Mundo de ficçãoIniciar sessãoMarcelo
Renata entrou em pânico, os olhos azuis arregalados, a voz cortando o ar: — Passa pra cá agora.Ela agarrou a mão da Lara e praticamente arrastou a menina pra fora do meu escritório, o “Senhor Almeida, eu prometo que isso nunca mais vai acontecer” saindo dela como uma súplica desesperada. Eu só assenti, mantendo a calma, e disse: — Leve-a pra recepção. Deixe com a Duda e volte pra sua sala.
Ela saiu rapidamente, a porta fechando atrás delas com um clique que trouxe o silêncio de volta.
Sentei de novo, o couro da cadeira rangendo sob meu peso, e foi então que eu vi: um pedaço de papel dobrado, escondido entre os contratos. Peguei, desdobrei, e lá estava — um desenho infantil. Uma casa torta, um sol gigante, e um boneco careca com um terno mal feito. Em letras tortuosas, escritas em vermelho: “Chefe Malvado da Mamãe”.
E eu senti um canto da boca subir num sorriso que não consegui segurar. Chefe Malvado. A menina tinha coragem, isso eu admito. Ela veio deixar isso, por isso o medo.
Mas o sorriso morreu rápido. Meu olhar ficou preso no papel, e algo apertou no peito — um peso que eu enterrei há sete anos, mas que nunca superei de verdade. Fechei os olhos por um segundo, e lá estava eu de novo: o hospital, o cheiro de álcool e desinfetante, as luzes frias queimando meus olhos. Eu tinha corrido pra lá depois do acidente, o celular ainda quente na mão, a voz do homem na ligação ecoando:
— Ela não resistiu.
O médico veio até mim, a expressão pesada, e disse: — Senhor Almeida, eu lamento muito pela sua perda. Não havia como salvar nenhum dos dois.
— Dois? — questionei, a voz rouca, o mundo girando ao meu redor.
Ele hesitou, como se soubesse que eu iria me quebrar mais. — Ela estava grávida. Há cerca de três meses. Não havia como salvar nenhum deles.
Grávida. Anitta estava grávida, e eu nem sabia. Ela não teve tempo de me contar, ou talvez quisesse fazer surpresa. Três meses. Se ela tivesse vivido, se o acidente não tivesse acontecido, minha filha — ou filho — teria nascido, crescido, e hoje... hoje teria uns seis anos. Uma idade aproximada da filha da Renata.
Abri os olhos, o desenho ainda na minha mão, os rabiscos da Lara me encarando como um espelho torto. Minha filha poderia estar desenhando assim, rindo, me chamando de algo bobo como “chefe malvado”. Mas ela nunca existiu. Anitta levou ela embora naquele carro amassado, e eu fiquei aqui, construindo muros para não sentir o vazio.
Puxei o papel sobre a mesa, o peso no peito apertando mais. Renata. A secretária perfeita. A mulher que nunca falhou, que nunca reclamou. Ela tem uma filha — uma filha que eu nem sabia que existia até hoje. Como eu deixei isso passar?
Levantei da cadeira, o impulso me levando até a porta antes que eu pudesse racionalizar. Eu precisava entender.
Saí do escritório e parei na frente da mesa dela. Renata arregalou os olhos, o rosto claro, as mãos parando no teclado como se esperasse o golpe final. Mantive o tom firme, mas as palavras saíram mais lentas, quase pensativas:
— Como eu nunca soube que você tinha uma filha?
Ela engoliu em seco, riu de nervoso e respondeu: — O senhor mesmo disse, na minha entrevista, que minha vida fora do escritório não importava. Eu só sigo as regras.
Parei. As palavras dela ecoaram. Ela estava certa. Eu disse isso. Mas agora eu queria saber mais.
— Por que você nunca pediu pra sair mais cedo? Ou pra tirar um dia? — falei, cruzando os braços, os olhos fixos nela.
Ela hesitou, os olhos azuis piscando rápido, como se eu tivesse jogado uma armadilha. — Porque o senhor deixou claro que não queria saber dos meus problemas. Eu faço o que precisa ser feito, e pronto — respondeu, a voz saindo um pouco mais dura.
Assenti, mas não parei. Minha mente voltou para um Natal, dois anos atrás. Na véspera, uma crise com um fornecedor, e eu a mandei viajar pra resolver. E ela foi, sem hesitar. Eu nem pensei que ela poderia ter outro compromisso, que tivesse alguém com quem quisesse passar o Natal.
— E aquela viagem na véspera de Natal, há dois anos? Você aceitou sem reclamação. Por quê? — questionei, a voz mais baixa agora, quase como se eu estivesse falando comigo mesmo.
Renata abriu a boca, fechou, e me olhou como se eu tivesse perdido o juízo. — Porque era o trabalho, senhor. O senhor precisava de mim e eu fui. Não tinha escolha — ela disse, o tom carregado de algo que parecia raiva contida.
Fiquei em silêncio, olhando para ela. Naquele Natal, ela deixou a Lara para trás. Por minha causa. Eu cobrei tanto dela que ela abriu mão de passar o feriado com a filha — uma filha que eu nem sabia que existia. O peso disso caiu em mim como uma pedra, e pela primeira vez em anos, senti algo que eu não controlo: culpa.
E percebi, estarrecido, que eu havia me tornado o meu pai.
Ela me olhou, nervosa, esperando o próximo golpe, mas eu não disse nada. Voltei pro meu escritório, fechei a porta e sentei de novo, o desenho da Lara ainda na mesa.
Chefe Malvado da Mamãe.
Talvez eu fosse mesmo.







