Mundo de ficçãoIniciar sessãoO impacto contra o colchão foi macio, quebrando o ritmo brutal do vento e da chuva que tentavam me engolir do lado de fora. Pisquei várias vezes, atônita, tentando ajustar a visão à penumbra do ambiente. Eu não estava mais na lama fria da ravina. O cheiro de terra molhada e pinho queimado agora preenchia um espaço fechado, aquecido por uma lareira distante cuja luz dançava em reflexos dourados nas paredes de pedra bruta.
— Fique quieta. Você está tremendo — a voz de Dante cortou o silêncio com uma autoridade serena, muito diferente do tom cortante que ele usava minutos antes na floresta. Ergui o tronco em um movimento rápido, o corpo protestando com fisgadas de dor onde a lama havia secado e nos lugares em que a fadiga se acumulava. Olhei ao redor. Estava em um quarto amplo, com teto alto de vigas de madeira escura e uma cama imensa coberta por peles pesadas. Mas o que me chamou a atenção foi a imponente figura de Dante, que terminava de fechar pesadas portas de madeira maciça, isolando o barulho da tempestade. Sem a capa da chuva, a visão dele era ainda mais avassaladora. Os músculos dos braços largos contraíam-se a cada movimento, e as tatuagens rúnicas pareciam pulsar com uma luz fraca sob a pele bronzeada, como se fossem brasas vivas respirando no escuro. — Onde... onde estou? — minha voz saiu áspera, arranhada, traindo todo o meu esforço para parecer firme. Levei as mãos trêmulas até o tecido rasgado do meu vestido de noiva, tentando inutilmente cobrir os rasgos que deixavam minha pele exposta. — Quem é você? Por que me trouxe para cá? Você é de qual alcateia? Dante virou-se lentamente. Os olhos dourados fixaram-se nos meus com uma intensidade que me fez prender a respiração. Ele caminhou na minha direção, cada passo ecoando pesadamente no piso de pedra, até parar a poucos passos da cama. O calor que emanava do corpo dele parecia atravessar o espaço entre nós, aquecendo meu rosto congelado. — Perguntas demais para alguém que quase desmaiou de exaustão na minha porta — ele respondeu com um meio sorriso que não alcançava os olhos, mantendo uma seriedade perigosa. — Você está no Castelo das Sombras. E eu não pertenço a nenhuma alcateia fraca como a Lua Prateada. Eu sou quem governa estas terras. O estômago deu um salto. O Castelo das Sombras. Aquela era a fortaleza proibida, o lugar sobre o qual os anciãos da minha antiga matilha sussurravam histórias de terror para assustar os filhotes. Dizia-se que o governante dali era um monstro impiedoso, um lorde selvagem que não tolerava intrusos e cujos domínios eram um cemitério de lobos exilados. — Se você sabe de onde eu venha, sabe que não tenho nada para oferecer — falei, erguendo o queixo, sentindo a raiva antiga voltar a misturar-se com o medo. Desviei o olhar para o centro do meu peito, onde a ferida da rejeição ainda ardia. — O meu ex-noivo tirou tudo de mim. Minha posição, minha dignidade, minha matilha. Se me trouxe aqui para pedir resgate ou me usar como prisioneira, perdeu seu tempo. Não há nada em mim que valha a pena. Assim que terminei de falar, Dante fechou os olhos por um segundo, respirando fundo como se estivesse puxando o meu cheiro para dentro dos pulmões. Quando os abriu novamente, o dourado estava mais escuro, quase incandescente, carregado de uma fúria contida que não era direcionada a mim, mas à menção do meu passado. — Resgate? Prisioneira? — Ele deu mais um passo, invadindo o meu espaço pessoal de uma forma que fez meu coração disparar em desespero e excitação misturados. Ele sentou-se na beirada da cama, o colchão afundando com o peso do seu corpo enorme. A proximidade era sufocante. — Eu não guardo prisioneiros, Valerie. E duvido muito que você saiba o verdadeiro valor do que carrega no sangue. Arregalei os olhos, o fôlego travando na garganta. — O que você quer dizer com isso? O que há no meu sangue? Antes que ele pudesse responder, a porta do quarto foi empurrada com força e uma mulher de cabelos prateados e olhar severo entrou carregando uma bacia d'água fumegante e panos limpos. Ela parou ao ver que eu estava acordada, lançando um olhar rápido e respeitoso a Dante. — O banho está pronto, meu senhor. Encontrei roupas limpas nas antigas arcas da ala oeste — disse a mulher, com uma voz firme. Dante assentiu com um gesto seco de cabeça, sem desviar os olhos de mim por nem um segundo sequer. — Fique com ela, Martha. Ajude-a a se limpar e a trocar esse farrapo — ordenou ele, levantando-se com a mesma imponência com que havia entrado. Antes de caminhar em direção à saída, ele parou junto à ombreira da porta, virando o rosto de perfil para mim. — Descanse, Valerie. Amanhã teremos muito o que conversar sobre quem você realmente é, e sobre o que faremos com o traidor que ousou machucá-la. O som da porta pesada fechando-se ecoou pelo quarto silencioso, deixando-me sozinha com a mulher de cabelos prateados e com um turbilhão de dúvidas fervendo na minha mente. Quem era aquele homem de olhos dourados? E por que, mesmo cercada por paredes desconhecidas em um castelo temido por todos, o vazio deixado pela rejeição de Caleb parecia, pela primeira vez, um pouco menos doloroso?






