02 — CHOQUE

AURORA

Perambulei por dias, atravessando cidades que mal registrei na memória, como se cada quilômetro percorrido fosse apenas uma tentativa de colocar distância suficiente entre mim e tudo o que eu deixei para trás.

Não esperava muito desse lugar, mas, ainda assim, precisava acreditar que era longe o bastante.

Pela primeira vez em muito tempo, consegui respirar sem sentir o peso das correntes invisíveis que me prendiam ao passado. Eu havia quebrado meu juramento àquele alfa maldito — e o eco daquela decisão ainda reverberava dentro de mim.

Não permitiria que ninguém — nem mesmo ele — me fizesse sentir pequena outra vez. Agora, se fosse para cair, eu cairia pelas minhas próprias escolhas.

Minha loba permanecia em silêncio, atenta, como se ainda testasse aquela liberdade recém-conquistada. Eu podia senti-la observando, cautelosa. Dei-lhe espaço.

Quando estivesse pronta, ela viria — eu sentia isso.

Caminhei pela cidade até parar diante de um restaurante bastante movimentado. Não era o tipo de lugar que chamaria atenção — e talvez por isso mesmo tenha me parecido seguro.

Assim que atravessei a porta, algo naquele espaço me envolveu com uma estranha sensação de acolhimento. Eu tinha pouco dinheiro, mas olhar o cardápio não custava nada.

O lugar estava cheio, não percebi nada de incomum até erguer o olhar para fazer o pedido e me deparar com o homem atrás do balcão.

A presença dele não era apenas marcante — era dominante, quase magnética. Os braços fortes revelavam músculos definidos, o rosto de traços firmes, marcado por uma mandíbula delineada e uma barba rala lhe conferiam um ar perigosamente selvagem. Mas foram os olhos que realmente me atingiram.

Por um instante, senti-me exposta sob aquele olhar, como se ele enxergasse além da superfície que eu cuidadosamente construíra.

Algo nele me intimidava — e não era apenas a aparência. Era a energia. Uma força contida que vibrava entre nós.

E então o olhar dele mudou.

Foi sutil, mas inconfundível.

Ele também era um lobo.

O reconhecimento atravessou minha consciência como um raio silencioso. Sempre mantive distância dos meus iguais; cruzar com outro lobo era a última coisa que eu esperava, ainda mais naquele lugar.

Minha loba, que até então permanecia cativa, despertou.

O cheiro que vinha dele — amadeirado, quente, profundamente inebriante — atravessou minhas defesas e a puxou das sombras. Senti-a emergir com intensidade renovada, como se tivesse encontrado algo que não imaginava.

Meu coração disparou em um ritmo descompassado, e um arrepio percorreu minha espinha quando o olhar dele se fixou em mim com intensidade quase predatória.

Quando a garçonete — que logo percebi também ser uma loba — se aproximou para me atender, o momento se fragmentou. O feitiço foi interrompido, mas a tensão permaneceu, densa e palpável.

Sentia os olhos dele sobre mim enquanto me dirigia à mesa. Por um instante, pensei em sair do restaurante. Levantar, atravessar a porta e desaparecer antes que qualquer coisa fugisse do meu controle.

Mas eu sabia que fazer isso agora despertaria suspeitas. Se eu fosse embora daquela forma, não seria apenas o meu passado que poderia me alcançar… outros iguais também.

Esforcei-me para ignorá-lo, embora minha loba se agitasse inquieta, arranhando as paredes com insistência crescente. Ela queria controle, implorava por ele com urgência quase desesperada.

Foi então que sua voz ecoou em minha mente, clara e possessiva, impossível de ignorar.

“Meu”

Meu corpo enrijeceu.

Não… não podia ser.

Ela estava se referindo a ele? Aquilo não fazia sentido. Eu havia fugido de uma prisão sufocante para cair em outra?

— Você está enganada… isso não pode ser verdade.

Quando ele se aproximou da mesa com o meu pedido, o ar pareceu rarefeito. Uma parte de mim — frágil e imprudente — desejava que ele dissesse algo que desse sentido ao turbilhão que me consumia.

Mas seu rosto estava fechado, sério demais. Os olhos, duros. Não havia suavidade em sua postura.

— Quem é você? — perguntou, direto.

Um prato foi colocado diante de mim antes dele sentar-se à minha frente, sem pedir permissão.

A frieza na voz atingiu-me como um balde de água gelada. Por um segundo, vi em sua expressão traços que me lembraram Victor — a mesma postura autoritária, o mesmo tom que exigia respostas.

— Desculpe? — questionei, mantendo o queixo erguido.

— Estou perguntando quem você é… e imagino que já tenha percebido ao que me refiro — disse ele, mais ríspido.

