O lugar que nunca foi meu.

Maelis Vaelor…

O meu braço ainda lateja quando alcanço a área de serviço da mansão. Escondo o ferimento sob a manga, mas minha mãe percebe antes mesmo que eu atravesse a cozinha.

— O que aconteceu?

— Caí da escada.

Minha mãe abandona a bandeja que organiza e segura meu pulso com cuidado. Quando afasta o tecido sujo de sangue, seu rosto endurece.

— Isso não aconteceu apenas com uma queda.

Desvio os meus olhos do dela.

— Lyra estava comigo.

Minha mãe fica em silêncio por alguns segundos, não precisa perguntar mais nada, ela conhece a filha dos Voss tão bem quanto todos naquela propriedade, embora quase ninguém enxergue o que existe por trás de seus sorrisos.

— Zairon viu?

A pergunta aperta alguma coisa dentro de mim.

— Viu o que Lyra queria que ele visse.

Minha Mãe me leva até uma cadeira e limpa o corte, a ardência me faz prender a respiração.

— Você não precisa trabalhar hoje.

— Preciso, sim. A senhora não dará conta de tudo sozinha.

— Eu prefiro enfrentar cem convidados exigentes a ver você sendo tratada como culpada por algo que não fez.

Antes que eu responda, a porta da cozinha se abre. Lyra entra acompanhada por duas jovens da família Voss e não existe qualquer sinal de dor em seu tornozelo, mesmo assim, ela caminha devagar, apoiada no braço de uma delas.

— Maelis! — ela exclama, como se estivesse aliviada por me encontrar. — Fiquei tão preocupada.

Minha mãe se coloca entre nós.

— Ela precisa descansar.

O sorriso de Lyra permanece.

— Claro. A culpa foi minha, eu não deveria ter tentado ajudá-la sem pedir antes.

As duas jovens trocam olhares, uma delas observa meu braço.

— Então foi verdade?

— O quê? — pergunto.

— Que você empurrou Lyra porque ela estava conversando com Zairon.

Meu estômago se contrai.

— Eu não empurrei ninguém.

Lyra segura a mão da amiga.

— Não repita isso. Foi um acidente.

Sua defesa soa mais condenatória do que uma acusação.

— Não foi um acidente — digo. — Você segurou meu braço e se jogou da escada.

O sorriso dela vacila por apenas um instante.

— Maelis, talvez tenha batido a cabeça quando caiu.

Minha mãe avança, mas seguro sua mão antes que responda, se Elara confrontar a filha do antigo Beta, será ela quem pagará por isso.

Lyra observa nossos dedos unidos e compreende minha escolha.

— Vim trazer uma coisa — ela anuncia.

Uma das jovens coloca uma caixa sobre a mesa e Lyra retira a tampa e revela um vestido azul-escuro. Simples, mas bonito, com pequenas pedras prateadas costuradas no decote.

Reconheço imediatamente, é o vestido que minha mãe passou semanas ajustando para mim.

— Nós o encontramos na lavanderia — explica Lyra. — Pensei que gostaria de recebê-lo antes da cerimônia.

Pego a peça, sentindo um desconforto que não sei explicar, então percebo o rasgo. A costura lateral está aberta desde a cintura até quase a barra.

— Que pena — murmura uma das jovens.

Lyra leva a mão à boca.

— Deve ter prendido em alguma máquina.

Minha mãe examina o tecido.

— Este corte foi feito por uma lâmina.

A cozinha fica em silencio e Lyra inclina a cabeça.

— Está acusando alguém?

— Estou dizendo o que vejo. — minha mãe responde com o vestido ainda na mão.

— Talvez Maelis tenha rasgado o próprio vestido durante a queda. — responde ela. — Vi que ela ficou bastante nervosa.

— O vestido estava na lavanderia. — digo. — Eu nem o usei.

Lyra olha para mim com falsa compaixão.

— Então espero que sua mãe consiga consertá-lo. Seria uma vergonha comparecer à cerimônia com roupas de trabalho.

Ela se aproxima e abaixa a voz para que apenas eu escute.

— Talvez seja melhor não comparecer.

Meu peito esquenta.

— Todos os membros de Dorenva foram convocados.

— Convocada não significa desejada.

Lyra se afasta antes que eu responda, quando alcança a porta, já não manca, enquanto minha mãe continua encarando o vestido danificado.

— Eu consigo consertar.

— A senhora ainda precisa terminar os quartos.

— Então não durmo.

— Mãe…

— Você entrará naquele pavilhão com a cabeça erguida, mesmo que eu precise costurar cada ponto novamente.

Antes que eu consiga abraçá-la, uma voz masculina surge no corredor.

— Maelis.

Meu corpo inteiro fica tenso, Zairon está parado na entrada da cozinha. Ele já trocou a camisa preta por uma peça social escura, dois guardas aguardam atrás dele, mantendo distância suficiente para fingir que não escutam, vejo os olhos dele percorrem a sala, param na caixa aberta e depois descem até o vestido rasgado.

