Capítulo 6

Renata

Eu estava parada na porta do escritório do Marcelo, o coração batendo tão alto que eu juro que ele poderia ouvir. Lara estava ali, de pé na frente dele, segurando dois gizes de cera como se fossem um escudo, e eu senti o chão sumir debaixo de mim. Pronto, Renata, acabou. Ele vai te demitir e você vai virar a rainha do brigadeiro na rua. Mas antes que eu conseguisse terminar meu discurso de “me perdoe, senhor Almeida”, ele virou os olhos pra mim, calmo — calmo demais pro meu gosto — e com um leve ar de riso. Marcelo não sorri. Deve estar comemorando por saber que agora pode me demitir.

— Leve-a para a recepção. Deixe com a Duda e volte para sua sala.

Pisquei, atônita. O quê? Não teve bronca, não teve “sua vida não existe aqui”, não teve demissão com fogos de planejamento. Só... isso? Minha boca abriu para responder “sim, senhor” por reflexo, mas minha cabeça gritava: Isso é uma armadilha, Renata. Ele está te enrolando pra te esganar depois.

— Sim, senhor — consegui dizer, a voz saindo meio rouca. Peguei a mão da Lara rápido, quase arrastando ela pra fora antes que ele mudasse de ideia. Ela me olhou com aquela carinha de “fiz besteira, mamãe?”, e eu só balancei a cabeça, sussurrando:

— Quietinha agora, pequena. A gente conversa depois.

Desci com ela pro térreo. O elevador parecia levar uma eternidade. Meu estômago estava revirado, e eu não parava de imaginar o que vinha por aí. Marcelo Almeida não é do tipo que deixa passar um deslize desses. Cinco anos dançando conforme a música dele, e eu nunca tinha pisado fora da linha — até hoje. Parabéns, Renata, você escolheu o pior dia pra virar rebelde.

Cheguei na recepção e praticamente joguei a Lara pra Duda, que me olhou com uma mistura de surpresa e pena.

— Duda, fica com ela, por favor. O Marcelo mandou. Eu... eu explico depois — falei, as palavras tropeçando umas nas outras.

— Claro, Renata. Tá tudo bem? — ela disse, já puxando a Lara pra perto com um sorriso.

— Tá ótimo. Só estou esperando a guilhotina — retruquei, tentando rir, mas soou mais como um grunhido. Voltei pro elevador, as pernas moles, e subi pro meu andar rezando pra algum santo que eu nem sabia o nome.

Quando cheguei na minha mesa, a porta do escritório dele ainda estava fechada. Sentei, mas era como me sentar em cima de alfinetes. Minhas mãos tremiam enquanto fingia organizar uns papéis, esperando o veredito. Ele vai me chamar. Vai me demitir. Ou pior, vai me humilhar primeiro e depois me demitir. Eu já estava ensaiando minha saída triunfal: “Obrigada pelos cinco anos, senhor Almeida. Vou sentir falta de ser seu robô particular.”

A porta dele abriu alguns minutos depois e eu quase pulei da cadeira. Ele saiu, o terno impecável como sempre, a cara de quem sabe de tudo, e parou na frente da minha mesa. Meu coração disparou, mas ele não parece prestes a me demitir. Apenas me encarou por um momento e então, de forma formal, perguntou:

— Por que a Lara estava na minha sala?

Engoli em seco, o cérebro girando para encontrar uma resposta que não me enterrasse mais. Porque ela é uma ninja do caos e eu sou uma mãe fracassada, senhor? Mas o sarcasmo não me salvaria agora.

— Senhor Almeida, eu... ela não tinha onde ficar hoje. A creche fechou por causa de um problema, e eu não tinha ninguém pra ficar com ela. Tentei mantê-la escondida, mas... ela é curiosa, sabe? Eu juro que isso não vai acontecer de novo — falei, as palavras saindo apressadas, os olhos baixos porque eu não tinha coragem de encará-lo.

Ele ficou em silêncio por alguns segundos — que pareciam horas — e eu senti o peso daquele olhar me cortando. Mas então ele disse algo que eu não esperava:

— Como eu nunca soube que você tinha uma filha?

Levantei os olhos, surpresa, e soltei um riso nervoso antes de responder:

— O senhor mesmo disse, na minha entrevista, que minha vida fora do escritório não importava. Eu só segui as regras — falei, tentando manter o tom leve, mas com um toque de “foi você quem criou isso”.

Ele parou, os olhos escuros me encarando como se eu tivesse representado uma peça que ele não sabia interpretar. Ficou quieto por um momento, e eu juro que vi algo passar por aquela máscara de pedra — não sei se era culpa, curiosidade ou só surpresa. Então ele disse:

— Por que você nunca pediu pra sair mais cedo? Ou pra tirar um dia?

Pisquei, confusa. O que está acontecendo aqui? Ele está me julgando agora? Meu estômago revirou, e eu respondi, meio na defensiva:

— Porque o senhor deixou claro que não queria saber dos meus problemas. Eu faço o que precisa ser feito, pronto — falei, sentindo o calor subir pro rosto. Ele acha que eu sou um mártir ou uma idiota?

Ele não respondeu de cara, só ficou me olhando. Então veio outra pergunta que me derrubou:

— E aquela viagem na véspera de Natal, há dois anos? Você aceitou sem hesitar. Por quê?

Abri a boca, mas fechei de novo, atônita. Ele está me interrogando? Minha mente voltou para aquele Natal — eu correndo pra resolver um contrato em outra cidade, deixando a Lara com a Helena, engolindo o choro por não passar o feriado com minha filha.

— Porque era o trabalho, senhor. O senhor precisava de mim e eu fui. Não tinha escolha — respondi, a voz saindo mais dura do que eu queria, porque agora eu estava pensando que ele me julgaria como uma péssima mãe que escolhe ficar longe da filha no Natal, como se eu tivesse que me explicar por sobreviver às regras dele.

Ele ficou em silêncio de novo, os olhos fixos em mim, e eu juro que ele estava pensando em algo que eu não conseguia alcançar. O que ele quer com isso? Está me culpando por nunca ter reclamado? Por ser o robô perfeito que ele criou? Meu coração estava disparado, mas mantive a postura, esperando o golpe final.

Então ele assentiu, quase imperceptível, e disse:

— Volte ao trabalho.

Virou as costas e entrou no escritório dele, fechando a porta como se nada tivesse acontecido. Eu desabei na cadeira, o ar saindo dos pulmões como se eu tivesse corrido uma maratona. O que acabou de acontecer? Ele não me demitiu, mas também não disse que estava tudo bem. Ele nunca falou tanto tempo comigo antes, e eu fiquei ali, tentando entender o que havia acabado de acontecer.

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