capítulo 3

Depois daquela manhã do café derramado, minha vida ficou objetivamente igual.

As aulas continuaram.

Os trabalhos continuaram.

As provas continuaram.

O mundo continuou girando exatamente como antes.

O problema era que eu não.

Eu continuava pensando na conversa de três minutos com Gabriel.

Três minutos.

Era vergonhoso.

Eu sabia disso.

Mas, toda vez que lembrava do sorriso dele ou do jeito como havia me ajudado sem pensar duas vezes, alguma coisa dentro de mim ficava mais leve.

Como se eu tivesse recebido uma prova de que ele realmente era a pessoa que eu imaginava.

O que, olhando para trás, foi meu primeiro erro.

Eu vivia procurando confirmações.

Nunca procurando defeitos.

Algumas semanas depois, Sofia apareceu na minha mesa durante o intervalo.

Ela tinha aquela expressão que sempre significava problema.

— O que foi agora?

— Preciso de uma acompanhante.

— Para onde?

— Evento beneficente da universidade.

— Não.

— Por favor.

— Não.

— Vai ter comida grátis.

Pensei por dois segundos.

— Que tipo de comida?

— A melhor.

— Você é uma pessoa manipuladora.

— Eu sei.

Acabei aceitando.

E foi assim que me encontrei, numa sexta-feira à noite, usando um vestido azul simples e tentando fingir que me sentia confortável cercada por estudantes ricos.

O salão estava lindo.

Mesas decoradas.

Luzes suaves.

Música ao vivo.

Tudo parecia saído de um filme.

Eu claramente não parecia.

— Para de parecer assustada — disse Sofia.

— Eu não pareço assustada.

— Parece que alguém te obrigou a vir.

— Você literalmente me obrigou a vir.

Ela abriu a boca para responder.

Mas não teve chance.

Porque um movimento próximo à entrada chamou atenção de metade do salão.

Inclusive a minha.

Gabriel havia chegado.

E, por um segundo, fiquei sem ar.

Não por causa dele.

Ou não apenas por causa dele.

Mas por causa da mulher ao lado dele.

Ela era linda.

Daquelas pessoas que parecem ter sido desenhadas por alguém muito talentoso.

Cabelos loiros impecáveis.

Vestido elegante.

Postura confiante.

Ela sorria como se soubesse exatamente o efeito que causava nos outros.

E provavelmente sabia.

A mão dela estava entrelaçada na de Gabriel.

Como se pertencesse ali.

Como se sempre tivesse pertencido.

Meu estômago afundou.

Mesmo antes de Sofia falar.

— Beatriz Vasconcelos.

Engoli em seco.

— A namorada?

— A própria.

Observei enquanto os dois caminhavam pelo salão.

As pessoas cumprimentavam Gabriel.

Mas também cumprimentavam Beatriz.

Como se fossem uma espécie de casal perfeito da universidade.

O rei e a rainha.

Aquele tipo de casal que aparece nas fotos de eventos.

Nas campanhas estudantis.

Nas redes sociais.

E faz todo mundo acreditar que existem contos de fadas.

— Eles estão juntos há muito tempo? — perguntei.

— Desde o ensino médio, eu acho.

Aquilo doeu mais do que deveria.

Muito mais.

Porque não era apenas uma namorada.

Não era uma relação recente.

Não era algo passageiro.

Ela fazia parte da vida dele.

Da história dele.

Das lembranças dele.

Enquanto eu...

Eu era apenas uma garota que ele ajudou a limpar um café derramado.

Nada mais.

Tentei ignorar os dois durante o evento.

Realmente tentei.

Mas era impossível.

Toda vez que eu olhava para algum lugar, eles estavam lá.

Conversando.

Rindo.

Dançando.

Parecendo felizes.

Num determinado momento, vi Gabriel inclinar a cabeça para ouvir alguma coisa que Beatriz disse.

Ela sorriu.

Ele sorriu de volta.

E senti uma pontada estranha no peito.

Ciúme.

Talvez.

