Quando Meu Ex Se Arrependeu, Eu Já Estava Livre
Quando Meu Ex Se Arrependeu, Eu Já Estava Livre
Por: Raspadinha de Uva
Capítulo 1
Fiquei paralisada. — Você acreditou mesmo nisso?

— Ele disse que você matou Larissa num incêndio. — Gustavo ergueu os olhos para mim, mas só havia um desespero insondável em seu olhar.

— Você perdeu completamente o controle. Não posso correr esse risco, não tenho como.

— Vamos apenas continuar assim pelo resto da vida.

Aquela frase me deixou imóvel, como uma palhaça.

Ele não mencionou o divórcio uma única vez, mas cada palavra transbordava o ódio que sentia por mim.

Seus olhos sem vida pareciam uma faca afiada cravada com força em meu coração.

Ele não estava arrependido nem havia caído em si.

Só estava com medo e tinha desistido de lutar.

Mas, de repente, eu já não queria mais continuar levando aquela vida miserável.

...

Ao perceber que eu ainda estava atônita, Gustavo não tentou me acalmar como costumava fazer.

Vestiu o casaco tranquilamente, disfarçou o descontrole de antes e me informou sua agenda com toda a seriedade:

— Chego à empresa às duas. Tenho uma reunião às três, com duração de duas horas.

Já estava saindo quando se virou de repente:

— Ah, não vou poder atender ligações nem fazer chamadas de vídeo nesse período.

— Se não acreditar em mim, pode esperar na porta da empresa.

Pronunciou cada palavra com cautela e frieza.

Antes que eu conseguisse reagir, ele já havia fechado a porta do carro.

Observei o veículo se afastar e tive a impressão de estar vendo a distância entre nós aumentar cada vez mais.

Finalmente, as lágrimas caíram.

No dia em que flagrei Gustavo e Larissa juntos, enlouqueci.

Todos os dias, esfregava o corpo dele com desinfetante e o examinava dos pés à cabeça com luz ultravioleta.

Bastava encontrar um único fio de cabelo para eu entrar em desespero e obrigar todos os funcionários da empresa a fazer um teste de DNA.

Ele tentou se explicar inúmeras vezes. Disse que os dois tinham sido drogados e vítimas de uma armação.

Chegou a me mostrar as imagens das câmeras e os exames de sangue, mas eu ainda não conseguia aceitar sua traição.

Até o dia em que colocou pela primeira vez os papéis do divórcio diante de mim:

— Isabela Monteiro, estou disposto a deixar oitenta por cento dos bens para você. Vamos nos divorciar.

— Não aguento mais viver assim.

Naquela noite, subi ao terraço pela primeira vez.

Desesperado, ele me arrancou da beirada e me abraçou enquanto gritava, completamente destruído:

— Eu errei! Eu errei de verdade!

— Desconte tudo em mim, faça comigo o que quiser, mas não machuque a si mesma!

— Eu morreria sem você...

Então por quê? Por que o homem que dizia não conseguir viver sem mim depois passou a me implorar, repetidas vezes, que o deixasse ficar com Larissa?

Começou a chover de novo.

Eu segurava um guarda-chuva, mas me esqueci de abri-lo.

Talvez Gustavo tivesse me mimado demais.

Durante aqueles dez anos, eu havia me acostumado a ter ele como motorista.

Quando saíamos para fazer compras, ele segurava o guarda-chuva para mim; quando comíamos, limpava minha boca.

Até quando eu queria passear por uma rua exclusiva para pedestres, ele dava um jeito de liberar a passagem e estacionar bem diante da loja onde eu queria entrar.

De repente, tudo aquilo desapareceu.

Era como se tivessem arrancado meu coração, deixando um vazio por onde o vento frio soprava sem parar.

Nem eu sabia dizer se o que molhava meu rosto naquele momento era chuva ou lágrimas.

Quando voltei para casa, comecei a ter febre.

Em meio ao torpor, Gustavo permaneceu ao meu lado.

Passava água morna em meu corpo para baixar a temperatura e media minha febre a cada quinze minutos.

Quando o assistente ligou para apressar ele para uma reunião, ele perdeu a paciência e mandou todos sumirem.

Ele sempre ficava assim quando eu adoecia.

Sua mão envolvendo a minha estava tão quente, mas meu corpo continuava tremendo sem controle.

O telefone tocou outra vez, e ele não atendeu.

Porém, o toque era tão alto que finalmente me fez abrir os olhos.

Não havia ninguém ao meu lado.

Era o meu próprio celular que tocava.

Gustavo nunca estivera ali.

Engoli com dificuldade o gosto metálico que subia pela garganta e atendi.

— Sra. Isabela, o Sr. Gustavo não foi à empresa hoje.

Fiquei paralisada.

O detetive particular continuou:

— Pouco depois de chegar à empresa, ele foi para a Clínica de Reabilitação. Já está lá há mais de duas horas e ainda não saiu.

Meu estômago se revirou, e uma onda de náusea tomou conta de mim.

A Clínica de Reabilitação era o local particular onde Larissa morava.

As palavras que ele tinha dito antes de sair voltaram a ecoar em meus ouvidos:

— Se não acreditar em mim, pode esperar na porta da empresa.

Como ele tinha tanta certeza de que eu não iria?

Ele dizia isso sempre que me informava seus compromissos.

Eu nunca acreditava e sempre ia esperar por ele.

Só desta vez eu havia acreditado.

E, ainda assim, eu estava errada.

Olhei a hora. Já eram seis da tarde.

Normalmente, ele chegava em casa pontualmente às cinco e meia.

Se não pretendia voltar, eu iria procurar ele.

Nas outras vezes, sempre que eu aparecia, ele colocava os papéis do divórcio diante de mim.

Desta vez, eu já os havia assinado por vontade própria.

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