Atendi.
Mal consegui dizer "alô" antes de Cristiano perguntar:
— Onde você está?
Encostei as costas na parede e soltei uma risada amarga.
— Vim conhecer a filha deles.
Do outro lado da linha, silêncio.
— Cristiano, responde. — Minha voz falhou. — Por que vocês mentiram para mim?!
Ele demorou alguns segundos para falar.
— Volta para casa primeiro.
— Casa? — Ri de novo, enquanto as lágrimas escorriam ainda mais depressa. — Que casa? Eu ainda tenho uma casa?
— Me diz onde você está. Eu vou te buscar.
— Não venha.
Apertei o celular até meus dedos começarem a tremer.
— Você também me achava uma idiota, não achava?
Minha garganta queimava.
— Toda vez que me via abraçada à foto do Henrique, chorando por ele... Devia me achar uma idiota. Tão fácil de enganar.
— Não.
— Então me responde uma coisa. Durante todos esses anos, você nunca pensou, nem uma única vez, em me contar a verdade?
Depois daquela pergunta, nem a respiração dele eu conseguia ouvir.
Esperei.
Esperei até sentir alguma coisa dentro de mim afundar pouco a pouco.
No fim, ele apenas murmurou:
— Ju...
De novo aquilo.
Nenhuma explicação.
Nenhuma confissão.
Nem sequer uma tentativa de negar.
Como se bastasse falar comigo naquele tom manso para que, mais cedo ou mais tarde, eu acabasse voltando.
— Amanhã é o mesversário de três meses do bebê. Quando você voltar, eu explico tudo, está bem?
Foi o bastante.
O último vestígio de afeto que eu ainda guardava por ele se apagou.
Desliguei chorando.
Arranquei o chip do celular e o joguei em um bueiro em frente ao prédio.
Eu não voltaria.
Nunca mais.
Se voltasse, bastaria que eles me cercassem outra vez com suas explicações, seus cuidados e suas mentiras para me arrastar de volta àquele pesadelo.
Peguei um táxi e fui para um hotel.
Assim que entrei no quarto, meu estômago se revirou.
Antes que eu pudesse reagir, uma dor violenta atravessou meu ventre.
Foi tão intensa que um suor frio cobriu minha testa.
Apoiei uma das mãos na parede, mal conseguindo permanecer de pé, e levei a outra ao baixo-ventre por instinto.
Então me lembrei do teste de gravidez que havia jogado no lixo.
Baixei os olhos.
Uma mancha vermelho-escura começava a se espalhar pelo tecido da minha saia.
Minha mente ficou em branco.
Reuni o pouco de força que ainda tinha e consegui sair do quarto, me apoiando nas paredes pelo caminho.
Assim que me viu, a recepcionista empalideceu e correu para me segurar.
— Senhora, o que aconteceu?
Agarrei a mão dela.
Minha voz tremia tanto que mal consegui falar.
— Por favor... Chama uma ambulância.
Ela assentiu depressa e correu para o telefone.
Sentei-me perto da recepção, protegendo o ventre com as duas mãos enquanto as lágrimas caíam sem parar.
Aquele bebê tinha chegado à minha vida quando eu menos esperava.
E, se eu também o perdesse...
Eu já não sabia o que me restaria.
Quando me colocaram na maca, a enfermeira começou a fazer perguntas: de quantas semanas eu estava, quando o sangramento havia começado, se havia algum familiar que pudesse ser avisado.
Respondi como consegui, entre uma pontada e outra.
Até perceber que não havia ninguém para quem eu pudesse ligar.
Antes de me levarem para a emergência, a enfermeira perguntou outra vez:
— E o pai do bebê? No seu estado, precisamos entrar em contato com alguém para autorizar o procedimento.
Mesmo tremendo de dor, recitei o número que sabia de cor.
Achei que Cristiano viria.
Por mais que aqueles cinco anos tivessem sido construídos sobre uma mentira, eu ainda queria acreditar que alguma coisa entre nós tinha sido verdadeira.
Nem que fosse uma parte mínima.
A enfermeira fez a ligação e explicou rapidamente a situação.
Houve alguns segundos de silêncio do outro lado.
Então ouvi a voz dele.
— Isso é impossível.
A enfermeira franziu a testa.
— Senhor, a paciente está em estado grave e precisa ser submetida a uma cirurgia imediatamente. O senhor...
— Ela não pode estar grávida. Vocês não estão confundindo alguma coisa?
Eu estava deitada na maca.
O sangue já havia encharcado o lençol sob meu corpo.
A enfermeira aproximou o telefone do meu ouvido.
— Cris...
Foi tudo o que consegui dizer antes que a ligação fosse encerrada.
Fechei os olhos, deixando as lágrimas escorrerem em silêncio.
Então era isso.
Ele nem sequer queria acreditar.