Mundo de ficçãoIniciar sessãoO rangido metálico da maçaneta girando devagar soou como uma lâmina raspando na pedra. Prendi a respiração, puxando o cobertor pesado até o queixo com dedos trêmulos. A fresta da porta se abriu, deixando escapar um feixe de luz amarelada do corredor escuro, e a silhueta alta e imponente de Dante preencheu a abertura.
Ele entrou sem fazer barulho, como se o próprio peso do corpo dele fosse anulado pelo silêncio daquela parte do castelo. O cheiro de pinho queimado e terra molhada invadiu o quarto instantaneamente, misturando-se ao calor da lareira que ainda estalava baixa no canto. Dante fechou a porta com um movimento suave, trancando-a com um clique abafado que ecoou na minha mente como um portão se fechando para o resto do mundo. Meus olhos se esforçaram para cortar a penumbra. Ele vestia apenas uma calça escura de tecido grosso, deixando o peito largo e os braços completamente nus à mostra. As tatuagens rúnicas desenhadas na pele pareciam brilhar com um tom âmbar bem fraquinho sob a luz fraca das brasas, pulsando no ritmo compassado da respiração dele. — Você ainda está acordada — constatou ele, com aquela voz grossa e baixa que parecia vibrar diretamente nas minhas costelas. Dante deu dois passos longos e parou ao lado da cama. O colchão afundou pesadamente quando ele se inclinou, apoiando uma das mãos grandes e calejadas logo acima do meu joelho, por cima do cobertor. O calor da palma dele atravessou o tecido, queimando a minha pele de um jeito que me fez dar um suspiro trêmulo. — Como eu conseguiria dormir? — retruquei, tentando manter a voz firme, embora minhas mãos estivessem suando debaixo das cobertas. Encarei os olhos dourados dele, que me encarava com uma intensidade quase insuportável. — Há poucas horas eu estava correndo na lama, achando que ia morrer congelada depois de ser escorraçada como lixo pela minha própria alcateia. E agora estou no quarto de um Alfa que todo mundo diz ser um monstro sanguinário. Desculpa se o meu cérebro ainda está tentando entender em qual pesadelo eu entrei. Um canto da boca de Dante se erguia em um sorriso torto, quase imperceptível na penumbra, mas o brilho em seus olhos se aprofundou. — As lendas da Lua Prateada adoram pintar os outros de monstros para esconder a própria podridão — murmurou ele, a voz descendo uma oitava, tornando-se ainda mais rouca. Ele moveu a mão lentamente pela extensão da minha perna coberta, um traço firme que subiu devagar, fazendo cada pelo do meu corpo se eriçar em uma onda violenta de calor. — Caleb te chamou de fraca. Ele disse que você não tinha linhagem. Ele teve a audácia de te humilhar publicamente para ficar com aquela garota insignificante. A menção ao nome de Caleb e à traição de Chloe fez o meu estômago dar um nó doloroso, seguido por uma onda de raiva pura que subiu pela minha garganta. — Ele achou que eu ia me ajoelhar e implorar — falei, os dentes trincados, sentindo o peito arder. — Achou que a rejeição ia me destruir a ponto de eu me arrastar de volta para pedir misericórdia. — E você quer se arrastar? — Dante perguntou, o tom perigosamente suave, enquanto a mão dele finalmente parava na lateral do meu quadril, o polegar roçando distraidamente o tecido da túnica larga. A proximidade dele era um ímã poderoso, sufocante e embriagador. — Nunca — soprei a palavra com tanta força que minha garganta arranhou. Olhei fundo naquelas brasas douradas. — Eu quero ver a cara deles quando perceberem o erro que cometeram. Quero que sintam o mesmo gosto de cinza que eu senti no altar. Dante soltou um som grave no fundo da garganta, um ronco rouco de aprovação que fez o ar ao nosso redor parecer eletrizado. Ele se inclinou ainda mais, aproximando o rosto do meu a ponto de eu conseguir sentir o calor da sua pele e o aroma intenso de pinho invadir cada pedaço do meu espaço. — Essa é a loba que eu encontrei na floresta — sussurrou ele, a boca a centímetros da minha, roçando quase imperceptivelmente o canto dos meus lábios. O meu coração deu um salto violento, disparando no peito como um tambor desgovernado. — Esqueça a dor daquele bastardo, Valerie. Aqui, nas sombras, você não vai mais se curvar para ninguém. Fiquei sem ar. O polegar dele no meu quadril apertou de leve, puxando meu corpo um pouco mais para perto do calor dele na beirada do colchão. Meus olhos caíram involuntariamente para os lábios firmes de Dante, sentindo uma pulsação estranha e quente se espalhar pelo meu baixo ventre, uma sensação totalmente nova que varreu os resquícios da tristeza e acendeu um fogo perigoso nas minhas veias. Ele percebeu o meu olhar. O dourado dos olhos dele brilhou com uma intensidade voraz, e a mão livre subiu devagar, segurando o meu queixo com firmeza e delicadeza ao mesmo tempo, forçando-me a encará-lo enquanto o espaço entre nós diminuía perigosamente. — Dante... — comecei a murmurar, mas o som morreu na minha garganta quando os lábios dele roçaram de leve nos meus, enviando uma descarga elétrica por todo o meu sistema nervoso. Antes que eu pudesse formular qualquer pensamento coerente, um som agudo e estridente cortou o silêncio da noite lá fora, vindo das muralhas externas do castelo. Era um uivo de alerta, longo e desesperado, ecoando pelas pedras da montanha como o anúncio de uma invasão. Dante parou no mesmo instante, o corpo inteiro tensionando-se como uma mola de aço. O calor do rosto dele afastou-se de mim com a rapidez de um relâmpago, e os olhos dourados, antes carregados de uma promessa quente, transformaram-se em pura fumaça fria e mortal.






