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Capítulo 5: O Banho de Água Quente e o Fantasma do Passado

​A porta pesada de madeira fechou-se com um baque abafado, levando embora a presença avassaladora de Dante e deixando um silêncio denso no quarto. Soltei o ar que eu nem sabia que estava prendendo, sentindo os ombros caírem sob o peso de uma exaustão que parecia ter ossos próprios.

​Martha, a mulher de cabelos prateados, aproximou-se da bacia fumegante com passos firmes, mas o olhar que ela lançou na minha direção não tinha crueldade. Havia uma curiosidade calculista ali, misturada a um respeito silencioso que me deixou desconfortável.

​— Venha, menina — disse ela, com uma voz áspera pela idade, mas firme. — Você está tremendo tanto que seus dentes parecem castanholas. Se pegar uma febre forte nesta floresta, não vai durar até o amanhecer.

​Não protestei. Minhas pernas estavam fracas demais para qualquer demonstração de orgulho inútil. Com a ajuda de Martha, consegui me livrar dos restos do vestido de noiva encharcado de lama e sangue seco. Cada centímetro do tecido rasgado parecia colar na minha pele como se quisesse levar pedaços de mim junto. Quando fiquei nua diante da bacia, cruzei os braços sobre o peito em um gesto instintivo de proteção, cobrindo a cicatriz sensível onde a marca da rejeição de Caleb ainda pulsava em um vermelho feio.

​Martha não fez perguntas sobre a marca, mas notei o instante em que os olhos dela bateram no centro do meu peito. Ela conteve a respiração por uma fração de segundo, os lábios finos se apertando em uma linha dura, antes de mergulhar um pano grosso na água morna e começar a limpar a lama das minhas costas.

​— A água está quente. Entre na bacia, vai aliviar o choque no seu corpo — ela instruiu, indicando uma banheira de cobre improvisada que havia sido trazida para o canto do quarto enquanto conversávamos.

​Entrei na água com cuidado. O calor bateu na minha pele congelada como um abraço urgente, fazendo um suspiro escapar dos meus lábios. A sensação de tirar a sujeira daquela noite maldita foi quase terapêutica, embora a dor no peito continuasse latejando a cada batida do meu coração.

​Enquanto Martha lavava meu cabelo, esfregando o excesso de terra e folhas presas nos meus fios ruivos, minha mente não conseguia parar de girar.

​Caleb.

​A imagem dele no altar, puxando Chloe pela cintura e rindo da minha cara, reapareceu na minha mente com uma clareza dolorosa. Como eu pude ser tão cega? Anos entregando minha lealdade, aceitando migalhas de afeto, acreditando que o jeito bruto dele era apenas o fardo de ser um Alfa. E Chloe... a garota que chorava comigo, que comia na minha mesa, que fingia me apoiar em cada detalhe dos preparativos do casamento. Eles planejaram tudo nas minhas costas. A rejeição pública não foi um impulso; foi uma execução calculada para me destruir diante de toda a alcateia, para me expulsar como lixo enquanto eles assumiam o poder.

​Uma lágrima quente misturou-se à água da banheira, mas limpei o rosto com raiva antes que Martha pudesse notar. Eu não ia chorar mais por ele. A dor ainda rasgava por dentro, mas a humilhação estava dando lugar a algo muito mais perigoso: um ódio frio, densamente concentrado.

​— Pronto — murmurou Martha, entregando-me uma toalha grossa de linho assim que saí da banheira. Ela apontou para uma muda de roupas limpas deixada sobre a cama: uma calça de couro macio e escuro, e uma túnica larga de algodão preto que parecia enorme para mim, mas que pelo menos era seca e limpa. — Vista-se. Vou trazer algo quente para você comer. Não ouse recusar.

​— Obrigada, Martha — falei, a voz saindo um pouco mais firme do que antes.

​A mulher apenas assentiu com a cabeça e saiu do quarto, fechando a porta novamente.

​Fiquei sozinha com minhas roupas novas e meus pensamentos. Vesti a túnica, sentindo o tecido levemente largo cair sobre meus ombros. O cheiro que vinha da roupa não era de mofo ou poeira; era o mesmo cheiro de pinho queimado e terra que marcava a presença de Dante. Aquilo me deu um arrepio estranho na espinha.

​Caminhei até a janela alta de pedra, espiando através das grades de ferro. A tempestade lá fora havia diminuído um pouco, transformando-se em uma garoa fina que caía sobre os picos escuros da montanha. O Castelo das Sombras era isolado, sombrio, cercado por precipícios e lendas que a minha antiga matilha usava para assustar os fracos. Mas, olhando para a vastidão escura daquela floresta, percebi que eu não sentia medo.

​O medo tinha ficado lá atrás, no altar da Lua Prateada, junto com as risadas de deboche de Caleb e Chloe.

​Minutos depois, Martha retornou com uma tigela de caldo fumegante e um pedaço de pão rústico. Comi em silêncio, sentindo o calor da comida devolver um pouco de cor às minhas bochechas e força aos meus músculos. Assim que terminei, a exaustão bateu novamente com tanta força que mal consegui me arrastar até a cama.

​Deitei-me sobre as peles pesadas, puxando o cobertor até o queixo. O colchão era macio, e o ambiente estava aquecido pelo fogo que ainda estalava na lareira. Fechei os olhos, esperando que o sono me apagasse por algumas horas.

​Foi então que eu ouvi passos pesados no corredor de pedra do lado de fora.

​Não eram passos apressados de empregados. Eram passadas firmes, rítmicas, inconfundíveis. O som parou bem diante da porta do meu quarto. Minha respiração travou na garganta, e todos os meus sentidos se alarmaram instantaneamente. A maçaneta girou com um rangido metálico suave, e a porta se abriu lentamente na penumbra.

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