O teste de gravidez escapou dos meus dedos e caiu no chão.
Fiquei um longo tempo encarando os dois nomes impressos na certidão de casamento.
Uma parte de mim ainda insistia em acreditar que eu tinha lido errado.
Mas bastou vasculhar o restante da gaveta para entender que a única coisa absurda naquela história era eu.
Exames pré-natais.
Recibos de um hospital infantil.
Comprovantes de compra de leite em pó e fraldas.
E algumas fotografias.
Em uma delas, Henrique segurava uma garotinha nos braços.
Carolina estava sentada ao lado dele no sofá, com a cabeça baixa e um sorriso doce nos lábios.
Ele estava vivo.
Sempre estivera.
E eu passara cinco anos de luto por um homem que nunca tinha morrido, sofrendo diante da fotografia dele como uma completa idiota.
Guardei tudo de volta na gaveta, item por item, exatamente como havia encontrado.
Depois fui até o banheiro, me abaixei, peguei aquele teste de gravidez ridículo do chão e o joguei no lixo.
Minutos antes, eu ainda imaginava a felicidade dele ao ver aquelas duas linhas.
Agora, elas não passavam de uma piada cruel.
Ouvi a porta de casa se abrir.
— Ju.
Cristiano estava na entrada, abaixado para trocar os sapatos, com uma sacola de papel na mão.
Assim que reparou no meu rosto, estendeu a mão para tocar minha testa.
Recuei por reflexo.
A mão dele parou no ar.
Por uma fração de segundo, Cristiano pareceu desconcertado.
— O que foi? Está se sentindo mal?
— Não.
Ele me observou por alguns segundos. Depois se abaixou, tirou um par de pantufas de algodão do armário e colocou diante dos meus pés.
— De novo sem meias.
Antes, bastava um gesto tão pequeno para derreter todas as minhas defesas.
Nos meus piores dias, fora Cristiano quem ficara ao meu lado, cuidando para que eu tomasse os remédios.
Era ele quem me acordava no meio da noite quando eu me debatia durante um pesadelo.
Durante anos, chamei aquilo de salvação.
Agora, parada diante dele, só conseguia sentir frio.
— Comprei croissants para você.
Cristiano colocou a sacola sobre a mesa.
— Você comentou anteontem que estava com vontade. Passei na padaria na volta do trabalho.
Ele sempre fora assim.
Eu mencionava alguma coisa de passagem, e ele se lembrava dias depois.
Às vezes, bastava me olhar para perceber que eu não estava bem.
Eu tinha visto aquilo como prova de que ele se importava comigo.
Por isso me agarrei à sensação de segurança que ele me dava, ao calor que encontrava ao lado dele, sem perceber que os sinais sempre estiveram diante de mim.
Espalhados por toda parte.
Cristiano entrou na cozinha para esquentar leite. Quando voltou, trouxe também minha caixa de remédios.
— Você tomou o remédio hoje?
— Não.
— Então toma agora, está bem?
Ele depositou os comprimidos na minha mão com a mesma calma de sempre.
Baixei os olhos para eles.
Meu estômago se contraiu.
Durante aqueles cinco anos, Cristiano sempre soubera quando minhas crises estavam começando, quando eu precisava voltar ao médico, quando minhas emoções estavam prestes a sair do controle.
Às vezes, parecia conhecer meu estado melhor do que eu mesma.
Sabia de cada fragilidade.
De cada medo.
De cada ponto em que eu podia desmoronar.
Levantei os olhos.
— Cristiano.
— Hm?
— Se um dia eu descobrisse que o Henrique nunca morreu... Você me acharia uma idiota?
Ele ficou imóvel por um segundo.
Quando falou, sua voz saiu mais baixa.
— Você entrou no meu escritório hoje?
Não respondi.
Cristiano pousou o copo sobre a mesa e foi até o escritório.
Pouco depois, ouvi o ruído de uma gaveta se abrindo.
Ele demorou alguns minutos para voltar.
Quando apareceu novamente, já não havia qualquer traço de tensão em seu rosto.
— Aqueles são documentos antigos. Não fique mexendo nas minhas coisas.
Fez uma pausa antes de continuar.
— Você não tem estado bem ultimamente. Quando fica assim, começa a pensar demais. Amanhã vou com você à consulta.
Quase ri.
Mesmo agora, depois de tudo, ele ainda pretendia continuar mentindo.
— Eu não vou.
Cristiano me encarou.
— Por quê?
— Porque não adianta. Eu não vou melhorar.
— Júlia!
Dessa vez, ele perdeu a paciência.
— Eu já disse que não vou.
O silêncio tomou conta da sala.
Por fim, Cristiano apenas assentiu.
— Tudo bem. Vamos comer primeiro.
No meio do jantar, o celular dele tocou.
Cristiano conferiu a tela, levantou-se e foi para a varanda. Antes de atender, fechou a porta de vidro atrás de si.
Em qualquer outro dia, eu nem teria reparado.
Naquela noite, porém, o gesto pareceu cravar alguma coisa dentro do meu peito.
A ligação foi curta.
Pouco depois, ele voltou à mesa.
— Amanhã à noite vou precisar sair.
— Para onde?
— Vou à casa de um amigo. O bebê dele está doente. Quero passar lá para ver como está.
Meus dedos se apertaram lentamente em torno do garfo.
Cristiano falou com tamanha naturalidade que poderia estar comentando qualquer banalidade do dia a dia.
Mas eu sabia muito bem de quem ele estava falando.
Era o bebê de Henrique e Carolina.
Ergui os olhos para ele.
Quando consegui falar, minha voz saiu tão baixa que quase vacilou.
— Cristiano... Você acha que o Rick pode não ter morrido?