capítulo 1

Se alguém me perguntasse quando minha vida começou a sair dos trilhos, eu diria que foi numa terça-feira ensolarada.

Não no dia do meu casamento.

Não no dia do acidente.

Muito menos no dia em que entreguei os papéis do divórcio.

Tudo começou numa simples terça-feira.

Durante a semana de integração da universidade.

O campus inteiro estava lotado.

Alunos carregavam mapas, mochilas novas e copos de café enquanto tentavam descobrir onde ficavam as salas.

Havia barracas espalhadas pelos jardins.

Música tocando perto do centro acadêmico.

Veteranos distribuindo panfletos.

E centenas de jovens acreditando que o futuro estava prestes a começar.

Eu estava entre eles.

Com uma pasta apertada contra o peito.

E nervosa como nunca.

Conseguir aquela bolsa parcial para cursar Design tinha sido uma das maiores conquistas da minha vida.

Eu havia estudado durante anos para aquilo.

Mas naquele momento só conseguia pensar que não conhecia absolutamente ninguém.

— Você parece que está indo para uma execução — comentou Sofia.

Nós nos conhecemos naquela mesma manhã.

Mesmo assim ela já parecia me conhecer melhor do que eu gostaria.

Soltei uma risada nervosa.

— É quase isso.

— Relaxa. Ninguém sabe o que está fazendo.

— E você sabe?

— Nem um pouco.

Nós duas rimos.

E, pela primeira vez naquele dia, senti meus ombros relaxarem um pouco.

Talvez tudo desse certo.

Talvez eu realmente pertencesse àquele lugar.

Foi então que ouvi algumas garotas atrás de nós.

— Meu Deus...

— É ele.

— Eu juro que ele é ainda mais bonito pessoalmente.

— Para de olhar!

— Você está olhando também!

Revirei os olhos.

Universidade.

Primeiro dia.

E as pessoas já estavam surtando por alguém.

Virei o rosto apenas por curiosidade.

E foi aí que tudo começou.

Ridículo.

Completamente ridículo.

Mas eu estaria mentindo se dissesse que aconteceu de outro jeito.

Um rapaz caminhava pelo gramado cercado por alguns amigos.

Era alto.

Tinha os cabelos escuros.

Uma postura confiante.

O tipo de pessoa que chamava atenção sem precisar fazer absolutamente nada.

Ele usava uma camisa preta simples.

Nada extravagante.

Mesmo assim parecia alguém que pertencia à capa de uma revista.

Ou a um filme.

Ou a qualquer lugar que não fosse o mundo real.

Fiquei olhando por tempo demais.

Porque quando ele sorriu para alguma coisa que um amigo disse...

Bem.

Foi impossível não olhar.

— Ah, não — disse Sofia ao meu lado.

— O quê?

— Você também.

— Também o quê?

— Está olhando.

Desviei os olhos imediatamente.

— Não estou.

— Está sim.

— Eu só...

— Claro.

Ela cruzou os braços.

— Bem-vinda ao clube.

— Que clube?

— Das garotas que acabaram de descobrir que Gabriel Castellan existe.

Gabriel Castellan.

Foi a primeira vez que ouvi aquele nome.

E, infelizmente, não seria a última.

Senti alguma coisa estranha no peito.

Pequena.

Idiota.

Daquelas sensações que deveriam ser ignoradas.

Mas eu não ignorei.

— Quem é ele?

— Administração. Rico. Bonito. Inteligente. Popular. Basicamente tudo que irrita o resto da população.

Soltei uma risada.

Mas, contra minha vontade, olhei novamente.

Gabriel estava se afastando.

E por um segundo...

Apenas um segundo...

Os olhos dele passaram pela minha direção.

Não foi exatamente um olhar.

Ele nem me viu de verdade.

Mas meu coração acelerou mesmo assim.

Ridículo.

Absolutamente ridículo.

Nos dias seguintes tentei não pensar nisso.

Tentei focar nas aulas.

Nos trabalhos.

Nas novas amizades.

Na adaptação à rotina universitária.

