Quando parei de esperar você
Quando parei de esperar você
Por: Ell Marioti
🍒Prólogo

— Assina aqui.

Minha voz saiu mais firme do que eu me sentia.

Gabriel olhou para os papéis sobre a mesa de vidro.

Durante alguns segundos, apenas observou as folhas sem tocá-las.

Era engraçado.

Passei anos imaginando esse homem me olhando.

Me enxergando.

Me escolhendo.

E agora que finalmente seus olhos estavam voltados para mim, eu não sentia nada além de cansaço.

Um cansaço tão profundo que parecia ter se instalado nos meus ossos.

— Tem certeza? — ele perguntou.

Eu quase ri.

Quase.

Depois de tudo, aquela era a pergunta que ele fazia?

Não "como você está?".

Não "você ainda me ama?".

Não "vamos tentar outra vez?".

Apenas:

— Tem certeza?

Como se estivéssemos cancelando uma assinatura de revista.

Como se meu coração não tivesse sido destruído e reconstruído tantas vezes que eu já não soubesse qual era sua forma original.

— Tenho.

Ele assentiu.

Sem drama.

Sem discussão.

Sem insistência.

Sem lutar por mim.

Como sempre.

Pegou a caneta.

Assinou.

E naquele instante eu soube que os últimos quatro anos da minha vida tinham acabado.

Era simples assim.

Uma assinatura.

Um rabisco de tinta.

Fim.

Eu deveria ter chorado.

Mas as lágrimas tinham acabado muito antes daquele dia.

Muito antes do acidente.

Muito antes de ele acordar no hospital procurando outra mulher.

Muito antes de eu entender que não importa o quanto você ame alguém.

Você não pode obrigar essa pessoa a amar você de volta.

Gabriel empurrou os documentos para mim.

— Pronto.

Pronto.

Uma palavra tão pequena para algo tão grande.

Meu coração apertou.

Porque, apesar de tudo, existia uma parte estúpida dentro de mim.

Uma parte que ainda esperava.

Sempre esperava.

Esperava que ele me impedisse.

Esperava que dissesse meu nome.

Esperava que finalmente me escolhesse.

Mas ele não fez nada.

Nunca fez.

Peguei os papéis.

Levantei.

E fui embora.

Sem olhar para trás.

Sem perceber que aquela seria a última vez que o veria por muito tempo.

Dois meses depois.

Eu estava parada no aeroporto segurando uma passagem só de ida.

Nova York.

A cidade que eu sonhava conhecer desde os dezesseis anos.

A cidade onde ficava uma das maiores empresas de design do mundo.

A cidade onde ninguém me conhecia.

Onde ninguém sabia quem eu tinha sido.

Ou quem eu tinha amado.

Minha mala estava pesada.

Mas não tanto quanto meu peito.

Meu celular vibrou.

Uma mensagem da minha mãe.

"Tem certeza que quer ir tão longe?"

Sorri.

Engraçado.

Todo mundo parecia preocupado com a distância.

Mas ninguém entendia que eu já estava longe havia anos.

Longe de mim mesma.

Longe dos meus sonhos.

Longe da garota que eu costumava ser.

Antes de Gabriel.

Antes do casamento.

Antes de tudo.

Fechei os olhos por um instante.

E, contra minha vontade, uma lembrança surgiu.

Eu tinha seis anos.

Estava sentada no chão da escola chorando porque um menino mais velho tinha rasgado meu desenho.

Lembro do papel amassado.

Das lágrimas.

Da sensação horrível de que meu trabalho não valia nada.

Então alguém sentou ao meu lado.

Um garoto magro.

Com os joelhos ralados.

E um sorriso torto.

Ele não disse nada.

Apenas colocou um pacote de biscoitos na minha frente.

— Você pode ficar com o meu.

Eu funguei.

— Por quê?

— Porque você parece triste.

Simples assim.

Como se fosse motivo suficiente.

Como se minha tristeza importasse.

Lembro dele pegando o desenho rasgado.

Lembro dele juntando os pedaços.

Lembro dele dizendo:

— Ainda está bonito.

Na época eu acreditei.

Porque crianças acreditam em milagres.

E naquele dia aquele menino tinha sido um.

Lucas.

Esse era o nome dele.

Não pensava nele havia anos.

Talvez mais de uma década.

A vida tinha acontecido.

Mudanças.

Escolas diferentes.

Faculdade.

Casamento.

Fracassos.

E as pessoas acabavam ficando para trás.

Abri os olhos.

O embarque estava sendo chamado.

Respirei fundo.

Era hora de seguir em frente.

Era hora de começar outra vida.

Sem Gabriel.

Sem expectativas.

Sem esperar ser escolhida.

Pela primeira vez, eu escolheria a mim mesma.

Peguei minha mala.

Dei o primeiro passo.

E não fazia ideia de que, do outro lado do oceano, o destino estava prestes a me apresentar novamente ao garoto que um dia juntou os pedaços de um desenho rasgado.

E, anos depois, ajudaria a juntar os pedaços do meu coração.

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