.

— E deixar a senhora preparar aquela mansão inteira sozinha?

Minha mãe solta um suspiro carregado por todos os anos em que tenta me convencer de que não preciso pagar pela bondade da família Draven.

Minha Mãe, Elara Vaelor trabalha nesta propriedade desde antes do meu nascimento. Os Vaelor servem aos Draven há gerações, embora, depois da morte do meu pai, restemos apenas nós duas.

— Hoje não é um dia comum, Maelis.

Olho para o relógio digital sobre a geladeira. Às 23:47, completo oficialmente dezoito anos e se minha loba não despertar até o ultimo instante, nenhuma desculpa permanecerá. Serei registrada como uma lupina não manifesta.

— Justamente por isso preciso me ocupar, mãe.

Ela desliga o ferro e segura meu rosto entre as mãos.

— Você não é uma loba  vazia minha querida.

Sorrio porque ela precisa que eu acredite, entretanto, depois de tantos anos sem escutar uma segunda consciência dentro de mim, até a esperança começa a parecer uma mentira piedosa.

Saímos juntas pouco depois das sete, o complexo Draven já está fervilhando, caminhões de fornecedores atravessam os portões, funcionários instalam luzes nos jardins e seguranças conferem autorizações em tablets. Ao longe, as torres de Norlávia surgem entre a neblina, enquanto o restante da propriedade desaparece sob os pinheiros da reserva.

Nesta noite, representantes de diferentes territórios ligados a linhagem de Varneis assistirão à ascensão de Zairon Draven. O Pavilhão do Limiar foi preparado para transformar o Alfa de Dorenva no Alfa Supremo mais jovem da linhagem.

Tento não pensar nele, mas falho antes mesmo de alcançar a entrada principal. Zairon aparece no alto da escadaria, falando ao celular. Ele veste uma camisa preta com as mangas dobradas até os antebraços, os cabelos prateados ainda estão úmidos e sua expressão tem a mesma seriedade que faz até guerreiros mais velhos medirem as palavras diante dele.

Zairon cresceu nesta propriedade, enquanto eu vivo nos fundos dela. Atravessamos os mesmos corredores e respiramos o mesmo ar, mas pertencemos a mundos completamente diferentes.

Ele encerra a ligação e desce os degraus, baixo os olhos depressa, fingindo conferir a caixa de cristais que carrego, quando passo por ele, sinto seu cheiro de pinheiros, chuva e madeira queimada, meu coração comete a humilhação de acelerar.

— Maelis.

Paro imediatamente. Zairon sabe meu nome.  Me viro devagar, e os olhos azul-acinzentados dele descem até a caixa em meus braços, depois sobem para o meu rosto e permanecem ali por um segundo mais longo do que deveriam.

— Está pesada?

— N-não. Eu consigo carregar.

A sombra de alguma coisa quase suaviza sua expressão.

— Não duvido disso.

Ele estende a mão, como se pretendesse pegar a caixa, por um instante, acredito que seus dedos tocarão os meus.

— Zairon!

Lyra Voss atravessa o salão com um sorriso luminoso, ela é um ano mais velha do que eu e filha do antigo Beta de Thane Draven. Lyra cresceu próxima da família, participou de jantares reservados e passou a vida sendo tratada como a futura senhora daquela propriedade.

Lyra toca o braço de Zairon com intimidade.

— Seu pai está procurando você.

Ele afasta a mão da caixa.

— Estarei no escritório.

Antes de sair, Zairon volta a olhar para mim é rápido, quase insignificante, mesmo assim, meu coração guarda aquele olhar como se ele tivesse me oferecido alguma coisa.

Lyra espera até que os passos dele desapareçam e então se aproxima tocando meu braço.

— Você gosta dele?

Meu rosto esquenta.

— Não sei do que está falando.

— Não precisa ter vergonha.

O tom dela é doce, mas seus dedos apertam minha pele.

— Lyra, está machucando.

O sorriso permanece.

— Você só precisa lembrar qual é o seu lugar.

Puxo o braço, mas ela aperta ainda mais.

— Solte-me.

— Não deveria olhar para ele daquele jeito.

— Eu não fiz nada.

Passos ecoam no corredor e Lyra olha por cima do meu ombro, seus olhos vacilam e percebo que Zairon está voltando, a mudança nela acontece depressa demais.

Os dedos se soltam, o sorriso desaparece e seus olhos ficam úmidos. Antes que eu compreenda o que pretende fazer, Lyra segura meu pulso e j**a o próprio corpo para trás.

— Maelis!

Ela despenca da escada e me puxa junto, tudo acontece num piscar de olhos, a caixa escapa das minhas mãos. Cristais se espalham pelos degraus, meu corpo perde o equilíbrio e, por um instante, vejo Zairon avançar em nossa direção.

Sua mão se estende para mim, Lyra grita e ele muda de direção a segurando antes que ela atinja o chão, enquanto eu caio sozinha, meu ombro b**e contra a lateral da escada e uma dor aguda atravessa meu braço. Meu joelho raspa nos degraus antes de atingir o piso de pedra, e fico sem ar.

— Lyra! — Zairon a segura contra o peito. — Você está ferida?

— Estou bem — ela murmura, agarrada à camisa dele. — Foi apenas um acidente.

Tento me levantar, mas uma fisgada percorre meu pulso.

— Ela me puxou. — sussuro quase sem ar.

Zairon olha para mim, primeiro para meu rosto, depois para meu braço ferido, a preocupação surge em seus olhos, rápida e involuntária. Lyra tenta apoiar o pé no chão e solta um gemido, fazendo a atenção dele voltar imediatamente para ela.

— Eu só queria ajudá-la a carregar a caixa. — Lyra diz, com a voz trêmula. — Talvez eu tenha insistido demais.

— Isso não aconteceu assim. — tento argumentar.

Ela abaixa os olhos.

— Não fique zangado com ela. Maelis apenas se assustou quando tentei segurá-la.

Zairon endurece o maxilar, ele olha para os cristais espalhados, para Lyra em seus braços e depois para mim, ainda caída ao lado da escada.

— Por que fez isso com ela, Maelis?

A pergunta dói mais do que a queda, ele não pergunta se estou bem, não pergunta por que meu braço sangra, ele já decidiu em quem acredita.

— Eu não a empurrei.

Lyra tenta se afastar dele.

— Tudo bem, eu consigo andar.

Ao colocar o pé no chão, ela dobra o tornozelo e quase cai, fazendo Zairon a segurar.

— Não consegue. — ele diz olhando para ela.

Antes que eu diga qualquer coisa, ele passa um braço por trás dos joelhos dela e a pega no colo. Lyra envolve o pescoço dele e encosta a cabeça em seu ombro, quando passam por mim, ela abre os olhos.

A satisfação desaparece depressa demais para que Zairon perceba,  ele dá alguns passos, mas para olhando para trás. 

Seus olhos encontram meu braço ferido e descem até meu joelho machucado, durante um instante, parece que vai voltar, mas Lyra aperta os braços ao redor de seu pescoço.

— Zairon…

Ele desvia o olhar e continua andando, enquanto eu fico sozinha entre os cristais quebrados.

hoje a  noite, a Lua revelará a companheira destinada de Zairon Draven. E, por mais que eu tente arrancar essa esperança ridícula do coração, uma parte de mim ainda deseja que ele finalmente enxergue a garota que sempre deixa para trás.

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