— Não sabia que, para comer aqui, eu precisaria me identificar — retruquei, recusando-me a baixar a cabeça para esse idiota.

A garçonete interveio com um sorriso conciliador.

— Perdoe meu patrão, lindinha. Você não precisa se identificar para comer aqui. Acho que ele só ficou surpreso… não recebemos muitos clientes como você.

Havia sinceridade em seu olhar, uma gentileza que contrastava com a tensão dele.

— Não quero causar problemas — respondi, escolhendo as palavras com cuidado. — Não sabia que existiam… pessoas iguais a mim por aqui.

Ele não pareceu convencido.

— Está só de passagem ou pretende ficar? — insistiu.

— Isso não é da sua conta — respondi, sustentando seu olhar com firmeza.

— Quando você está em meu território, é da minha conta, sim — declarou, e algo na forma como disse aquilo fez minha respiração falhar por um instante.

Território.

A palavra não soou apenas como autoridade. Soou como reivindicação.

— Me chamo Aurora — disse, estendendo a mão, tentando trazer civilidade ao que ameaçava se tornar confronto.

Ele não a apertou.

A recusa foi deliberada, e por um segundo minha mão permaneceu suspensa no ar, exposta. Suelen — como descobri em seguida — apertou-a em seu lugar, oferecendo-me um sorriso acolhedor.

— E esse idiota aqui é o Killiam.

O nome dele se fixou em minha mente.

Enquanto conversávamos, senti minha loba inquieta, atraída por ele com uma determinação que me apavorava.

Após sair do restaurante, caminhei pela cidade tentando organizar os pensamentos. Mas, por mais que eu tentasse me concentrar no que via, minha mente sempre retornava ao homem de olhar intenso.

Eu tentei negar.

Minha loba não.

Ela o havia escolhido.

Quando a noite já avançava, deixei que ela assumisse o controle. Sabíamos que não podíamos ultrapassar os limites territoriais, mas algo dentro dela parecia determinado.

A transformação veio incompleta.

Não compreendi inicialmente, até que me vi diante do mesmo restaurante.

“Você não pode fazer isso conosco…”, tentei argumentar.

Ela ignorou.

O restaurante estava fechado, as luzes apagadas e por um breve momento acreditei que aquilo bastaria para fazê-la recuar.

Então ouvi o clique suave da fechadura. A porta se abriu antes que eu pudesse retomar o controle. E ele estava ali. O olhar intenso, desconfiado — mas agora carregado por algo mais profundo.

Reconhecimento.

Como se o chamado que queimava dentro de mim também tivesse encontrado eco nele.

Minha loba avançou antes que eu pudesse pensar.

Quando percebi, já estava diante dele — perto demais. O calor do seu corpo invadia meu espaço, dominava o ar entre nós. Não houve aviso. Nenhuma palavra.

Ela simplesmente o beijou.

E eu fiquei suspensa entre instinto e escolha, sem saber onde terminava um e começava o outro. O gosto dele me atingiu como um choque quente e real.

Ele interrompeu o beijo apenas o suficiente para me afastar um centímetro — um único centímetro — antes de segurar meu braço e me puxar.

Atravessamos a entrada do restaurante. A porta se fechou atrás de mim com um estalo abafado, e minhas costas encontraram a madeira fria.

Ele me prensou ali.

Sem qualquer anúncio voltamos a nos beijar e nossos corpos se encontraram com uma precisão assustadora, como se tivessem sido feitos para aquele encaixe.

Sua língua invadiu minha boca como uma promessa — quente, dominadora, deliciosa. Eu não resisti. Entreguei-me com a mesma intensidade, com a mesma necessidade.

Seu corpo era sólido, quente, uma parede de músculos que me envolvia completamente, mas mesmo na força havia controle.

Seus lábios abandonaram os meus e deslizaram lentamente pelo meu queixo até meu pescoço. O toque era fogo. Cada respiração dele incendiava minha pele.

Suas mãos subiram sob o tecido da minha blusa, explorando com intensidade. Quando alcançou meus seios, um gemido involuntário escapou da minha garganta, acompanhado por um rosnado baixo vindo dele.

Estávamos perdidos um no outro.

Killiam se afastou por um instante, me encarando como se enxergasse além da superfície. Seu olhar não pedia permissão — ele atravessava, sentia, reivindicava.

A química que existia entre nós não apenas despertou — ela explodiu, viva, crua, impossível de conter.

Eu podia sentir sua excitação dura contra meu abdômen, e sabia, sem nenhuma dúvida, que ele podia farejar a minha. Porque meu corpo gritava por ele.

Sua boca voltou ao meu pescoço, havia fome naquele gesto — um convite silencioso que arrepiou minha pele.

