Aproximação

Um mês havia se passado.

Na sexta-feira à noite, as meninas haviam prometido se encontrar no apartamento de Faby. Seria o tradicional “dia das meninas”. Gabriela havia ficado com a avó. Nos fins de semana e feriados, a mãe de Giulia sempre levava a neta para passar esses dias com ela, já que, durante a semana, a menina ficava pela manhã na escola e, no fim da tarde, com Giulia.

Como Faby estava ocupada com os preparativos do seu casamento e, infelizmente, não poderia estar presente, a festa do pijama acabou sendo transferida para o apartamento de Helena. Fazia quase duas semanas que não se viam pessoalmente, embora conversassem sempre pelo telefone; a última vez que estiveram juntas havia sido no Carnaval.

Chegaram por volta das 20h30, por causa do trabalho e do trânsito. O apartamento de Helena era confortável. Não muito grande, mas aconchegante: dois quartos, uma sala, cozinha, um banheiro e uma varanda espaçosa. As bebidas ficaram por conta de Camille, que chegaria um pouco mais tarde. As comidas seriam de responsabilidade de Giulia, enquanto Helena ficou encarregada dos doces e aperitivos.

Giulia chegou animada, mas parou na porta quando deu de cara com os rapazes na sala. Ela estava arrumada — pelo menos havia passado em casa para tomar banho e fazer uma maquiagem leve —, mas Camille vinha direto do trabalho… Helena às vezes era terrível.

— Boa noite! — disseram os rapazes.

André, Kauan e Rafael se levantaram para cumprimentá-la. Giulia ficou um pouco sem graça.

— Meninos, desculpem a minha expressão, mas a Helena não avisou que teríamos convidados.

— Se eu avisasse, a Camille não viria — respondeu Helena, com um sorriso travesso.

— Achamos que vocês já sabiam — disse Rafael. — A Helena comentou que fariam uma comemoração simples, nada demais… por isso resolvemos aparecer.

Enquanto falava, ele olhava esperançoso para Giulia, que fingiu não perceber.

Cerca de dez minutos depois, Camille chegou. Estava um caos. Pegou um ônibus lotado, passou no mercado para comprar as bebidas e nem teve tempo de tomar banho. Os cabelos estavam bagunçados e ela nem havia passado base no rosto. Quando olhou para a sala e viu os rapazes, teve vontade de voltar pela mesma porta. Mas respirou fundo, entrou e sorriu.

André imediatamente se levantou para ajudá-la com as sacolas. Parecia até cena de casal: a esposa chegando cansada em casa e o marido indo ajudá-la.

— Meninos, boa noite. Obrigada, André!

Camille desapareceu na cozinha e só retornou cerca de meia hora depois, já com uma roupa emprestada de Helena: uma calça legging e uma blusa folgada rosa.

A noite foi tranquila e leve. Assistiram a várias temporadas de um anime de suspense que André e Rafael haviam indicado. Depois, ficaram conversando e rindo. Por volta das duas da manhã, os rapazes se despediram e foram embora.

Marcaram de ir a uma festa em Copacabana no dia seguinte. Seria um show de pagode do grupo Mulecadas, comemorando vinte anos de carreira e o lançamento do novo álbum, Amor me Traz.

Foi Rafael quem convidou as meninas na noite anterior. Giulia demonstrou pouco interesse no início, mas confirmou que iria. Helena aceitou na hora, já Camille disse apenas que iria pensar. O show aconteceria na areia, marcado para as 21h. Rafael ficou responsável por buscar as meninas, enquanto Kauan e André as aguardariam em frente ao palco, em um espaço reservado que o tio de Rafael havia conseguido.

As meninas estavam lindas. O tempo estava fresco, então não sentiram frio. Usavam bermudas e blusas leves. Já os meninos estavam de jeans, camisa e tênis. André estava ansioso e um pouco preocupado, pois Camille não deu certeza se iria. Mesmo assim, mantinha a esperança.

Assim que a viu chegar, ele abriu um grande sorriso. Ela estava perfeita. André abriu espaço ao seu lado para que ela pudesse se acomodar.

— Oi, Kauan… oi, André.

Os dois responderam ao mesmo tempo. Helena cumprimentou André e deu um selinho em Kauan.

Logo a abertura do show começou. Camille ficou completamente eufórica quando percebeu qual grupo estava no palco. Escutou que seria uma banda de pagode, mas, como não prestara atenção, não havia se atentado ao nome. E agora, ali naquele palco improvisado na praia, estava a sua banda favorita, que ela ouvia muito quando era adolescente.

André nunca viu aquele lado dela. Camille pulava, sorria e soltava pequenos gritinhos de empolgação. Ele apenas ria, com os olhos iluminados diante daquela empolgação de uma garota que se mostrava ainda mais interessante a cada momento em que se encontravam.

