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Capítulo 5: - Confissões

Saíram do posto de primeiros socorros e caminharam pela rua procurando algum lugar para tomar um refrigerante ou uma água mineral para aliviar o calor.

André estava de camiseta e bermuda e também sentia calor, mas mal percebia isso. Seus olhos estavam voltados para Camille, encantado.

Ela, por outro lado, não parava de falar sobre os blocos e como Faby, Giulia e Helena adoravam o Carnaval.

— Antes nós íamos sempre — dizia ela. — Paramos depois que Giulia se divorciou.

André a olhou curioso.

— E você?

Chegaram a uma lanchonete. Sentaram-se e pediram dois sucos de laranja. O local estava cheio, mas era bem arejado por causa do ar-condicionado.

Camille tomou um gole do suco antes de responder.

— Nunca gostei de multidão. Fico com falta de ar… minha pressão baixa.

O garçom interrompeu a conversa ao trazer uns aperitivos.

André esperou que ele se afastasse.

— Isso sempre aconteceu?

— Sim. Já fiz acompanhamento com terapeuta, psicóloga…

Ela fez uma pausa antes de continuar.

— Desculpa perguntar, mas…

— Pode perguntar — disse Camille.

André a olhou nos olhos e perguntou:

— O motivo de ficar em meio a multidão é …

Camille respirou fundo.

— Quando eu era pequena, devia ter uns cinco anos. Meus pais foram fazer compras de fim de ano no centro. Eu me afastei deles e fui olhar uma fileira de brinquedos. Fiquei encantada com uma boneca.

Ela abaixou o olhar por um instante.

— De repente começou uma correria. No meio da agitação fui empurrada. Olhava para todos os lados e não via meus pais. Eles só me encontraram uma hora depois.

André permaneceu em silêncio, ouvindo.

— Eu estava com uma moça que segurava minha mão. Ela perguntou meu nome e com quem eu estava. Depois meus pais me encontraram… Mas até hoje tenho lembranças daquele momento.

Camille mexeu no copo de suco.

— Eu reluto para não voltar naquele lugar ou naquele sentimento. Desde aquele dia eu entrava em pânico quando estava em um lugar lotado. Hoje consigo ficar, mas não por muito tempo. Eu suporto… mas preciso me sentir segura.

André começou a fazer um carinho na mão dela. Camille não retirou sua mão.

— Você é muito corajosa — disse ele.

Ela sorriu.

— Obrigada.

André continuou olhando para ela.

— Eu admiro sua coragem. Você era muito pequena no meio de uma multidão de pessoas desconhecidas. O susto, o medo… qualquer criança ficaria em choque.

Camille assentiu.

— Hoje consigo falar sobre isso. Mas antes era muito difícil. Minhas amigas descobriram no dia do trote da faculdade. Eu fiquei com falta de ar e minha pressão baixou. Estávamos em um auditório cheio ouvindo os veteranos… e comecei a passar mal.

Ela respirou fundo.

— A psicóloga disse que o desconhecido ainda me assusta.

André apertou a mão dela com carinho, como se quisesse mostrar que ela podia confiar nele.

Enquanto isso, no meio do bloco, Giulia estava se divertindo.

Fazia muito tempo que não curtia um Carnaval assim.

Ela olhava para Rafael e cantava as músicas. Ele repetia algumas partes com letras trocadas, o que a fazia rir.

Sem perceber, os dois acabaram dando as mãos enquanto pulavam e cantavam.

Trocavam olhares e sorrisos.

Kauan e Helena dançavam juntos. Às vezes trocavam alguns beijos rápidos.

Depois de um tempo, Helena fez um sinal de que queria sair um pouco do bloco. Rafael e Giulia foram juntos.

— O que houve? — perguntou Giulia.

— Sede — respondeu Helena.

Giulia olhou ao redor e percebeu que Camille e André não estavam mais ali.

— Calma — disse Rafael, pegando o celular do bolso da bermuda. — Temos um aplicativo que mostra onde estamos. Minha tia fez questão de instalar.

Ele mostrou a tela para elas.

— Eles estão por aqui perto.

Helena pegou o celular da mão dele.

— Sei onde é. Vamos mandar mensagem dizendo que estamos indo até eles.

Helena e Kauan seguiram em frente, de mãos dadas.

Rafael e Giulia vinham logo atrás.

Rafael olhou para ela.

— Você tem tempo livre?

Giulia se aproximou dele e o beijou.

Eles pararam ali mesmo. Rafael segurou sua cintura e correspondeu ao beijo, passando a mão pelo rosto dela antes de beijá-la novamente.

Kauan olhou para trás, percebeu a cena e cutucou Helena.

Ela sorriu.

Os dois diminuíram o passo.

— Vamos aproveitar o hoje — disse Giulia quando se afastou do beijo.

Pouco tempo depois chegaram à lanchonete.

De longe viram André segurando as mãos de Camille.

Giulia puxou uma cadeira em outra mesa.

— Vamos sentar aqui, um pouquinho afastados. Acho que eles estão se dando bem. Não vamos atrapalhar.

Chamou o garçom.

