Ayres
A manhã chegou sem pressa, mas o peso dela caiu inteiro sobre mim. A aldeia já estava de pé, gente varrendo, crianças carregando baldes pequenos como se fossem grandes façanhas, guerreiros checando as bordas do território. Em cada rosto, a pergunta que eu vinha tentando adiar há tempo demais: quem é o homem que nos lidera?
— “Hoje, fala.” — Fenrir tocou a minha consciência com a firmeza de sempre — “Não com a voz de comando. Com a que dói.”
— Eu sei. — respondi, ajeitando a capa no ombro ferido — Chegou a hora.
Caminhei até o pátio central. Pedi a Joran que chamasse todos. Sem tambor, sem anúncio pomposo. Gente comum, reunida para ouvir algo que eu mesmo não sabia como começar. Vi mães com aventais ainda molhados de água e sabão, vi idosos se apoiando em bastões gastos, vi jovens que ontem quase não voltaram.
Vi também o rosto que me rasga e me compõe… Samantha, um pouco atrás, braços cruzados, a luz da manhã bordando de prata as marcas em sua pele. Não desviou de mim, mas não