Ela fez um gesto para que ele se aproximasse e abaixasse um pouco. Então, falou em seu ouvido:

— É meu grupo favorito… eu escutava muito na adolescência!

André também gostava do grupo. Costumava colocar as músicas para tocar no celular enquanto preparava novos pratos e pensava em cardápios no restaurante. As canções falavam de amor, perdas e recomeços. Havia uma canção específica chamada Recomeços, que era a favorita de André. E ele acabou de descobrir que também era a favorita de Camille, quando a ouviu cantando com o grupo.

Naquele momento, André teve a sensação de que o destino estava esfregando na cara dele que aquela era a mulher da sua vida. Mas, para isso acontecer, ela também precisaria querer que ele fosse o homem da vida dela.

Enquanto isso, Kauan aproveitava o clima do show para pedir Helena em namoro. Giulia, de vez em quando, trocava alguns beijos com Rafael. Ele estava tranquilo; sabia que em algum momento conversaria com ela com mais calma, então, por enquanto, decidiu apenas aproveitar a noite.

Vendo Camille cantar Recomeços, André sentiu vontade de cantar com ela. Quase o fez, mas se conteve. Era o momento dela, então preferiu apenas observá-la.

No meio do show, um dos integrantes tirou a camisa, e a multidão foi à loucura — inclusive as meninas. André e os amigos se divertiam com elas, gritando e assobiando para o grupo. O rapaz beijou a camisa e a jogou para o público. No mesmo instante, começou uma empurradeira.

André virou rapidamente o corpo e ficou de costas para Camille, abrindo espaço e protegendo-a para que ninguém a atingisse. Ela nem percebeu o que estava acontecendo, distraída enquanto cantava e se divertia. Mas Rafael e Giulia viram tudo.

Rafael fez uma expressão divertida, como quem pensava: “O André está mesmo caidinho.” Já Giulia percebeu outra coisa. Naquele gesto simples, entendeu que André poderia ser o homem adequado para sua amiga. Ele era cuidadoso, não extrapolava limites e a respeitava. Sentiu até uma pequena pontada de inveja, mas, ao olhar para trás, percebeu que Rafael estava fazendo exatamente o mesmo por ela, protegendo-a da confusão da multidão.

Giulia, então, caiu em si. Ainda não estava pronta para um relacionamento. Rafael percebeu aquele olhar pensativo dela e a puxou para um beijo. Não queria deixar espaço para dúvidas entre eles… caso um dia realmente estivessem em um relacionamento sério.

Depois do show, foram dar uma volta pela praia. Kauan e Helena se despediram e seguiram para curtir a noite apenas ambos. André, Rafael e Giulia caminharam pela areia. André e Camille estavam mais à frente, enquanto Rafael e Giulia vinham logo atrás.

Era o momento perfeito para Rafael falar sobre os dois, mas Giulia sentou-se na areia, fazendo com que ele mudasse os planos.

— Rafael, não sei se você percebeu, mas eu não quero nada sério. Se não tiver problema, podemos continuar do jeito que está?

Ele sentou-se ao lado dela e olhou para o mar. A água estava calma, mas Giulia parecia assustada. Um paradoxo difícil de definir: aquele olhar estava mais perdido do que as próprias ondas da praia.

— Podemos deixar do jeito que está, sim.

Ela respirou fundo antes de continuar:

— Não quero que você conheça a minha filha. Quero ela fora disso tudo. Ela não teve pai… Para ela, o meu pai é o herói dela. Então não me ofereça algo que talvez seja passageiro.

As palavras saíram duras, mas Giulia precisava cuidar de si mesma e da Gabi. Rafael apenas assentiu.

— A decisão é sua. Eu aceito — disse ele, desanimado, mas sabia que ainda era cedo para se aprofundar em uma relação que talvez a ferisse mais, caso desse errado.

Ficaram ali sentados por um tempo, apenas olhando as ondas quebrando na areia. Após alguns minutos, Rafael se aproximou um pouco mais e puxou Giulia com cuidado, apoiando a cabeça dela em seu ombro.

Mais à frente, André e Camille perceberam de longe que ambos haviam parado e estavam sentados. Resolveram parar também. Mesmo distantes, ainda dava para ver Giulia encostada no ombro de Rafael. Camille sentou-se na areia.

— Eu queria muito que a Giulia encontrasse uma pessoa boa, sabe?

André também se sentou ao lado dela.

— Não sei… nem consigo imaginar o que ela passou. Mas dá para perceber que está ferida. Voltar a confiar em alguém deve ser muito difícil… principalmente na situação dela.

