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Capítulo 5: O Primeiro Trato

Valeria se trancou no quarto e passou o resto do dia inteiro olhando a cidade pela enorme janela panorâmica. O sol já havia descido no horizonte, tingindo o céu de tons intensos de laranja, vermelho e roxo. Era um espetáculo lindo e melancólico — como assistir ao pôr do sol de dentro de uma jaula de luxo.

Não havia tocado na comida que levaram ao meio-dia. Mal bebera água. Sua mente girava sem parar em torno de tudo o que descobrira nas últimas horas.

Raúl era primo de Alejandro.

Tudo não passara de uma armadilha cruel e bem elaborada.

Cinco anos inteiros jogados fora por causa de mentiras.

Três batidas suaves soaram na porta antes que ela se abrisse sem esperar resposta. Era a mesma senhora que trouxera o café da manhã. Desta vez carregava uma elegante caixa preta com um laço dourado sofisticado.

— O senhor Montenegro pediu que eu entregasse isso à senhorita — disse a mulher, colocando a caixa sobre a cama com cuidado. — O jantar será servido em uma hora no comedor principal. Ele espera que a senhorita compareça.

Valeria olhou para a caixa com profunda desconfiança.

— E se eu não quiser descer?

A mulher lhe ofereceu um sorriso triste, quase compassivo.

— Eu recomendo fortemente que desça, senhorita. Não é uma boa ideia deixar o senhor Montenegro irritado.

Assim que a mulher saiu, Valeria se aproximou da cama com as mãos trêmulas e abriu a caixa. Dentro havia um deslumbrante vestido vermelho escuro, longo até o chão, com um decote discreto mas elegante que valorizava as curvas. Ao lado do vestido, um par de saltos altos pretos e um bilhete escrito à mão com letra firme e masculina.

“Quero ver você com isso esta noite. - A.”

Valeria amassou o bilhete com raiva e o jogou no chão. Não tinha a menor intenção de vestir aquele vestido. Não ia se arrumar para ele como se fosse uma boneca.

Mas quando a hora do jantar chegou, a curiosidade misturada com a fome foram mais fortes que seu orgulho ferido.

Ela vestiu o vestido. Caía perfeitamente em seu corpo, como se tivesse sido feito sob medida. Olhou-se no espelho e quase não se reconheceu. Parecia uma mulher completamente diferente daquela que chegara molhada de chuva no dia anterior — mais sofisticada, mais perigosa, mais vulnerável.

Quando saiu do quarto, Alejandro já a esperava no comedor principal. Estava de pé junto à mesa lindamente arrumada, impecável em um terno negro com camisa branca aberta no colarinho. Ele a percorreu de cima a baixo com um olhar que ela não conseguiu decifrar completamente — desejo, satisfação, possessividade.

— Você está… impressionante — disse ele com a voz rouca e grave.

Valeria não respondeu. Sentou-se no lugar que ele indicou em silêncio absoluto.

O jantar foi servido em uma atmosfera pesada. Filé suculento, salada fresca e um vinho tinto escolhido pessoalmente por Alejandro. Valeria mal tocou na comida.

— Você quase não comeu nada o dia inteiro — observou ele, sem tirar os olhos dela.

— Não estou com fome.

— Você está mentindo.

Valeria largou os talheres com força sobre a mesa.

— Vai me controlar também no que eu como?

Alejandro tomou um gole lento de seu vinho antes de responder, mantendo a calma.

— Vou cuidar de você em todos os aspectos. Inclusive nisso.

Valeria o olhou com pura frustração.

— Por que você está fazendo isso? Por que não me deixa ir embora? Agora você sabe a verdade. Sabe que Raúl nos enganou dos dois. Não é suficiente?

Alejandro colocou a taça sobre a mesa com cuidado e a encarou diretamente nos olhos.

— Porque esses cinco anos sem você foram um verdadeiro inferno, Valeria. Eu acordava todos os dias me perguntando onde você estava, se estava viva, se estava sofrendo, se havia outro homem em sua vida. Quando te vi entrar no meu escritório ontem… foi como se eu finalmente voltasse a respirar depois de anos sufocado.

Valeria sentiu um nó apertado se formar em sua garganta.

— Isso não justifica você me manter prisioneira aqui.

— Talvez não justifique — admitiu ele com sinceridade. — Mas eu não vou correr o risco de te perder novamente.

Um longo e denso silêncio caiu entre eles. Apenas o som distante da cidade chegava até o comedor.

— Quero fazer um trato com você — disse Alejandro de repente, mudando o tom.

Valeria ergueu uma sobrancelha, desconfiada.

— Que tipo de trato?

— Vou te dar mais liberdade dentro do penthouse. Você poderá se mover livremente pela maior parte das áreas. Em troca, quero que pare de lutar contra mim o tempo todo. Pelo menos… tente.

Valeria o encarou com desconfiança.

— E se eu não aceitar?

— Então você continuará praticamente trancada no seu quarto a maior parte do tempo.

Ela ficou pensando por vários minutos, pesando as opções. Finalmente falou:

— Quero uma condição adicional.

Alejandro inclinou a cabeça, curioso.

— Diga.

