####CAPÍTULO 19

HADASHA

Dizem que o mundo é pequeno, mas eu passei os últimos cinco anos me alimentando da ilusão de que ele fosse grande o suficiente para manter Caleb Wilson bem longe da minha vida.

Depois daquela noite de formatura, ele passou a ser apenas um fantasma sepultado no meu passado. Um passado que eu me forcei a enterrar sob camadas de estudo obsessivo, noites mal dormidas e uma determinação feroz de sobreviver. É claro que era impossível isolar o mundo completamente. De tempos em tempos, seu nome surgia em uma manchete sobre o setor de tecnologia ou em fotos de colunas sociais. Ele sempre apareceu impecável, vestindo ternos sob medida, ao lado de Liv Lewis Clark — a modelo fútil e egoísta que parecia acompanhar todos os passos da elite local.

Eu apenas observava de longe, por fração de segundos, antes de mudar de página. Nunca senti curiosidade de investigar sua vida. Muito menos imaginei que a Mobility & Energy Harris Group, o império jovem e promissor que acabou de licenciar a minha patente, pertencia justamente a ele.

Se eu soubesse... Deus, se eu soubesse que o dono desta multinacional era o homem que partiu meu coração, eu teria pensado mil vezes antes de aceitar o convite. Ou talvez não. Porque a minha vida hoje não gira em torno das minhas mágoas. Não existe mais espaço para o orgulho de uma garota ingênua.

Agora existem Zara e Owen.

Meus filhos. Os gêmeos de quatro anos que são o maior presente que Deus me deu e, ao mesmo tempo, o segredo mais valioso e perigoso que carrego no peito.

Um aperto gélido comprime minhas costelas. Agradeço em silêncio por eles estarem passando estas semanas de férias de verão na casa dos meus pais, no interior. Lá eles estão protegidos, correndo pelo quintal, longe do alcance de qualquer olhar curioso desta cidade. Porque, aconteça o que acontecer dentro deste prédio, Caleb jamais poderá descobrir que eles existem. Muito menos que carrega o próprio sangue nas veias daqueles dois garotos.

A imagem da entrada do edifício vem à minha mente como um aviso do destino. Minutos antes de subir para esta reunião, esbarrei com Lívia no saguão principal. Ela passou por mim exalando arrogância, disparando olhares tortos enquanto falava alto ao celular sobre compromissos fúteis. Aquele encontro rápido foi o universo me lembrando exatamente de onde eu saí e do perigo que me cerca. Não posso me dar ao luxo de fraquejar.

— Então vocês realmente já se conheciam? — a voz de Andrew Collins rompe o silêncio tenso, trazendo-me de volta à realidade da sala de conferências.

Caleb responde antes que eu consiga ajustar minha postura, a voz soando grave, quase contida:

— Sim. Nós fomos amigos na adolescência.

Amigos. A palavra soa como um eco distante e causa uma pontada quase imperceptível no meu peito. Houve um tempo em que aquela amizade era o meu bem mais precioso, mas a garota apaixonada que aceitava migalhas morreu há muito tempo. A maternidade e as dores da vida me reconstruíram. Hoje, minhas prioridades têm nome, sobrenome e sorrisos banguelas. Não sobrou nada aqui dentro para alimentar sentimentos enterrados há meia década.

Ergo o queixo, ajustando os óculos sobre o nariz e encarando o homem sentado na cabeceira da mesa com uma frieza cirúrgica.

— Para mim também foi uma surpresa, senhor Wilson — declaro, marcando a distância com a escolha exata do sobrenome que aprendi a associar a ele no passado. — Com a licença dos senhores, posso dar início à apresentação do meu projeto?

Caleb me observa em silêncio. Seus olhos escuros parecem carregar um oceano de perguntas, mas ele apenas faz um gesto afirmativo com a cabeça.

— Claro. Fique à vontade, senhorita Smith.

Caminho até o painel central, conecto meu notebook ao sistema da sala e vejo a interface do meu software preencher a tela gigante de projeção. Respiro fundo e sinto o nervosismo evaporar. O terreno profissional é o meu porto seguro; os dados e a lógica não mentem, não magoam e não fazem promessas vazias.

— Bom dia a todos — começo, minha voz projetando-se com firmeza pela sala. — Antes de demonstrar a arquitetura do sistema, precisamos entender o gargalo real que ele foi projetado para resolver. Durante meu período de pesquisa e estágio, analisei que grandes corporações não perdem margem de lucro por conta de grandes desastres pontuais, mas sim pelo sangramento invisível de pequenas ineficiências diárias espalhadas por diferentes setores.

Avanço o slide, exibindo um mapa operacional dinâmico.

