Capítulo 4
— É sério?!

Gustavo estremeceu, com os olhos cheios de incredulidade.

— Claro que é.

Virei o rosto com indiferença e falei devagar.

— Eu estava com medo de que você se divorciasse de mim. Por isso inventei essa mentira para enganar você.

Ele hesitou, ainda parecendo desconfiado:

— Mas aquela pessoa sabe tudo o que aconteceu comigo desde criança.

Soltei uma risada baixa de deboche: — É porque conheço você muito bem. Sei exatamente como ameaçar você para conseguir o que quero.

Gustavo não disse mais nada.

Apenas franziu a testa e me encarou fixamente, sem que eu soubesse o que estava pensando.

Encostei a testa no chão.

Não queria que ele visse o esforço que eu fazia para me controlar.

Afinal, desde que nos conhecêramos, aquela era a primeira vez que eu mentia para ele.

Talvez aquela ligação realmente tivesse vindo de dez anos no futuro.

Talvez, naquela época, ele realmente estivesse consumido pelo arrependimento.

Mas eu já estava cansada.

Funguei e levantei a cabeça.

Assumi uma expressão de desdém.

— Já decidiu? Vai assinar ou não?

— Se deixar essa chance passar, não vai ter outra.

O tapa de Gustavo atingiu meu rosto com força.

Meu rosto inteiro começou a arder na mesma hora.

— Posso tolerar seus surtos e escândalos de sempre, mas desta vez você passou dos limites.

— Isabela Monteiro, você é louca!

Ele fez um gesto com a mão, chamando o assistente.

— Imprima o acordo de divórcio. Vou assinar agora!

Eu achava que já não fosse capaz de sentir dor.

Mas aquele lugar no meu peito, vazio havia tanto tempo, ainda doía e parecia gelado.

Uma nova cópia do acordo chegou logo depois.

Ele assinou e a atirou com força no meu rosto:

— Você vai receber metade dos bens, sem faltar um centavo.

— Mas guarde bem isto. Nunca mais quero ver você.

Assim que ele terminou de falar, os seguranças finalmente me soltaram.

Me levantei do chão com dificuldade, peguei o acordo e me virei para ir embora.

No caminho de volta, começou a chover de novo.

A chuva forte me encharcou em segundos, mas percebi que nunca estivera tão lúcida.

De repente, o celular tocou. Era um número desconhecido.

— Isabela, sou você daqui a dez anos. Você precisa se divorciar de Gustavo!

— Mas não faça nenhuma loucura! Não se machuque, muito menos provoque um incêndio, ou Gustavo vai atormentar você pelo resto da vida!

Fiquei em silêncio por dois segundos.

— Já me divorciei. E não vou mais fazer nenhuma loucura.

A minha versão do outro lado da linha pareceu finalmente respirar aliviada: — Então posso ficar tranquila.

— Fique bem e viva a sua própria vida.

Depois que a ligação terminou, assenti com firmeza.

Duas ligações vindas de dez anos no futuro.

Cada uma contava um desfecho diferente para mim e Gustavo.

Mas eu já não queria descobrir o que era verdade e o que era mentira.

Já estava farta de passar os dias dominada pela inquietação.

Quando voltei para a mansão, comecei a arrumar as malas.

Algumas roupas velhas e uns poucos documentos.

Era tudo o que eu tinha depois de tantos anos.

Só que o retrato de nós dois sobre a mesa de cabeceira ainda era doloroso de olhar.

Gustavo dizia que não gostava de tirar fotos.

Em dez anos de casamento, não havíamos tirado nem uma foto vestidos de noivos.

Mas aquele quarto onde eu estivera pouco antes estava cheio de fotos dos dois, em todos os cantos.

Surfando na praia, admirando a neve ao pôr do sol.

Era como se os dois tivessem deixado sua marca em cada canto do mundo.

Já ele e eu éramos como as duas figuras imaginárias daquele retrato.

Vivíamos lado a lado, mas nunca conseguíamos alcançar o coração um do outro.

Quebrei a moldura e rasguei o retrato ao meio.

Levei comigo toda a vida e todas as lembranças que pertenciam à minha metade.

Assim que cheguei ao aeroporto, o celular tocou de novo.

Olhei a tela. Era Gustavo.

Recusei a ligação na hora.

Ele continuou ligando, e eu continuei recusando.

Sem alternativa, ele começou a me mandar uma mensagem atrás da outra pelo WhatsApp.

"Nunca contei a você como fiquei com a cicatriz na sola do pé!"

"Aquela ligação era de verdade?"

"Você mentiu para mim! Você nunca mentia para mim!"

"Isabela! Onde você está?!"

Desliguei o celular e afivelei o cinto de segurança.

Uma hora antes, eu havia ligado para o meu pai.

O avião particular dele estava me levando para outra cidade, onde não estava chovendo.

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