— Você não vai me tocar — declarou ela com firmeza. — A menos que eu permita.

Alejandro ficou em silêncio por um momento, observando-a com intensidade queimante. Um sorriso lento e perigoso curvou seus lábios.

— Essa condição… vai ser muito difícil de cumprir para você.

Valeria sentiu o coração acelerar.

— Aceita ou não? — insistiu ela.

Alejandro ergueu sua taça de vinho e brindou no ar.

— Aceito… por enquanto.

Tomou um gole sem desviar o olhar do dela nem por um segundo.

Valeria soube naquele exato momento que acabara de fazer um pacto com o diabo.

E que esse diabo tinha toda a intenção de quebrar sua promessa na primeira oportunidade.

Alejandro deixou a taça na mesa e recostou-se na cadeira, observando-a com aquele olhar que parecia capaz de ler sua alma.

— Me diga uma coisa, Valeria — falou ele com tom calmo. — Se você realmente me odeia tanto quanto diz… por que seu pulso acelera e sua respiração muda cada vez que eu me aproximo?

Valeria sentiu o rosto queimar de vergonha. Desviou o olhar e começou a mexer a comida de um lado para o outro no prato.

— Não sei do que você está falando.

— Sabe sim — respondeu ele sem hesitar. — Seu corpo sempre te traiu. Sempre.

Ele se levantou da cadeira e caminhou lentamente ao redor da mesa até parar atrás dela. Valeria ficou tensa, mas não se moveu. Sentiu as mãos grandes e quentes de Alejandro pousarem suavemente sobre seus ombros nus.

— Relaxa — sussurrou ele, inclinando-se para falar perto de seu ouvido. — Estou apenas testando os limites do nosso trato.

Valeria fechou os olhos com força. O calor das mãos dele e o aroma inebriante de sua colônia a afetavam muito mais do que queria admitir.

— Você disse que não ia me tocar — lembrou ela com voz trêmula.

— Estou tocando seus ombros, não seu corpo — respondeu ele com voz baixa e sedutora. — Tecnicamente ainda estou cumprindo o trato.

Seus polegares começaram a fazer movimentos lentos e circulares sobre a pele dela. Valeria precisou morder o lábio inferior com força para não soltar um suspiro involuntário.

— Pare — pediu ela, embora sua voz saísse mais fraca do que pretendia.

Alejandro se inclinou ainda mais, até seus lábios quase roçarem o lóbulo da orelha dela.

— Tem certeza de que quer que eu pare? — perguntou ele em um sussurro rouco. — Porque sua pele se arrepia toda vez que eu te toco.

Valeria se levantou bruscamente da cadeira, rompendo o contato. Virou-se para encará-lo, respirando agitada.

— Isso não é um jogo, Alejandro. Você não pode me manipular assim.

Ele a olhou com uma mistura perigosa de desejo e algo muito mais escuro.

— Eu não estou jogando. Estou sendo completamente honesto. Você pode continuar mentindo para si mesma o quanto quiser… mas eu não vou fazer o mesmo.

Valeria deu um passo atrás, tentando colocar distância entre eles.

— Eu preciso de tempo. Você não pode esperar que, depois de cinco anos acreditando que você me traiu, eu simplesmente caia rendida aos seus pés como se nada tivesse acontecido.

Alejandro avançou, encurtando a distância que ela tentara criar.

— Eu não espero que você caia rendida — disse ele com seriedade. — Eu espero que você lute. Espero que me odeie. Espero que me desafie todos os dias. Porque quanto mais você lutar… mais doce vai ser o momento em que finalmente se render.

Valeria bateu as costas contra a parede. Não havia mais espaço para recuar.

Alejandro colocou uma mão na parede ao lado da cabeça dela e, com a outra, ergueu suavemente seu queixo para que o olhasse.

— Eu sei que você ainda sente algo por mim — sussurrou ele. — Consigo ver nos seus olhos. Consigo sentir no jeito como seu corpo treme quando estou perto.

Valeria respirava com dificuldade. Seus olhos alternavam entre os olhos e os lábios dele.

— Não… — sussurrou ela fracamente.

Alejandro se aproximou ainda mais. Seus lábios estavam a milímetros dos dela.

— Diga que eu pare — pediu ele com voz rouca. — Diga e eu me afasto agora mesmo.

Valeria abriu a boca para falar, mas as palavras não saíam. Sua mente e seu corpo travavam uma guerra feroz.

Nesse exato momento, o telefone de Alejandro começou a tocar. Ele fechou os olhos com evidente frustração e encostou sua testa na dela por dois segundos longos e carregados.

Depois se afastou lentamente, com visível esforço.

— Esta conversa ainda não terminou — disse ele com voz escura enquanto pegava o telefone. — Você tem uma semana para se adaptar, Valeria. Depois disso… as regras mudam.

Ele atendeu a chamada com tom frio e saiu do comedor, deixando Valeria sozinha, tremendo contra a parede.

Ela levou uma mão ao peito, sentindo o coração bater descontrolado.

Estava em sérios problemas.

Problemas muito graves.

Porque embora sua mente continuasse gritando que o odiava… seu corpo acabara de traí-la da pior forma possível.

E Alejandro sabia disso perfeitamente.

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