— A diretoria financeira pode apresentar excelentes métricas. O setor de projetos e logística pode ter controles rígidos. O RH pode operar com alto desempenho. No entanto, essas áreas raramente cruzam inteligência estratégica em tempo real. O software que desenvolvi atua como uma malha centralizadora. Ele monitora o fluxo de insumos, prevê oscilações operacionais e sugere redistribuição de investimentos antes que o prejuízo aconteça.

Olho de relance para a mesa. Não posso deixar de reconhecer a perspicácia de Caleb. Ele sempre foi um homem focado, obstinado e extremamente trabalhador. Sei do esforço colossal que ele empenhou para erguer esse império do zero e transformá-lo em uma potência do Michigan. Com a força, a garra e a visão que ele possui, este projeto é a peça de engrenagem que faltava para blindar suas operações e alavancar a expansão internacional da companhia.

— Além da otimização de custos — continuo, apontando para o gráfico seguinte —, o ponto focal da tecnologia é a segurança e a escalabilidade. Desenvolvi um protocolo de criptografia distribuída em múltiplas camadas. Nenhuma informação vital da companhia permanece armazenada em um único servidor. Isso reduz drasticamente o risco de espionagem industrial, sequestro de dados ou vazamentos operacionais durante a expansão para outros países. O sistema cresce junto com a empresa, adaptando-se a novas filiais sem a necessidade de reestruturação do código-fonte.

À medida que detalho os módulos de proteção e o retorno sobre o investimento estimado para os próximos três anos, percebo os diretores se inclinarem sobre a mesa. Alguns fazem anotações ávidas; outros trocam acenos impressionados.

Quando concluo a demonstração e desligo o apontador laser, um silêncio respeitoso paira no ar por dois segundos... antes de ser quebrado por uma salva de aplausos entusiasmados vinda de toda a diretoria.

— Excelente, senhorita Smith! Simplesmente brilhante — elogia Andrew, sorrindo abertamente.

Agradeço com uma leve inclinação de cabeça, mantendo a postura impecável. É quando escuto o ruído abafado do notebook de Caleb sendo fechado.

A sala volta a se calar. Ele entrelaça os dedos sobre a mesa polida, encarando-me não mais como o garoto do passado, mas como o CEO avaliando o ativo mais valioso que acabou de incorporar à sua folha de pagamento.

— Posso fazer uma pergunta, senhorita Smith? — a voz dele ressoa, firme e avaliativa.

— Claro, senhor Wilson.

— Como uma jovem de vinte e três anos consegue concluir a graduação com distinção, engatar uma pós-graduação e ainda estruturar um projeto de inteligência corporativa desta magnitude em apenas cinco anos?

A pergunta carrega uma camada sutil de curiosidade pessoal disfarçada de questionamento técnico. Ele quer entender o que aconteceu com a minha vida naquele hiato. Olho diretamente nos seus olhos, sem piscar ou demonstrar qualquer hesitação.

— Eu sempre fui uma pessoa extremamente focada nos meus objetivos acadêmicos — respondo com serenidade. — Minha mente funciona num ritmo diferente da maioria das pessoas. Fui diagnosticada com TDAH ainda na juventude.

Vejo uma leve elevação nas sobrancelhas de alguns executivos, mas continuo com um sorriso discreto e seguro:

— Ao contrário do senso comum, o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade não é uma limitação quando compreendido. No meu caso, ele se traduz em um hiperfoco seletivo. Quando me deparo com um problema complexo que desperta meu interesse, consigo imergir nele por dias a fio, ignorando ruídos externos. Sou uma pessoa reservada. Gosto do meu próprio mundo, de criar, pesquisar e desenvolver soluções. Não tenho tempo nem interesse para desperdiçar energia com amizades superficiais ou trivialidades da vida.

Sinto a alfinetada atingir o alvo quando vejo o olhar de Caleb fraquejar por uma fração de segundo.

— Este projeto foi a minha tese de conclusão de curso, aprovada com louvor pela banca — prossigo, mantendo o tom estritamente corporativo. — Após o término do estágio, fui recomendada diretamente pelo reitor da universidade, que apontou a Mobility & Energy Harris Group como uma instituição sólida e aberta a jovens talentos. A sua diretoria confiou no meu potencial e licenciou meu trabalho.

Ajusto a pasta sob o braço, encarando-o com toda a determinação de uma mulher que não deve nada a ninguém.

— O senhor pode ter certeza absoluta de uma coisa, senhor Wilson: estou aqui para trabalhar, agregar valor e somar ao crescimento desta empresa. Nunca para dividir ou criar problemas.

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