Camille passou os dedos pela areia, jogando-a de volta ao chão como se fosse algo natural a fazer, e pensava em como a amiga aprendera a ser forte pela filha.

— Ela é muito forte. Não sei se eu conseguiria. Meus pais são muito certinhos… querem tudo como manda a igreja. Tive muita dificuldade para convencê-los de que precisava sair de casa, estudar e trabalhar. Ainda estou convencendo-os sobre o meu apartamento.

André a escutava com atenção. Entendeu que, para Camille, um relacionamento precisava ser algo sério. Percebendo que falou demais, ela mudou de assunto:

— Você é dono de um restaurante?

— Sou, sim. Já faz uns cinco anos… ou mais, nem lembro direito — ele sorriu. — Sei como é difícil convencer nossos pais sobre algo que a gente quer. Eles não entendem que precisamos fazer nossas próprias escolhas, principalmente profissionais. Meus pais queriam que eu fosse advogado ou médico. Quando decidi estudar gastronomia… nossa, foi muito difícil. Mas hoje eles já aceitam.

De repente, começaram a cair algumas gotinhas de chuva. Instintivamente, André levantou a mão sobre a cabeça de Camille para protegê-la, e os dois correram até a calçada, rindo da situação.

Quando chegaram à calçada, Camille olhou para ele. Levantou-se um pouco na ponta dos pés para ficar na altura dele, mas André ainda precisou se abaixar um pouco. Então, se beijaram ali mesmo. Na calçada. Debaixo da chuva.

Ali, ele a beijava com intensidade. Como sentira falta daquele beijo! E Camille o correspondia com a mesma força. Suas mãos foram para o pescoço de André, e os dedos se perdiam nos cabelos dele, puxando-o levemente, como se quisesse tê-lo ainda mais perto. As mãos dele, que estavam em sua cintura, subiram devagar até alcançarem a nuca dela. André inclinou o rosto de Camille para trás com cuidado, aprofundando o toque. Por um instante, o mundo pareceu desaparecer.

— André… — sussurrou Camille, o nome dele escapando de seus lábios, carregado de desejo.

A chuva fininha, o som das águas da praia, as estrelas e as pequenas luzes dos quiosques eram os verdadeiros cúmplices da paixão que acendia no coração de Camille. Ela poderia estar confusa com os sentimentos que estavam florescendo, mas André tinha certeza dos dele por ela.

Giulia e Rafael chegaram naquele momento. Giulia não se conteve: tirou o celular do bolso e registrou a cena. Rafael fez uma expressão de desaprovação, mas Giulia precisava guardar aquele momento. Em apenas um mês desde que conhecera André, Camille mudara tanto. Estava mais animada, mais leve, mais livre. Mesmo que ela não falasse abertamente sobre André, era visível que ele entrou na vida dela, mas a amiga tinha que ter certeza antes de se jogar inteira naquela onda.

A chuva começou a cair mais forte, transformando-se em uma cortina fina que molhava tudo ao redor. Eles riram, sem querer interromper aquele momento, mas precisaram correr para se proteger. Foram até um quiosque próximo que tinha cobertura. Estava fechado, mas ao menos os protegia.

Camille ficou na frente dele, ainda ofegante, enquanto André a abraçava por trás, envolvendo seu corpo. Ela sentia o calor dele mesmo com o vento frio da chuva. André aproximou os lábios do ouvido dela e começou a cantar baixinho a música Recomeços, do grupo Mulecadas. Sua voz era suave, quase um sussurro misturado ao som da água:

“O amor vem, basta esperar…

Para que ter pressa?

Pode acreditar: quando ele chegar,

Esteja preparado…

Seu coração vai avisar que é amor.

Mesmo que ele esteja ferido,

Existem recomeços que podem curar…

Que podem curar, podem curar…

Pode acreditar, existem recomeços!

Que valem a pena seguir.

Vale a pena esperar…

Mesmo ferido, não fique desiludido…

Eu e você vamos recomeçar.

Porque o seu amor quero para mim…

e pode deixar que eu cuido de tudo.

Por você, pra você e por nós…

Vamos recomeçar.”

Camille fechou os olhos por um instante. Cada palavra parecia atravessar algo profundo dentro dela. Quando André terminou, ela se virou lentamente para encará-lo. Seus olhos estavam marejados, refletindo a luz fraca do quiosque e as gotas de chuva que ainda escorriam pelo rosto.

— Você conhece essa música?

André sorriu de leve. Afastou uma mecha molhada do rosto dela e beijou sua testa com delicadeza.

— É a minha música preferida.

Camille o olhou em silêncio por alguns segundos, como se, naquele momento, tivesse entendido que talvez... alguns recomeços realmente valessem a pena.

