Mundo ficciónIniciar sesiónNo dia em que meu marido morreu em um acidente, engoli de uma vez um frasco inteiro de remédios para dormir. Foi o melhor amigo dele quem arrombou a porta. Com os olhos vermelhos de desespero, ele me arrancou à força das garras da morte. — Nem que seja pelo Rick, você precisa continuar viva! Nos três anos seguintes, aquele homem que sempre brigava comigo passou até a controlar o próprio temperamento na minha frente. Se eu saísse apenas para jogar o lixo, ele fazia questão de me acompanhar. Aos poucos, comecei a acreditar que finalmente tinha deixado aquele pesadelo para trás. E acabei me apaixonando por ele. No segundo ano em que estávamos juntos, descobri que estava grávida. Com o teste de gravidez nas mãos e as duas linhas perfeitamente nítidas, decidi preparar uma surpresa. Mas, ao abrir uma das gavetas dele, encontrei, escondida bem no fundo, uma certidão de casamento em inglês. O casamento havia sido registrado na Austrália. Cinco anos antes. O nome do noivo era Henrique, meu ex-marido. O homem que, durante todos aqueles anos, todos haviam me feito acreditar que estava morto. E a noiva... Era Carolina, minha melhor amiga. A mesma mulher que sempre jurara que nunca se casaria. Meu corpo inteiro esfriou quando voltei a olhar para a data do registro. Era exatamente o dia em que eu havia engolido aquele frasco de comprimidos e tentado tirar a própria vida. Ao lado da certidão, havia um celular. Na tela, ainda estava aberta uma mensagem que Carolina enviara no dia anterior: [Graças a você ter ficado de olho nela durante esses cinco anos, ela nunca desconfiou de nada. Rick e eu estamos muito felizes agora.] Apertei o teste de gravidez com tanta força que meus dedos começaram a doer. Um frio cortante se espalhou pelo meu corpo. E, enfim, tudo fez sentido. No fim, aquilo que eu acreditava ser minha salvação não passava de uma farsa que eles sustentaram durante cinco anos para me manter enganada.
Leer másNo fim, Carolina só estava arrependida, sofrendo e procurando alguém em quem despejar tudo aquilo.Mas por que esse alguém tinha que ser eu?Minha mãe ainda me ligava de vez em quando.Ela tinha envelhecido muito em pouco tempo. Até sua maneira de falar parecia mais lenta do que antes.Às vezes, bastava eu atender para ela começar a chorar.Dizia que tinha sido tola.Que nunca deveria ter ajudado a esconder a verdade de mim.Que não deveria ter impedido tantas vezes que eu descobrisse o que realmente estava acontecendo.Em outras ligações, contava que nenhum deles estava bem, quase como se quisesse me provar que, no fim, todos tinham recebido o que mereciam.Mas, quanto mais eu ouvia, mais distante aquilo tudo parecia.— Mãe.Certa vez, interrompi-a no meio de uma ligação.— Para de falar deles comigo.Do outro lado da linha, veio um longo silêncio.Então ela perguntou, quase num sussurro:— Você... Também não quer mais saber de mim?Eu estava na cozinha, olhando a sopa ferver na panel
Depois de responder, ele hesitou por um instante e acrescentou, em voz baixa:— Eu estava passando por aqui.Olhei para ele, mas não o confrontei.Coincidências demais deixavam de ser coincidência.Se estivesse mesmo só de passagem, Cristiano não teria ficado parado ali, esperando.— Você queria alguma coisa?Minha voz saiu tranquila, educada, distante.Aquilo pareceu atingi-lo mais do que qualquer acusação. Cristiano demorou alguns segundos para responder.— Queria ver você.O vento vindo do mar bagunçou seus cabelos.Ele não se aproximou.Eu também permaneci onde estava.Poucos passos nos separavam. Longe o bastante para manter aquela distância entre nós, perto o bastante para que cada um percebesse o quanto o outro havia mudado.— Como você tem passado?— Estou bem.Cristiano ficou quieto.Talvez tivesse entendido que eu não estava fingindo força.Não queria provocá-lo nem fazê-lo sofrer.Eu estava, de fato, melhor.Pouco a pouco, tinha reconstruído minha vida.E aquela vida já não
Depois que saí do hospital, não voltei para o apartamento onde morava antes.Aquele lugar me parecia contaminado por tudo o que eu queria esquecer.O sofá da sala tinha sido trocado por Cristiano.Houve uma época em que eu passava noites inteiras sem conseguir dormir, sentada até amanhecer com um cobertor nos braços. Preocupado que eu passasse frio, ele fez questão de comprar um sofá maior.Os pratos e talheres da cozinha tinham sido escolhidos por mim e Henrique logo depois do nosso casamento.Até as flores da varanda Carolina já tinha elogiado certa vez.Não havia um único canto daquela casa que não me lembrasse do absurdo que tinham sido aqueles cinco anos da minha vida.Pouco tempo depois, pedi demissão.Troquei de número, coloquei tudo o que precisava em duas malas e fui para o sul.Escolhi uma cidade pequena perto do mar. Não havia muita agitação, mas era tranquila, exatamente o que eu queria naquele momento.Aluguei uma casa minúscula.Um quarto, uma varanda e uma cozinha estrei
Quando a enfermeira entrou para fazer a ronda, nem se deu ao trabalho de esconder a irritação. Com a expressão fechada, mandou todo mundo sair do quarto.Mesmo depois que a porta se fechou, ainda ouvi vozes abafadas discutindo no corredor.Não me importei em escutar.Só quando o céu começou a clarear entendi, enfim, uma coisa.Eu não queria mais nenhum dos três na minha vida.No dia em que recebi alta, o tempo estava bonito.Guardei a última peça de roupa na bolsa, fechei o zíper e me preparei para ir embora.Assim que abri a porta do quarto, Cristiano se levantou.Ele havia passado os últimos dias ali fora. Uma das enfermeiras chegou a comentar que ele praticamente não tinha dormido.Não senti nada ao saber disso.Há arrependimentos que chegam tarde demais. E, quando chegam, já não servem para consertar coisa alguma. Só causam repulsa.Cristiano estendeu a mão para pegar minha bolsa, mas hesitou antes de tocá-la e recolheu o braço.— O carro está lá embaixo.— Eu vou sozinha.— O médi
Último capítulo