Mundo ficciónIniciar sesiónMarcelo
O despertador toca às 5h em ponto, como sempre. Não há espaço para atrasos na minha vida. Nunca houve. Levanto da cama antes que o som me irrite, o quarto ainda escuro, o silêncio da casa um conforto que eu controlo. Tudo tem seu lugar, sua hora, seu propósito. O caos não entra aqui.Visto a roupa de academia — calça preta, camiseta cinza, tênis impecáveis — e saio para o prédio ao lado, onde a esteira já me espera. Corro 10 milhas em 45 minutos, o suor escorrendo enquanto mantenho o ritmo exato. Não corro por prazer, corro por disciplina. O corpo precisa ser tão refinado quanto a mente; fraqueza não é uma opção. Às 5h50, estou de volta, o chuveiro quente lavando qualquer resto de desordem. Às 6h15, o café preto está na mesa, sem açúcar, sem distrações.
O celular vibra enquanto reviso os e-mails do dia. Minha mãe liga. Penso em ignorá-la, mas atendo no terceiro toque. Já sei o que vem.
— Marcelo, bom dia. Você está acordado, né? — A voz dela tem aquele tom que mistura preocupação e insistência, como se eu ainda fosse um garoto precisando de sermão.
— Sempre — respondo, seco, os olhos fixos na tela do notebook.
— Queria que você viesse jantar comigo hoje. Faz tempo que não te vejo direito, filho. Só trabalho, trabalho... Você precisa viver um pouco — ela continua, e eu sinto os músculos do maxilar se apertarem.
— Vou tentar — digo, porque é a resposta que ela quer ouvir, mesmo que nós dois saibamos que não é verdade. “Tentar” não significa nada. “Tentar” é um espaço vazio que deixo para ela preencher com esperança.
— Marcelo, você sempre diz isso. Não é saudável, sabia? Desde...
Ela hesita, e eu corto antes que o nome saia.
— Tenho uma reunião agora. Te ligo depois — minto, desligando sem esperar resposta. Anitta. Ela ia dizer “Anitta”. O nome que eu enterrei há sete anos, mas que ainda ronda como um eco que não controlo. Não quero ouvir. Não hoje.
Às 7h15, estou no carro. O motorista me leva pela Marginal Pinheiros enquanto reviso os números da obra da Avenida Paulista no tablete. Tudo no prazo, tudo sob controle. Chego à Almeida Construções às 7h55, subo para meu andar, e o silêncio do escritório me recebe como um velho amigo. Renata já está lá, na mesa dela, os dedos bailando no teclado. Ela é eficiente, impecável, invisível — exatamente como exijo.
— O relatório está pronto? — pergunto, passando por ela sem diminuir o passo.
— Sim, senhor — ela responde, levantando com o relatório encadernado na mão.
Pego o relatório, folheio rapidamente. Perfeito, como sempre. Renata nunca falha. Não sei nada sobre ela além do “sim, senhor” que sai da boca como um mantra, e não preciso saber. Ela faz o trabalho, eu sigo em frente. Entro no meu escritório, fecho a porta, e o mundo lá fora deixa de existir.
Às 11h30, saio para a reunião na Paulista. Um cliente quer discutir prazos, mas eu já sei que ele vai se ajustar ao meu cronograma. Volto às 14h. O almoço foi maçante, mas tudo saiu como planejado. Passo pela mesa da Renata de novo.
— Contratos prontos? — pergunto, já sabendo a resposta.
— Sim, senhor — ela diz, entregando outro maço impecável.
Entro no escritório e tranco a porta. Sento na minha cadeira, o couro rangendo sob meu peso, e coloco os contratos sobre a mesa. O silêncio é absoluto, como eu gosto. Abro o notebook, mas antes de começar, sinto algo. Um movimento. Um ruído quase imperceptível, como um arrastar leve. Olho para baixo, e lá está: um pezinho pequeno. Uma criança. Uma menina de cachinhos castanhos, encolhida debaixo da minha mesa, segurando giz de cera e me olhando com olhos arregalados.
— Quem é você? — pergunto, a voz cortante, mas baixa. Gritos são descontrole. E eu não perco o controle.
Ela pisca, hesita, depois responde com uma coragem que me pega desprevenido:
— Eu sou a Lara. Minha mamãe trabalha aqui.
Mamãe? Meu cérebro trava por um segundo. Quem trabalha aqui? Penso rápido: Renata, a recepcionista Duda, o pessoal do jurídico... Quem seria a mãe dessa menina? Não tenho tempo para isso. Vou demitir seja quem for.
— O que você está fazendo aqui? — mantenho o tom firme, os olhos fixos nela.
— Eu... eu estava brincando na outra sala, mas aí vim ver como é aqui. Você é o chefe malvado da mamãe? — ela solta, sem um pingo de medo.
Chefe malvado. A frase me atinge como um soco. Estão me chamando disso para os filhos agora? Quem está ensinando isso? Fico em silêncio, encarando a criança, tentando entender por que isso me incomoda. Talvez por ser exatamente como meu pai era: o chefe carrasco.
— Saia daí — digo, apontando para o lado da mesa. — Agora.
Ela estremece e aperta mais o giz na mão. Está com medo de mim? Puxo o ar. Aquilo é absurdo.
— Pode sair, Lara, por favor — falo, num tom mais suave. Ela me encara desconfiada, talvez pela mudança de voz.
Ela obedece, engatinhando para fora, e se levanta, me encarando com uma mistura de curiosidade e desafio.
— Vai demitir a mamãe? — pergunta, inclinando a cabeça. Puxo o ar, olhando para a pequena à minha frente.
— Quem é sua mãe? — retruco, agora genuinamente curioso.
Ela parece pensar, hesitando em avaliar o risco, o que me faz sorrir.
— Se eu te falar, você não vai mandar ela embora, vai? Se mandar, a gente vai morar debaixo da ponte, e eu não gostaria disso — diz, os olhos grandes me encarando com uma seriedade quase cômica.
A menina tem personalidade, isso eu admito. E, de alguma forma, me faz sorrir de novo.
— Veremos o que posso fazer. Quem é sua mãe? — insisto, cruzando os braços.
Ela olha para a porta, hesitante, e solta:
— Minha mãe é a Renata. Ela disse que se você me visse aqui, a gente ia morar debaixo da ponte. Você não vai fazer isso, vai?
Renata. Minha secretária perfeita é mãe. Isso sim é uma novidade. Meu cérebro gira, tentando encaixar as peças. Renata, a mulher que nunca falha, trouxe uma criança para o escritório? Parece improvável demais.
— E por que ela te trouxe para o trabalho hoje? — decido cavar mais, mantendo o tom neutro, mas com um leve interesse que eu não esperava sentir.
— Não tinha quem ficasse comigo — responde, dando de ombros como se fosse óbvio. — E ela não pode faltar porque você depende dela para tudo.
Eu rio da espontaneidade dela. Uma risada sem permissão, numa situação que não deveria permitir risadas.
— Sua mãe disse que eu dependo dela para tudo? — questiono, ciente de que, de fato, confio minha rotina a Renata.
Mas ela não chega a responder. A porta se abre com um estalo, e eu nem preciso virar para saber quem é.
— Passa pra cá agora — a voz de Renata corta o ar, envolta em pânico. Ela entra, os olhos azuis arregalados, o rosto pálido de preocupação. — Senhor Almeida, eu prometo que isso nunca mais vai acontecer, eu...