Mas Gabriel parecia estar em todos os lugares.

Eu o via atravessando o campus.

Sentado nos jardins.

Conversando com colegas.

Participando de eventos estudantis.

Sempre rodeado de pessoas.

Sempre parecendo confortável.

Como se tivesse nascido para estar ali.

Enquanto isso, eu ainda me perdia procurando salas.

Na quinta-feira encontrei Gabriel na biblioteca.

Estava procurando um livro quando o vi algumas estantes à frente.

Ele usava óculos.

Óculos.

Aquilo deveria ser proibido por lei.

Porque, de alguma forma absurda, o deixava ainda mais bonito.

Desviei imediatamente.

Fingindo procurar alguma coisa.

Qualquer coisa.

Um minuto depois percebi que estava segurando um livro sobre arquitetura medieval.

Eu cursava Design.

Nem sequer gostava de arquitetura.

— Excelente trabalho, Helena — murmurei para mim mesma.

Na semana seguinte aconteceu de novo.

Dessa vez no café do campus.

Eu estava esperando meu pedido quando Gabriel entrou acompanhado de alguns amigos.

As atendentes sorriram.

As garotas sorriram.

Até um professor pareceu sorrir.

Aquilo era absurdo.

— O mundo inteiro gosta dele? — perguntei para Sofia.

— Basicamente.

— Por quê?

— Você está perguntando sério?

Bufei.

— Além da aparência.

— Ah.

Ela pensou por alguns segundos.

— Porque ele é educado.

Nunca ouvi ninguém falar mal dele.

Não se mete em confusão.

Tem notas excelentes.

Faz trabalho voluntário.

Ajuda em eventos.

E ainda parece um modelo.

Injusto, eu sei.

Observei Gabriel receber o café.

Antes de sair, ele agradeceu à atendente.

Um gesto simples.

Pequeno.

Mas eu percebi.

Porque estava prestando atenção demais.

Muito mais do que deveria.

As semanas viraram meses.

E os encontros casuais continuaram.

Sempre à distância.

Eu sabia qual era o prédio dele.

Sabia quais eventos costumava frequentar.

Sabia até qual café ele pedia.

O problema era que Gabriel provavelmente nem sabia que eu existia.

E aquilo deveria ter sido suficiente para me fazer desistir.

Mas não foi.

Porque, às vezes, o coração é uma coisa estúpida.

Às vezes ele escolhe alguém antes mesmo de pedir sua opinião.

Numa noite de sexta-feira aconteceu o evento de recepção dos calouros.

O salão principal estava lotado.

Música.

Luzes.

Conversas.

Risadas.

Eu estava perto de uma das mesas quando vi Gabriel entrar.

Como sempre, chamou atenção imediatamente.

Mas dessa vez havia alguém ao lado dele.

Uma garota linda.

Loira.

Elegante.

Confiante.

Ela segurava a mão dele.

E Gabriel sorria para ela de um jeito que eu nunca tinha visto.

Um sorriso diferente.

Mais suave.

Mais verdadeiro.

Meu estômago afundou.

— Quem é ela? — perguntei.

Sofia seguiu meu olhar.

— Beatriz Vasconcelos.

Namorada dele.

Alguma coisa dentro de mim desabou.

Estranho.

Eu nem conhecia Gabriel.

Nunca tinha conversado com ele.

Mesmo assim aquilo doeu.

Talvez porque destruiu uma fantasia antes mesmo que ela tivesse a chance de existir.

Observei os dois seguirem para a pista de dança.

Gabriel passou o braço pela cintura dela.

E desapareceram no meio da multidão.

Desviei os olhos.

Tentando ignorar o aperto no peito.

Tentando convencer a mim mesma de que aquilo não importava.

Mas, naquela noite, enquanto caminhava de volta para o dormitório, percebi uma verdade simples.

Eu estava em perigo.

Porque pela primeira vez em muitos anos...

Gostava de alguém.

E tinha a estranha sensação de que esquecer Gabriel Castellan seria muito mais difícil do que me apaixonar por ele.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App