Mundo de ficçãoIniciar sessãoA porta pesada de madeira fechou-se com um baque abafado, levando embora a presença avassaladora de Dante e deixando um silêncio denso no quarto. Soltei o ar que eu nem sabia que estava prendendo, sentindo os ombros caírem sob o peso de uma exaustão que parecia ter ossos próprios.
Martha, a mulher de cabelos prateados, aproximou-se da bacia fumegante com passos firmes, mas o olhar que ela lançou na minha direção não tinha crueldade. Havia uma curiosidade calculista ali, misturada a um respeito silencioso que me deixou desconfortável. — Venha, menina — disse ela, com uma voz áspera pela idade, mas firme. — Você está tremendo tanto que seus dentes parecem castanholas. Se pegar uma febre forte nesta floresta, não vai durar até o amanhecer. Não protestei. Minhas pernas estavam fracas demais para qualquer demonstração de orgulho inútil. Com a ajuda de Martha, consegui me livrar dos restos do vestido de noiva encharcado de lama e sangue seco. Cada centímetro do tecido rasgado parecia colar na minha pele como se quisesse levar pedaços de mim junto. Quando fiquei nua diante da bacia, cruzei os braços sobre o peito em um gesto instintivo de proteção, cobrindo a cicatriz sensível onde a marca da rejeição de Caleb ainda pulsava em um vermelho feio. Martha não fez perguntas sobre a marca, mas notei o instante em que os olhos dela bateram no centro do meu peito. Ela conteve a respiração por uma fração de segundo, os lábios finos se apertando em uma linha dura, antes de mergulhar um pano grosso na água morna e começar a limpar a lama das minhas costas. — A água está quente. Entre na bacia, vai aliviar o choque no seu corpo — ela instruiu, indicando uma banheira de cobre improvisada que havia sido trazida para o canto do quarto enquanto conversávamos. Entrei na água com cuidado. O calor bateu na minha pele congelada como um abraço urgente, fazendo um suspiro escapar dos meus lábios. A sensação de tirar a sujeira daquela noite maldita foi quase terapêutica, embora a dor no peito continuasse latejando a cada batida do meu coração. Enquanto Martha lavava meu cabelo, esfregando o excesso de terra e folhas presas nos meus fios ruivos, minha mente não conseguia parar de girar. Caleb. A imagem dele no altar, puxando Chloe pela cintura e rindo da minha cara, reapareceu na minha mente com uma clareza dolorosa. Como eu pude ser tão cega? Anos entregando minha lealdade, aceitando migalhas de afeto, acreditando que o jeito bruto dele era apenas o fardo de ser um Alfa. E Chloe... a garota que chorava comigo, que comia na minha mesa, que fingia me apoiar em cada detalhe dos preparativos do casamento. Eles planejaram tudo nas minhas costas. A rejeição pública não foi um impulso; foi uma execução calculada para me destruir diante de toda a alcateia, para me expulsar como lixo enquanto eles assumiam o poder. Uma lágrima quente misturou-se à água da banheira, mas limpei o rosto com raiva antes que Martha pudesse notar. Eu não ia chorar mais por ele. A dor ainda rasgava por dentro, mas a humilhação estava dando lugar a algo muito mais perigoso: um ódio frio, densamente concentrado. — Pronto — murmurou Martha, entregando-me uma toalha grossa de linho assim que saí da banheira. Ela apontou para uma muda de roupas limpas deixada sobre a cama: uma calça de couro macio e escuro, e uma túnica larga de algodão preto que parecia enorme para mim, mas que pelo menos era seca e limpa. — Vista-se. Vou trazer algo quente para você comer. Não ouse recusar. — Obrigada, Martha — falei, a voz saindo um pouco mais firme do que antes. A mulher apenas assentiu com a cabeça e saiu do quarto, fechando a porta novamente. Fiquei sozinha com minhas roupas novas e meus pensamentos. Vesti a túnica, sentindo o tecido levemente largo cair sobre meus ombros. O cheiro que vinha da roupa não era de mofo ou poeira; era o mesmo cheiro de pinho queimado e terra que marcava a presença de Dante. Aquilo me deu um arrepio estranho na espinha. Caminhei até a janela alta de pedra, espiando através das grades de ferro. A tempestade lá fora havia diminuído um pouco, transformando-se em uma garoa fina que caía sobre os picos escuros da montanha. O Castelo das Sombras era isolado, sombrio, cercado por precipícios e lendas que a minha antiga matilha usava para assustar os fracos. Mas, olhando para a vastidão escura daquela floresta, percebi que eu não sentia medo. O medo tinha ficado lá atrás, no altar da Lua Prateada, junto com as risadas de deboche de Caleb e Chloe. Minutos depois, Martha retornou com uma tigela de caldo fumegante e um pedaço de pão rústico. Comi em silêncio, sentindo o calor da comida devolver um pouco de cor às minhas bochechas e força aos meus músculos. Assim que terminei, a exaustão bateu novamente com tanta força que mal consegui me arrastar até a cama. Deitei-me sobre as peles pesadas, puxando o cobertor até o queixo. O colchão era macio, e o ambiente estava aquecido pelo fogo que ainda estalava na lareira. Fechei os olhos, esperando que o sono me apagasse por algumas horas. Foi então que eu ouvi passos pesados no corredor de pedra do lado de fora. Não eram passos apressados de empregados. Eram passadas firmes, rítmicas, inconfundíveis. O som parou bem diante da porta do meu quarto. Minha respiração travou na garganta, e todos os meus sentidos se alarmaram instantaneamente. A maçaneta girou com um rangido metálico suave, e a porta se abriu lentamente na penumbra.