Helena pegou o celular discretamente.

E conseguiu tirar uma bonita foto do novo casal:

André e Camille Castanha.

André soltou a mão de Camille para olhar o celular e viu a foto dos dois: ele segurando a mão dela enquanto se olhavam. Riu e mostrou para Camille, que ficou sem graça.

— A ofendi? — perguntou André Martins.

— Não, mas isso deve ter sido coisa da Helena.

— Sim, pela mensagem do Rafael, eles estão…

André procurou entre as mesas até encontrá-los.

— Ali!

Apontou com o dedo. Kauan e Helena estavam acenando, enquanto Rafael beliscava algo e Giulia bebia uma cerveja. André e Camille se levantaram e foram se juntar aos demais.

— Helena, não gostei da foto. Estávamos conversando sobre um assunto sério, não era nada demais — falou Camille, séria e firme, demonstrando que não tinha gostado.

André a observava em silêncio, assim como os outros.

— Desculpa, não quis ofender você. Já estou apagando a foto. Rafael, poderia apagar também?

André pegou o celular e baixou a foto para sua galeria. Rafael pegou o celular e apagou a imagem, mostrando a Camille.

Sentaram-se à mesa e começaram a conversar sobre o bloco e como estavam animados. Menos Camille, que demonstra certa insatisfação.

Helena e Kauan se levantaram.

— A gente vai dar uma volta… namorar um pouco.

— Como vocês vão ficar por aqui, daqui a pouco voltamos.

De mãos dadas, Helena e Kauan foram caminhar. Como havia pessoas reunidas e o próximo bloco já estava se aquecendo, disseram que iriam dar uma olhada e que, em meia hora, estariam de volta.

Rafael perguntou se eles não queriam ir também, mas André observava Camille, que não parecia muito disposta a sair dali.

— Vocês podem ir. Vamos ficar por aqui. Este será nosso ponto de encontro. Se sairmos, esperamos vocês aqui.

Camille concordou com André. Então Giulia, que estava louca para dar uma volta, pegou a mão de Rafael e foram embora.

Nem pensaram duas vezes.

— Acho que está rolando algo entre eles — disse André.

— Acho que mais da parte dele. Giulia é bem centrada. Não está procurando romance no momento.

Disse Camille, bebendo seu suco.

André ficou olhando nos olhos dela e perguntou:

— E você?

Ela o encarou e respondeu:

— Nem eu.

Aquela resposta o pegou de surpresa. Não esperava algo tão direto. Na verdade, tinha esperança de ouvir pelo menos um “talvez”, mas recebeu apenas um “nem eu”. Aquelas palavras bateu como uma onda violenta em seu coração fazendo André recuar.

Eles observavam um casal que dançava na calçada quando um homem se levantou da cadeira ao lado, reclamando com outro rapaz que estava olhando para sua esposa. Aquilo o desagradou.

As pessoas ficaram um pouco assustadas.

André chamou o garçom, pagou a conta, pegou Camille pela mão e saiu dali, já que o clima parecia tenso. Algumas pessoas se levantavam, outras tentavam separar a discussão para evitar que virasse algo pior.

Camille estava séria, mas relaxou ao sentir a mão de André segurando a sua.

Andaram um pouco atrás do bloco, que ainda estava enchendo, e viram de longe Rafael aos beijos com Giulia, abraçados e agarrados. Kauan e Helena também estavam se beijando.

Camille Castanha olhou para André.

Aqueles olhos castanhos-claros, cabelos escuros em corte social liso, rosto fino… Ela não tinha percebido antes de perto o quanto ele era bonito.

Seu coração palpitava.

Parecia que estava tendo outro ataque, mas não era de pânico. A vontade era de se jogar naqueles braços fortes.

Uma pessoa que passava acabou esbarrando nela sem querer, fazendo com que tropeçasse e caísse nos braços dele.

André, que estava ao lado dela, um pouco afastado, dançando e olhando para frente, a viu tropeçar e a segurou.

— Você está bem?

— Sim.

Ele ainda a segurava. Quando finalmente a soltou, Camille ficou na pontinha dos pés. André se abaixou um pouco e os dois se beijaram.

Um beijo lento, sem pressa. Não era de desejo, mas de vontade… vontade de prolongar aquele momento, de deixar marcas.

Ela mordia devagar os lábios de André, que não se conteve e trouxe seu corpo para mais perto. Abraçou-a e a beijou com intensidade.

Camille envolveu as mãos no pescoço dele. André a segurava pela cintura e continuava a beijá-la.

Até que a música começou a tocar alto e as pessoas começaram a pular. O movimento ao redor fez com que os dois despertassem.

Se soltaram, não com pressa, mas com cuidado.

Ela o soltou primeiro. Ele a deixou ir devagar, demonstrando que estava interessado nela e que, por ele, aquilo seria apenas o começo da história dos dois.

Giulia viu tudo ao lado de Rafael e os dois sorriram, felizes, porque André e Camille formavam um casal lindo.

Ela tentava disfarçar o que tinha acontecido há poucos instantes. Foi muito corajosa da parte dela… mas também ousada. Falava tanto das atitudes impulsivas de Helena e acabou fazendo exatamente o mesmo. Corava e disfarçava para André não perceber.

