Mundo de ficçãoIniciar sessão
A chuva caía pesada naquela noite. Alya mantinha as mãos firmes no volante, tentando enxergar a estrada quase invisível sob a enxurrada. O limpador parecia inútil diante da água que caía aos baldes, transformando o asfalto em um espelho líquido.
O cansaço consumia seus braços e a mente repetia o mesmo pensamento: — “Eu devia ter ficado em casa.” Mas o telefonema da mãe, horas antes, pedindo ajuda com os remédios, a fez sair sem pensar duas vezes. Agora, dirigindo sozinha por aquela estrada deserta, ela se arrependia profundamente. De repente, o farol do carro iluminou algo no meio da pista. Um vulto. Um corpo caído. Alya pisou no freio e o carro derrapou por um instante, parando a poucos metros da figura imóvel. Seu coração quase saiu pela boca. Abriu a porta, e a chuva gelada cortou-lhe o rosto. A água encharcava suas roupas enquanto ela corria em direção ao corpo no chão. Era um homem. O sangue se misturava à poça lamacenta ao redor dele, e o contraste do vermelho com o negro da noite fez o estômago de Alya revirar. — Moço… você me ouve? — perguntou, ajoelhando-se. — Ei… Virou-o com cuidado. O rosto estava sujo, machucado e pálido. Mas mesmo daquele jeito, havia algo nele que chamava atenção, traços firmes, mandíbula marcada, um rosto que parecia feito para o perigo. — Eu me chamo Alya, tá? — sussurrou, tentando encontrar um padrão de respiração. — Como você se chama? Ele soltou um som fraco, a voz rouca demais para formar uma frase. Os olhos se abriram por um instante, olhos cinzentos, intensos, perdidos entre a vida e a morte. — Alya… — sussurrou, antes de apagar de novo nos braços dela. Alya congelou. O coração batia descompassado, a mente girava, mas as mãos agiam. Pressionou o ferimento em seu abdômen com um pedaço da própria blusa. — Fica comigo, por favor. — olhou para os lados — Não me faça deixar você aqui. O tempo parecia ter parado. O cheiro de chuva, a dor no peito, o som distante do trovão, tudo ficou irrelevante. Só havia ela e aquele estranho, sangrando diante dela. Alya olhou para o carro, depois para ele. Estava sozinha e, se não agisse, ele morreria. Não havia tempo para esperar uma ambulância. Nem sinal de viva alma naquela estrada. Com um gemido de esforço, o arrastou até o carro. O corpo dele era pesado, ele era bem mais alto que ela, o calor e o sangue colavam-se às mãos dela. Cada movimento parecia impossível, mas ela não desistiu. Conseguiu colocá-lo deitado no banco traseiro, respirando de maneira fraca, mas viva. — Aguenta, tá? — sussurrou, ofegante, antes de fechar a porta e correr para o volante. O som do motor ecoou na escuridão. Alya dirigia rápido, cada curva era um desafio, cada raio de luz um aviso do perigo. O coração dela batia tão alto que cobria o som da chuva. Quando finalmente chegou à sua pequena casa, o relógio marcava quase meia-noite. A tempestade ainda rugia lá fora. Alya abriu o portão de madeira, estacionou às pressas e correu para abrir a porta de casa. Correu de volta ao carro e, com o mesmo cuidado e desespero, arrastou o desconhecido para dentro. Deitou ele no sofá da sala, que logo ficou manchado de sangue. — Meu Deus… — sussurrou, apavorada — o que aconteceu com você? Correu até o banheiro, pegou uma caixa velha com gazes, tesoura e antisséptico, sobras do tempo em que trabalhou como enfermeira auxiliar num posto de saúde. Alya removia o tecido encharcado de lama e sangue com delicadeza. O ferimento no abdômen era profundo, mas não fatal se tratado. Limpou, costurou com cuidado e trocou o pano várias vezes. O rosto dele agora estava limpo, revelando traços fortes, belos até. A barba por fazer deixava ele com um ar rude, mas o olhar que ela viu antes, mesmo inconsciente agora, parecia sereno. O relógio passou das duas da manhã. Alya lavou as mãos e ficou parada, observando ele na meia-luz. Sua casa era simples… um sofá, uma mesinha, uma cortina velha dançando com o vento que entrava pela janela. E, no meio disso tudo, aquele homem enorme e misterioso, quase uma visão. Alya sentiu um arrepio atravessar o corpo. — Quem é você? — perguntou — Um anjo... ou um problema? A resposta veio apenas no som da chuva batendo no telhado. O tempo passou devagar. Alya trocou o pano molhado em sua testa, verificou a respiração, ajeitou o travesseiro. De vez em quando, ele gemia baixo, movendo a cabeça para o lado, como se fugisse de algo em sonhos. Ela pegou uma manta, cobrindo-o com cuidado para evitar que esfriasse. Depois acendeu uma vela e sentou-se no chão, encostada na parede, apenas observando. Havia algo inquietante e, ao mesmo tempo, hipnótico nele. Parecia alguém que carregava uma história pesada demais, e que, ainda assim, estava completamente vulnerável ali, em sua sala. Por um momento, Alya deixou o olhar se perder nas chamas dançando dentro da vela. Pensou se ele teria família. Alguém o esperando em casa. Alguém que o amasse. Ou se era o tipo de homem que ninguém procuraria caso desaparecesse. Ela suspirou, cansada. — Se eu soubesse quem você era, talvez soubesse o que fazer — falou, observando ele — Mas agora… acho que vai ter que ficar comigo. Pelo menos até conseguir se levantar. Alya ficou ali, esperando, rezando baixinho para que ele sobrevivesse. A tempestade lá fora diminuía, e os relâmpagos se afastavam. O som da chuva se transformou num gotejar manso sobre o telhado. Ela se levantou e aproximou o rosto dele da luz da vela. O contorno da mandíbula, os cílios longos, a respiração profunda. Parecia um homem feito de força e segredos. Alya engoliu em seco. Um pensamento teimoso cruzou sua mente: — “O que estou fazendo?” — mas o coração respondeu antes da razão — “Salvando uma vida.” Fechou as cortinas para proteger o ambiente da claridade dos relâmpagos, pegou uma cadeira e se sentou ali ao lado do sofá. O silêncio só era quebrado pelo vento e pelo som leve da respiração dele. — Você vai viver… eu prometo. — sussurrou, sonolenta, depois encostou a cabeça nas próprias mãos. Sem perceber, adormeceu ali mesmo. Do lado de fora, a última luz do raio iluminou o rosto do homem. Por um segundo, os traços pareciam duros, quase ameaçadores, e, ao mesmo tempo, frágeis como o de uma criança dormindo. Alya não sabia, mas aquela escolha, parar o carro, salvar um estranho, mudaria tudo. E naquela noite, enquanto o mundo dormia, o destino já começava a mover as peças que uniriam suas vidas para sempre.