Ou algo parecido.

O pior é que eu não tinha direito nenhum de sentir aquilo.

Nenhum.

Gabriel não era meu namorado.

Não era meu amigo.

Não era absolutamente nada.

Mas o coração raramente se preocupa com lógica.

— Você está encarando eles de novo.

Virei para Sofia.

— Não estou.

— Está sim.

— Você deveria parar de me observar tanto.

— E você deveria parar de observar ele tanto.

Toque.

Ela venceu.

De novo.

Mais tarde, fui até a varanda do salão para tomar um pouco de ar.

A noite estava agradável.

Fresca.

Silenciosa.

Muito melhor do que o barulho lá dentro.

Apoiei os braços na grade e fechei os olhos por alguns segundos.

— Fugindo da festa?

Abri os olhos imediatamente.

Meu coração disparou.

Gabriel.

De novo.

Aquilo estava começando a se tornar um problema sério.

— Um pouco.

— Eu também.

Soltei uma risada.

— Você? Achei que gostasse dessas coisas.

— Eu gosto.

Mas até eu preciso respirar às vezes.

Ele parou ao meu lado.

Por alguns segundos ficamos em silêncio.

E eu fiquei desesperadamente consciente da presença dele.

Da proximidade.

Do perfume.

Do jeito como a luz da varanda destacava seus traços.

Meu cérebro decidiu parar de funcionar.

— Você é a garota do café.

Olhei para ele.

— O quê?

— O café derramado.

Demorei um segundo para entender.

Então meu coração fez uma coisa completamente desnecessária.

Ele lembrava de mim.

Não meu nome.

Nem meu curso.

Nem qualquer coisa importante.

Mas lembrava.

— Ah.

Essa sou eu.

A especialista em acidentes com bebidas.

Ele riu.

— Pelo menos você sobreviveu à apresentação.

— Sobrevivi.

— Eu disse que sobreviveria.

Sorri.

E por um momento tudo pareceu perigosamente fácil.

Natural.

Como se eu não estivesse imaginando essa conversa dezenas de vezes nos últimos meses.

Então uma voz feminina interrompeu tudo.

— Amor?

Virei o rosto.

Beatriz.

Ela caminhava na nossa direção.

Linda.

Elegante.

Perfeita.

Gabriel sorriu imediatamente ao vê-la.

E alguma coisa dentro de mim se quebrou outra vez.

Porque aquele sorriso era diferente.

Eu já tinha percebido isso antes.

Mas agora estava vendo de perto.

Ele olhava para ela de um jeito especial.

De um jeito que nunca olharia para mim.

— Estava te procurando — disse ela.

— Eu já estava voltando.

Ela entrelaçou o braço no dele.

Então seus olhos pousaram sobre mim.

— Oi.

— Oi.

O sorriso dela era educado.

Gentil.

Mas eu me senti invisível mesmo assim.

Porque era exatamente isso que eu era.

Uma desconhecida.

Uma figurante.

Alguém sem importância na história deles.

— Nos vemos por aí — disse Gabriel.

— Claro.

E então eles foram embora.

Juntos.

Como sempre.

Fiquei observando até desaparecerem pela porta.

Sentindo um vazio estranho crescer dentro do meu peito.

Naquela noite, deitada na cama do dormitório, fiquei encarando o teto por muito tempo.

Tentando entender por que aquilo me afetava tanto.

Tentando convencer a mim mesma de que era apenas uma paixão boba.

Uma fase.

Algo que acabaria logo.

Mas, no fundo, eu já sabia a verdade.

Porque toda vez que fechava os olhos, via o sorriso dele.

E toda vez que pensava naquele sorriso...

Também via a mulher para quem ele era destinado.

A mulher que segurava sua mão.

A mulher que ocupava seu coração.

A mulher que tinha tudo aquilo que eu nunca teria.

Beatriz Vasconcelos.

E pela primeira vez desde que conheci Gabriel Castellan, comecei a desejar não ter conhecido nenhum dos dois.

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