Será que foi o clima? As amigas se beijaram e ela sentiu vontade de fazer o mesmo?

Não.

Aquele beijo significou algo. Ele a fez sentir algo mais forte… algo que lhe deu coragem.

Andando no ritmo do bloco, André a observava e percebeu que o beijo a tinha deixado pensativa. Camille caminhava tentando disfarçar, mas era evidente que estava confusa.

Ele não queria apressar as coisas. Depois da conversa que tiveram na lanchonete, percebeu que tudo teria que acontecer devagar. E, se algo realmente acontecesse entre eles, teria que partir dela.

Mesmo assim, André já estava decidido desde o momento em que a viu na água.

Mas não queria assustá-la.

Ele queria muito aquele beijo, mas foi ela quem tomou a atitude. André apenas deixou que ela tivesse aquela coragem. Era grato por aqueles lábios pequenos terem procurado os seus.

Estava feliz.

Mas também estava preocupado.

Giulia os encontrou e pediu a Rafael que não comentasse sobre o beijo. Camille era mais reservada e não gostava que falassem para não contrariar, era raro vê-la ser espontânea.

Durante todo o tempo em que se conheciam, Giulia nunca tinha visto Camille com um homem. O que sabiam era que ela gostava de Heitor, um veterano da faculdade, mas ele a considerava apenas uma grande amiga.

As meninas já haviam insistido para que Camille demonstrasse mais seus sentimentos. No entanto, perceberam que ela simplesmente não era assim.

Além de reservada, era decidida. Sabia que Heitor não era para ela. Ele era muito festeiro, tinha muitas amigas, gostava de festas e de aproveitar a vida.

Camille não iria insistir em algo que poderia machucá-la depois.

Com André, porém, ela se sentia confusa.

Ele a fez falar sobre seu trauma. Nenhum outro rapaz tinha conseguido fazer isso antes. André a fazia conversar, se abrir. Com ele, Camille não precisava se segurar nem fingir ser alguém que não era.

Ela se sentia à vontade para se expressar.

— Vamos? — disse Giulia, olhando para Camille, que ainda estava presa em seus pensamentos.

Kauan e Helena se aproximavam.

— Vamos, sim — respondeu Camille.

Os rapazes as acompanharam até a estação. Dessa vez, Rafael pegou o contato de Giulia, mas Camille fingiu não perceber a troca de números, para não dar brecha para André pedir o dela.

Mesmo assim, André percebeu que Camille estava desconfortável. Aproximou-se dela e disse:

— Gostei do dia de hoje. Se precisar de qualquer coisa, pode contar comigo… a qualquer hora.

Deu um beijo em sua bochecha e se despediu das meninas.

Camille sentiu uma pontada de tristeza. No fundo, queria que ele pedisse seu telefone… mesmo que talvez ela não desse.

Entraram no metrô.

Helena começou a contar o que tinha descoberto conversando com Kauan.

Rafael Munhoz era solteiríssimo, assim como André. Os dois estavam muito focados no trabalho. Rafael trabalhava na empresa da família, enquanto André tinha seu próprio restaurante. Já Kauan era personal trainer e treinador de futebol de uma equipe sub-13.

Camille ficou satisfeita ao saber que André era solteiro. Se tivesse descoberto antes, talvez tivesse dado seu número.

E se nunca mais se vissem?

Giulia, por outro lado, não conversava muito com Rafael. Ela se sentia bem, mas queria apenas curtir o momento. Não estava procurando romance.

Tinha Gabriela, e somente ela era sua prioridade.

— Bom, meninas… hoje foi um dia agradável. Gostei de conhecer o Rafael, mas não estou a fim de levar isso adiante. É bom saber que ele é solteiro e tal, mas é só isso. Não quero namoro nem rolo agora.

Helena e Camille entenderam.

— E você, Camille? Não rolou nada entre vocês? — perguntou Helena.

Camille olhou para as duas e sorriu.

— Sim… nós nos beijamos. Mas, como a Giulia disse, comigo não rola romance agora. Ele mora longe e eu não estou pronta para isso.

— Mas você é solteira… não quer nem tentar? — perguntou Helena. — A Giulia eu entendo, ela teve uma experiência difícil antes. Talvez um dia tente de novo, quando sentir que é o momento… também por causa da Gabriela…

— A questão não é minha filha, Helena — respondeu Giulia. — Mas eu não quero levar qualquer pessoa para perto de mim, nem da minha filha. Por isso prefiro me preservar. E você também deveria ir com calma para não se machucar.

Camille concordou com um gesto leve de cabeça.

Helena, porém, deu de ombros e respondeu:

— Eu prefiro tentar. Se um dia vier uma desilusão, pelo menos eu tentei. Melhor do que ficar em cima do muro, me escondendo e, quem sabe, deixar passar o homem da minha vida. Pode dar certo… ou não. Mas pelo menos eu tentei.

Nesse momento, Faby mandava fotos de Búzios: ela e o noivo na praia, sorrindo, aproveitando o dia.

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