A chuva continuava cada vez mais forte. Rafael e Giulia passaram por eles de carro e buzinaram.

— Pombinhos! Vamos sair da chuva! — gritaram Rafael e Giulia ao mesmo tempo.

Camille ficou sem graça, mas não conseguiu esconder o sorriso enquanto entrava no carro com André.

— André, conversei com a Giulia e achamos melhor irmos para o apartamento dos meus tios. Claro, se não tiver problema para vocês — disse Rafael, olhando pelo retrovisor.

Camille olhou para André antes de responder:

— Tudo bem. A chuva está forte e provavelmente não vai cessar tão cedo. Mas alguém tem notícias da Helena?

— Não se preocupe. Eles estão muito bem — respondeu Rafael, rindo.

A tia de Rafael havia se apaixonado pelo Rio de Janeiro, por isso decidira comprar um apartamento no Leblon. O condomínio era arejado e espaçoso, perfeito para quando os meninos quisessem passar um tempo na cidade; era um ótimo lugar para relaxar olhando a praia e o pôr do sol. Seu esposo não a questionou, pois sabia o quanto a maresia fazia bem para ela. Assim que viram o imóvel, decidiram comprá-lo.

Naquela noite, Sophie estava lá, descansando depois de uma semana longa de tratamento. Mesmo após a cirurgia, ela ainda tinha alguns resquícios da doença. Quando chegaram, ela ainda estava acordada, assistindo à televisão. Seus cabelos estavam mais ralos por causa do tratamento, mas ela já estava na fase final. Depois disso, não precisaria mais continuar, pois o tratamento estava funcionando e a doença havia cessado.

Os meninos entraram em silêncio, mas ela logo se levantou do sofá, pronta para dar uma bronca, já que passava das três da manhã. Porém, conteve-se ao ver duas moças lindas com eles.

— Ainda acordada, tia? — perguntou Rafael.

— Boa noite, meninas! Nossa... vocês são lindas. Ouvi muito falar de vocês, principalmente de você, Camille.

André ficou vermelho. Era raro ver um homem daquele tamanho com vergonha. Mas Sophie sempre fora firme com eles, uma verdadeira mãezona; eles a obedeciam em tudo. André e Rafael foram até ela e a abraçaram. As meninas foram convidadas a se sentar.

— E o Kauan? — perguntou Sophie.

— Saiu com a namorada. Com certeza só volta amanhã — respondeu Rafael.

Ela riu. Kauan sempre fora o mais namorador do grupo.

Depois de alguns minutos, Sophie se despediu dos jovens e foi fazer companhia a Jorge, que já a esperava na cama há uns trinta minutos. Ela nunca dormia enquanto os meninos não chegassem e dessem notícias.

— Sua tia é uma pessoa muito legal — comentou Giulia.

Rafael sorriu.

— Sim. Minha mãe sempre viveu na correria, e foi a tia Sophie quem cuidou de mim quando eu era criança. Depois, na adolescência, vieram o André e o Kauan. Ela trata a gente como se fôssemos filhos... e nós gostamos demais dela.

André concordou em silêncio. A mãe de André estava viúva havia dois anos; seu pai falecera após um AVC. Ele quase nunca falava sobre isso, pois perder o pai havia sido muito difícil. Sua mãe também não estava bem de saúde, e suas irmãs estavam cuidando dela em São Paulo. André vivia preocupado em perdê-la também, e esse medo o afetava profundamente.

Helena já havia comentado com as amigas sobre a tia Sophie e o processo que ela tinha enfrentado, ressaltando o quanto os meninos a amavam como uma mãe. Ao encontrar Camille, ela, de alguma forma, conseguia acalmar o coração dele. Mas ainda não era o momento de se abrir completamente com a jovem. Camille ainda estava desabrochando e ele a respeitava; não queria falar ainda sobre a falta do pai e a doença da mãe.

Rafael levou as meninas até um quarto.

— Vocês podem ficar aqui. É o quarto do André. Ele vai dormir no quarto do Kauan, então não se preocupem com nada.

Antes que ele fechasse a porta, Sophie apareceu com algumas roupas nas mãos.

— Meninas, comprei essas roupas há algumas semanas, mas nem usei. Pelo menos vocês podem trocar essas peças molhadas.

— Obrigada! — disseram as duas.

As meninas pegaram as roupas e foram tomar banho. No banheiro, Camille olhou para Giulia e disse:

— Não imaginava que a tia dele fosse tão delicada e amorosa.

Giulia sorriu, mas, no fundo, sentia-se um pouco pensativa. Ela costumava se sentir bem assim somente no seio da sua própria família, e o fato de André e aquele ambiente a deixarem tão confortável e acolhida começava a preocupá-la.

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