Para se transformar em um diamante, um carvão tem que passar por um longo e demorado processo. Essa transformação demora alguns milhões de anos, é necessário que a pedra passe por uma pressão inimaginável e, após tudo isso, ela ainda precisa ser lapidada até ficar absolutamente perfeita. Assim era a minha vida desde que meu pai faleceu há quatro anos. Desde que ele se foi, toda a fortuna dele vem sendo gasta levianamente pela minha mãe e irmã, contanto que eu obtenha um casamento vantajoso que nos salve da falência. Desde que meu pai se foi, minha mãe me obrigou a deixar meus sonhos de lado para me tornar uma futura esposa perfeita, pois assim, quando chegasse a hora, ela me venderia como uma propriedade e manteria o estilo de vida extremamente caro que quase faliu meu pai diversas vezes enquanto ele era vivo. Eu costumava ser uma menina feliz, nunca precisei de muito para me contentar. Desde pequena, apesar de sempre ter tido de tudo, eu nunca me importei com bens materiais. Minha mãe sempre me comprou milhares de bonecas, mas nunca brincou comigo ou sequer demonstrou qualquer tipo de afeto. Já o meu pai, que me conhecia bem, sabia que para me fazer feliz bastava deixar eu montar nas costas dele como se ele fosse um cavalinho.
Eu olho para os corredores da mansão milionária onde moro, me perguntando por que a única pessoa que verdadeiramente me entendia tinha que partir tão cedo. Ele tinha apenas quarenta e seis anos quando me deixou sozinha, e apesar de todos ao meu redor parecerem não sentir falta dele, eu sentia isso todos os dias de uma forma desesperadora. Eu ainda sinto o perfume exageradamente forte dele pela casa, ainda ouço as nossas risadas quando ele me fazia cócegas e ainda como waffles todos os domingos, pois era o único dia em que ele sempre estava em casa no café da manhã e fazia os mais deliciosos waffles para mim. Todos dizem que eu já deveria ter superado, mas eu sinto como se quando meu pai se foi, ele tivesse levado todas as chances de eu ser feliz junto com ele, pois agora eu estava nas mãos da minha mãe, que somente se importava em manter seu status social e suas contas bancárias cheias. Agora, estava com uma equipe de cabeleireiros, manicures e maquiadoras tentando criar um visual perfeito para que eu fosse exibida como uma boneca de porcelana, mas as lágrimas não deixavam meus olhos nem por um minuto, fazendo com que o trabalho da maquiadora fosse cada vez mais difícil.
"Srta. Roux, você precisa parar de chorar, pois não estou conseguindo fazer sua maquiagem", disse a maquiadora em um tom preocupado, enquanto eu tentava fechar os olhos na esperança de que tudo pudesse ser apenas um pesadelo e que a qualquer momento eu fosse acordar.
"Desculpe, eu... Eu vou tentar me controlar", respondi, sabendo que isso era algo praticamente impossível diante das atuais circunstâncias. Vi minha mãe na cadeira ao lado tingindo seus fios ruivos de loiro, pois ela sempre dizia que vermelho era uma cor vulgar. Eu esperava que ela não fizesse nada além de torcer o nariz, mas não foi isso que aconteceu, e logo seu tom de voz cheio de deboche se fez presente.
"Eu não sei que tantas lágrimas são essas, parece até que você está se preparando para um funeral e não para conhecer o seu noivo", disse ela, enquanto eu fechava os olhos, deixando mais uma lágrima rolar e meu tom de voz sair melancólico.
"Pois é assim que eu me sinto. Como se hoje fosse o funeral da minha dignidade, pois estou sendo vendida", respondi, deixando escapar minha angústia. Quando a última palavra saiu da minha boca, vi ela se aproximar bruscamente da cadeira onde eu estava sentada, gritando com todos que estavam ali.
"Saiam! Me deixem sozinha com a minha filha!", ela gritou, e eu me encolhi na cadeira por reflexo, mas não tinha mais medo dela, não havia mais nada que ela não pudesse me tirar. Esperei os gritos dela de cabeça abaixada, mas eles não vieram. Quando a encarei, ela estava com os olhos cheios d'água, mas seu rosto não tinha nenhuma expressão, então eu sabia que elas eram falsas.
"Você quer nos ver mendigando pelas ruas? Dormindo embaixo de pontes? Quer ver o futuro da pequena Margareth sendo arruinado pela ausência de uma boa educação?", disse ela, e eu ouvi sua voz agora trêmula.
"Eu juro que não te entendo. Eu consegui um bom casamento para você. Um noivo que te cobre de joias, bonito, educado, de boa família, que vai te dar um bom sobrenome!", continuou, enquanto eu tentava absorver suas palavras.
"Mas eu nunca o vi!", exclamei, demonstrando minha confusão.
"Exatamente, minha filha. Se você nunca viu ele e ele já te mandou lindos conjuntos de diamantes, imagine quando estiverem juntos? Lily, por cada país que ele passou, ele comprou uma joia e enviou para você. Ele já te adora e você pode não se lembrar dele, mas ele se lembra de você", explicou minha mãe, tentando me convencer.
"Mas eu não me importo com joias. Elas são pesadas e eu me sinto sufocada as usando, como se fosse uma coleira", disse, passando o dedo na gargantilha de diamantes azuis em meu pescoço. Minha mãe sorriu, limpando as lágrimas.
"Pois, seriam as coleiras mais caras do mundo", respondeu, com um sorriso satisfeito.