Quando ele segurou a barra da minha blusa e a puxou para cima, senti o ar sumir dos meus pulmões.

Ele me olhou com um brilho dourado nos olhos, selvagem, quase feroz. Naquele instante, não era apenas o homem ali — era o lobo também.

— Minha — sua voz saiu rouca, grave, carregada de instinto, fazendo meu corpo inteiro estremecer.

Ele segurou minha nuca e me puxou para um beijo.

Quando se afastou, virou-me com firmeza, pressionando meu corpo contra a madeira. Senti-o colar-se às minhas costas, o membro rígido roçando na curva da minha bunda, a urgência evidente em cada respiração.

Não havia hesitação. Havia necessidade. Um fogo que nos consumia por dentro — que não podia mais ser contido.

O short e a calcinha deslizaram pelas minhas pernas e caíram aos meus pés. Um arrepio percorreu minha espinha quando senti sua boca traçar um caminho lento e quente até a base da coluna.

Killiam agachou-se atrás de mim, segurando firme minha bunda, fazendo meu corpo se inclinar em direção a ele.

E então ele me tocou com devoção.

A língua dele era precisa, impiedosa, como se soubesse exatamente o que eu precisava. Cada movimento parecia calculado para me levar mais fundo naquela sensação desconhecida e avassaladora. Meu corpo reagia sem reservas, tremendo, rendido.

Gemi seu nome, sem vergonha. E, naquele instante, senti o que era ser verdadeiramente desejada.

A língua dele me levou ao ápice com uma facilidade quase cruel. Quando o prazer me atingiu, arqueei o corpo, chamando mais uma vez seu nome.

Seu lobo rosnou em puro deleite, satisfeito com minha rendição, sustentando-me enquanto minhas pernas mal conseguiam me manter de pé.

Killiam se levantou lentamente, colando-se a mim outra vez. Ele inalou profundamente o cheiro do meu cabelo, do meu suor, do nosso desejo misturado. Seu rosnado vibrou perto do meu ouvido.

Ele ainda não tinha terminado.

Sem tirar completamente a roupa, apenas o necessário, ele se encaixou em mim devagar, como se saboreasse cada centímetro daquela conexão. Suas mãos firmes mantinham-me entregue enquanto ele me tomava com uma lentidão provocante, quase reverente.

— Ki-Killiam… — gemi, ofegante, as mãos espalmadas na madeira da porta. — Mais rápido…

Um som grave escapou dele.

Os movimentos tornaram-se intensos, ritmados, profundos. Havia força, mas também domínio absoluto. Ele se colou às minhas costas, uma das mãos deslizou até meu ponto mais sensível, seus dedos movimentando-se em um vai e vem delirante.

Meu corpo reagiu — à beira de explodir outra vez.

Quando seus lábios alcançaram meu ombro, imaginei que ele me marcaria, e aquele pensamento me fez estremecer.

Eu estava perto. Perto demais de cair novamente.

Mas então… ele parou.

Retirou-se de mim por completo, deixando-me vazia, atordoada. Minha loba reagiu imediatamente, virando-se para ele. Eu tinha certeza de que meus olhos haviam mudado — algo que o fez me encarar, surpreso.

Ele se aproximou outra vez, os olhos ainda dourados, a boca parada a poucos centímetros da minha.

Minha loba reconheceu o lobo dele, e no instante seguinte, nossos lábios se encontraram com intensidade renovada.

Ele me ergueu com facilidade, e enlacei sua cintura com as pernas. O mundo ao redor desapareceu enquanto ele me tomava sem reservas.

Só percebi que havíamos nos movido quando senti algo macio sob minhas costas. Pisquei, confusa, encontrando-me deitada em uma cama — ele diante de mim, os olhos presos aos meus.

Killiam se despiu com uma lentidão calculada, como se quisesse que eu absorvesse cada segundo.

Abri as pernas em um convite silencioso. Ele se posicionou entre elas, e quando voltou a me tomar, foi como se estivesse reivindicando algo inevitável. 

Seus movimentos eram guiados por instinto e conexão. Cada gesto fazia meu coração disparar, enquanto minha loba respondia em perfeita sintonia com o dele.

O mundo reduziu-se ao ritmo dos nossos corpos, ao som das nossas respirações.

E quando o prazer me atingiu novamente, mais intenso que antes, perdi qualquer resquício de controle.

Sem compreender totalmente o que acontecia, minhas presas emergiram e se cravaram na junção entre o pescoço e ombro dele — marcando-o.

— Caralho! — grunhiu ele, a voz tomada por uma mistura de dor e êxtase.

E naquele instante, eu soube…

Eu não apenas o marquei.

Eu o reivindiquei.

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