— Preciso falar com você.

Minha mãe segura o tecido com mais força.

— Ela está ferida.

Zairon olha para meu braço, o corte foi coberto, mas uma mancha avermelhada atravessa o curativo.

— Eu sei.

A resposta dele me surpreende, ele viu, mesmo carregando Lyra, mesmo escolhendo ir embora, ele viu, saio da cozinha e o acompanho até o corredor. Zairon espera os guardas se afastarem antes de falar.

— Lyra disse que não quer apresentar uma queixa formal.

Solto uma risada sem humor.

— Que generosa.

— Não torne isso mais difícil.

— Para quem?

O maxilar dele se contrai.

— Você poderia ter causado uma lesão grave.

— Ela me puxou.

— Lyra tentou ajudá-la.

— Foi isso que ela contou?

— Foi o que eu vi.

— O senhor viu apenas o final.

A formalidade o incomoda, percebo pela forma como seus olhos se estreitam.

— Desde quando me chama de senhor?

— Desde que descobri que minha palavra vale menos do que a dela.

Zairon permanece imóvel, por um instante penso que me mandará embora da propriedade. Em vez disso, ele olha outra vez para meu curativo.

— O médico da alcateia pode examinar seu braço.

— Não preciso de pena.

— Não ofereci pena.

— Então o que está oferecendo?

Ele não me responde, os olhos dele ficam presos aos meus por tempo demais. A irritação em seu rosto desaparece, substituída por alguma coisa mais confusa, quase faminta, que faz meu coração perder o ritmo.

Zairon ergue a mão, por um segundo, acredito que ele tocará meu rosto mas ele para antes, seus dedos se fecham no ar e retornam ao lado do corpo.

— Fique longe de Lyra durante a cerimônia — ele ordena.

A esperança ridícula morre tão depressa quanto surgiu.

— Para protegê-la de mim?

Zairon desvia os olhos.

— Para impedir outro problema. — ele diz se virando.

Ele se afasta antes que eu encontre uma resposta. Horas depois, minha mãe ainda tenta salvar o vestido quando alguém b**e à porta da pequena casa onde moramos.

Um funcionário da mansão entra carregando uma caixa longa, coberta por uma fita prateada.

— Entrega para Maelis.

Minha mãe e eu trocamos um olhar.

— Deve haver algum engano. — digo.

O homem confere o nome preso à tampa.

— Não há.

Ele deixa a caixa sobre a mesa e vai embora sem revelar quem a enviou, me aproximo da caixa e abro devagar, dentro dela, encontro um vestido azul profundo, mais bonito do que qualquer roupa que já usei. O tecido parece mudar de tom quando alcançado pela luz, e pequenas pedras prateadas formam desenhos delicados ao longo do corpete.

Minha mãe toca a peça com cuidado.

— Isso custou mais do que eu ganho em meses.

Procuro algum cartão entre as dobras, mas não encontro nada, apenas uma pequena etiqueta presa à parte interna.

Casa Draven, meu peito se aperta, Zairon viu o vestido rasgado, também viu meu braço ferido, talvez tivesse enviado aquilo apenas para evitar que uma moradora da propriedade aparecesse diante das cinco linhagens usando uma roupa danificada. Talvez não quisesse que a cerimônia fosse prejudicada por mais um escândalo.

— Não posso usar. — murmuro.

— Pode, sim. — minha mãe responde. — E vai.

— Alguém pode pensar que estou tentando parecer algo que não sou.

Elara segura o vestido diante de mim.

— Então deixe que olhem. Eles já falam de você mesmo quando não existe motivo.

Passo pela mansão Draven em direção ao pavilhão, com o céu já escuro, o vestido se ajusta ao meu corpo como se tivesse sido feito sob medida para mim, ele não aperta meu braço machucado e a manga termina exatamente acima do curativo.

Esse detalhe me incomoda mais do que deveria, convidados atravessam a entrada, guardas verificam documentos e veículos oficiais ocupam o estacionamento. Ao longe, a névoa cobre a Vereda de Varneis, escondendo a passagem para Edravena entre os pinheiros.

Seguro a saia e respiro fundo, por um instante, me sinto diferente, não importante, mas visível. Então vejo Lyra saindo da ala reservada à família Draven.

Ela ajeita o fecho do proprio vestido e passa os dedos pelos cabelos, como se tivesse acabado de se recompor, atrás dela, a porta da suíte particular de Zairon se fecha, Lyra me encontra no corredor.

Seus olhos descem lentamente pelo vestido, ela parece surpresa, logo em seguida, uma raiva silenciosa atravessa seu rosto antes que o sorriso retorne. Desta vez, ela não precisa dizer nada, seu olhar diz por ela.

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