Eu ainda nem havia chegado à porta do quarto de Larissa quando dezenas de seguranças me cercaram.
Assim que me reconheceram, ficaram em alerta máximo.
— Sra. Isabela, o Sr. Gustavo deixou ordens expressas para que a senhora não se aproxime da Sra. Larissa.
Mesmo por trás daquela muralha humana, consegui ver na porta um adesivo com as fotos de Gustavo e Larissa usando filtros de cachorrinho.
As imagens estavam cercadas por um coração cor-de-rosa e, logo abaixo, letras infantis formavam o nome: Cantinho Gus-Lari.
Forcei um sorriso frio:
— Que infantil.
Eu também já havia insistido para Gustavo tirar fotos assim comigo, mas ele sempre dizia que era presidente de uma empresa de capital aberto e jamais faria algo tão infantil.
Então não era que ele não pudesse fazer aquilo. Só não queria fazer comigo.
Levei a mão ao peito, que ainda doía, e respirei fundo:
— Saiam da minha frente.
— Vocês sabem que, quando perco o controle, sou capaz de qualquer coisa.
Em seguida, tirei da bolsa o estilete que sempre carregava.
Eu só pretendia assustá-los, mas, no instante seguinte, um dos seguranças avançou sobre mim e me derrubou.
Os outros me imobilizaram com tanta força que não consegui mover um músculo.
— Desculpe, Sra. Isabela. O Sr. Gustavo determinou que, ao menor sinal de uma crise, deveríamos imobilizar você imediatamente.
Outro segurança pegou o rádio na mesma hora:
— Sr. Gustavo, a Sra. Isabela chegou! Ela trouxe um estilete...
Antes que terminasse, a voz de Gustavo soou alta e urgente:
— Então ajam logo! E se ela machucar a Lari?!
Eu, que até então lutava com todas as forças, parei de repente.
— Ela já está imobilizada. Devemos levar ela de volta à mansão ou manter ela detida por enquanto?
Do outro lado do rádio, houve alguns instantes de silêncio.
Só depois ouvi seu suspiro baixo:
— Deixem pra lá. Tragam ela para dentro.
Arrancaram o estilete da minha mão, mas, durante a luta, ele havia cortado meu pulso.
Quando fui conduzida para o quarto, o sangue ainda pingava no chão.
Mordi o lábio com força, contendo as lágrimas.
Porém, assim que atravessei a porta, fiquei completamente paralisada.
A luz do entardecer atravessava as cortinas finas e banhava a cadeira de balanço na varanda.
Sobre a mesinha ao lado, havia uma xícara de café ainda quente e um livro aberto.
Num canto, uma vitrola antiga tocava o jazz de que Gustavo gostava.
Aquilo não parecia um quarto de clínica. Era um lar.
E era o lar que eu mesma havia projetado.
Antes de nos casarmos, desenhei cada detalhe da planta à mão, seguindo os gostos que compartilhávamos.
Mas Gustavo disse que não queria me ver tão cansada e contratou uma equipe de designers, que decorou a mansão em outro estilo.
Agora, a casa dos meus sonhos estava diante de mim.
Mas havia se tornado o lar dele com outra mulher.
— Você veio.
A voz de Gustavo soou atrás de mim.
Me virei, ainda atônita, e o ouvi dizer:
— A Lari sempre dizia que adorava esse projeto, então dei para ela.
— Você não se importa, não é?
Perguntei, sem acreditar no que ouvia: — O que você acha?
Ele assentiu:
— Então pode destruir tudo, Isa. Se isso fizer você feliz.
Seus olhos passaram pelo meu pulso ensanguentado, deixando transparecer apenas repulsa.
— Eu já me acostumei. A Lari também.
Em seguida, voltou o olhar para fora da janela, sereno, como se dissesse: "Isa, olha como o pôr do sol está lindo hoje."
Segui seu olhar. Um arco-íris havia surgido no céu depois da chuva.
Mas parecia que a tempestade dentro de mim jamais terminaria.
— Gus, seu bobo, venha jogar It Takes Two comigo...
Assim que me viu, Larissa parou de falar.
O console portátil também caiu de suas mãos.
De repente, ela segurou a cabeça com as duas mãos e começou a gritar desesperadamente:
— Não! Não tire minha roupa! Não mate meu filho!
— Eu sou uma vagabunda! Sou a amante!
— Eu errei, por favor... Nunca mais vou fazer isso...
Gustavo correu até ela e a apertou nos braços.
Seus olhos ficaram vermelhos de dor.
— Está tudo bem, não tenha medo.
— Estou aqui. Ninguém vai machucar você outra vez.
Enquanto dizia aquilo, ele olhava para mim, sem fazer o menor esforço para esconder o ódio.
De repente, comecei a rir.
Ri tanto que as lágrimas escorreram pelo meu rosto.
Por um instante, tive vontade de correr, agarrar Larissa e me jogar com ela da varanda.
Mas o pouco de lucidez que ainda me restava dizia que não valia a pena.
Cravei as unhas nas palmas das mãos e, com enorme dificuldade, contive o impulso de morrer com ela.
Soltei uma risada fria:
— Larissa, pare de fingir.