capítulo 2

Existe uma diferença enorme entre achar alguém bonito e começar a procurar essa pessoa em todos os lugares.

Eu descobri isso da pior forma possível.

No começo, Gabriel Castellan era apenas um rosto bonito no campus.

Um rosto muito bonito.

Mas ainda assim apenas um rosto.

Ou pelo menos era isso que eu tentava dizer a mim mesma.

O problema era que meu cérebro parecia ter planos completamente diferentes.

Duas semanas depois da festa dos calouros, eu já sabia exatamente quais eram os horários mais comuns dele.

Não porque estivesse seguindo Gabriel.

Claro que não.

Eu só...

Bem.

Talvez eu estivesse prestando atenção demais.

Mas existe uma diferença.

Eu acho.

Ou pelo menos achava naquela época.

— Você está fazendo de novo.

Levantei a cabeça do meu caderno.

— Fazendo o quê?

Sofia apontou discretamente para o outro lado do pátio.

Nem precisei olhar para saber quem estava lá.

Porque eu já tinha visto.

Cinco segundos antes.

— Nada.

— Helena.

— Nada.

— Você olhou três vezes em menos de um minuto.

— Isso é mentira.

— Foram quatro.

Bufei.

Ela riu.

— Você está apaixonada.

— Não estou.

— Está sim.

— Eu nem conheço ele.

— Isso nunca impediu ninguém.

Infelizmente ela tinha razão.

Porque quanto mais eu observava Gabriel, mais difícil ficava ignorá-lo.

Não era apenas a aparência.

Se fosse só isso, provavelmente já teria passado.

O problema eram as pequenas coisas.

Os detalhes.

As coisas que ninguém prestava atenção.

Ou pelo menos eu achava que ninguém prestava.

Uma tarde vi Gabriel ajudar um professor a carregar uma pilha enorme de livros.

Em outra ocasião ele ficou quase vinte minutos conversando com um funcionário da manutenção.

Sem pressa.

Sem arrogância.

Como se realmente estivesse interessado no que o homem dizia.

Outro dia encontrei uma garota chorando perto do prédio de Administração.

Mais tarde descobri que ela havia perdido uma bolsa de estudos.

Gabriel ficou sentado ao lado dela por quase uma hora.

Apenas ouvindo.

Quem faz isso?

Quem para a própria rotina para ouvir alguém que nem conhece?

Cada nova descoberta alimentava alguma coisa dentro de mim.

Uma esperança perigosa.

A ideia de que ele era tão bom quanto parecia.

Talvez melhor.

E isso era um problema.

Porque pessoas perfeitas não existem.

Mas eu estava começando a construir uma versão perfeita de Gabriel dentro da minha cabeça.

Uma versão que provavelmente nem era real.

Numa manhã de outubro, cheguei cedo à universidade.

Tão cedo que o campus ainda estava quase vazio.

Eu tinha uma apresentação importante e queria revisar algumas coisas antes da aula.

Escolhi uma mesa próxima aos jardins.

Abri meu notebook.

Peguei meus materiais.

Respirei fundo.

E imediatamente derrubei meu café.

— Não.

Olhei horrorizada para o líquido escorrendo sobre minhas folhas impressas.

— Não, não, não...

Comecei a recolher tudo às pressas.

Guardanapos.

Papel.

Desespero.

Muito desespero.

— Você precisa de ajuda?

Congelei.

A voz veio atrás de mim.

Uma voz masculina.

Familiar.

Meu coração quase saiu pela boca.

Lentamente ergui a cabeça.

Gabriel.

Gabriel Castellan estava parado na minha frente.

Segurando alguns livros.

E olhando para a bagunça que eu tinha acabado de criar.

Durante alguns segundos fiquei muda.

Completamente muda.

— Eu...

Excelente resposta, Helena.

Muito inteligente.

— Acho que sim.

Ele sorriu.

E, sinceramente, aquele deveria ser um crime.

Porque ninguém deveria ter autorização para sorrir daquele jeito às sete e meia da manhã.

Gabriel pegou alguns guardanapos da cafeteria próxima.

Sem pedir permissão.

Sem parecer incomodado.

Apenas ajudou.

Em menos de dois minutos a situação estava sob controle.

— Obrigada.

— Sem problemas.

Olhei para as folhas.

Algumas estavam manchadas.

Mas ainda legíveis.

Sobreviviam.

Diferente da minha dignidade.

— Foi uma apresentação importante?

— É.

Quer dizer...

Era.

Talvez ainda seja.

Ele soltou uma risada.

Uma risada baixa.

Suave.

E aquilo fez coisas perigosas com meu coração.

— Vai dar certo.

— Espero que sim.

— Vai.

Confia.

Confia.

Uma palavra simples.

Mas estranhamente reconfortante.

Antes que eu pudesse pensar em qualquer outra coisa, um dos amigos dele apareceu.

— Gabriel!

Ele se virou.

— Já vou.

Então voltou a me olhar.

— Boa sorte na apresentação.

— Obrigada.

E foi embora.

Simples assim.

Menos de três minutos.

Provavelmente insignificantes para ele.

Mas eu fiquei parada olhando enquanto ele se afastava.

Tentando ignorar o sorriso idiota que ameaçava aparecer no meu rosto.

— Não acredito.

Virei.

Sofia estava parada alguns metros atrás.

Com os braços cruzados.

— Você viu?

— Vi.

— Ele falou comigo.

— Eu também vi isso.

— E me ajudou.

— Sim.

— E me desejou boa sorte.

Sofia apertou os olhos.

— Você percebe que está agindo como uma adolescente de quatorze anos?

— Eu sei.

— Isso é preocupante.

— Eu sei.

— Você vai sofrer.

Meu sorriso desapareceu.

Porque, por mais que eu não quisesse admitir...

Eu sabia disso também.

Naquela noite liguei para minha mãe.

Conversamos sobre as aulas.

Os trabalhos.

As provas.

As contas.

Coisas normais.

Então ela perguntou:

— Você fez amigos?

— Fiz.

— E tem algum garoto bonito por aí?

Revirei os olhos.

— Mãe.

— O quê? Sou sua mãe. É minha obrigação perguntar.

Sorri.

E pela primeira vez contei sobre Gabriel.

Não tudo.

Só um pouco.

O suficiente.

Quando terminei, ela ficou em silêncio por alguns segundos.

— Helena.

— Hum?

— Só toma cuidado.

— Com o quê?

— Às vezes a gente se apaixona pela ideia de uma pessoa.

Não pela pessoa de verdade.

Na época achei que ela estava exagerando.

Porque o que minha mãe podia saber?

Eu tinha dezenove anos.

Achava que entendia tudo.

Achava que sabia exatamente o que estava sentindo.

Hoje eu daria qualquer coisa para ter escutado aquele conselho com mais atenção.

Porque, naquela fase da minha vida, eu ainda não estava apaixonada por Gabriel Castellan.

Não de verdade.

Eu estava apaixonada pela versão dele que existia dentro da minha cabeça.

E essa versão perfeita...

Nunca existiu.

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