Quando as luzes da sala de cirurgia se acenderam sobre mim, a dor já era tão forte que meu corpo começava a perder a sensibilidade.
A voz do médico chegava em fragmentos, cada vez mais distante.
Não sei quanto tempo se passou.
Minha visão foi escurecendo aos poucos, e tive a impressão de que algo dentro de mim também desaparecia.
Meu corpo parecia oco.
Como se estivessem arrancando de mim a última coisa à qual eu ainda conseguia me agarrar.
Só depois que o mesversário de três meses do bebê terminou e os convidados começaram a ir embora Cristiano percebeu que não conseguia falar comigo.
Foi então que se lembrou da ligação do hospital.
Ao retornar a chamada, foi atendido pela enfermeira, que não fez questão alguma de esconder a irritação.
— Ela acabou de passar por uma curetagem. Está muito debilitada e deveria permanecer em repouso, mas insistiu em ir embora. Tentamos convencê-la a ficar, mas ela se recusou.
Quando Cristiano chegou ao hospital, eu já estava saindo pela entrada da emergência.
O vento frio da noite atravessava minhas roupas, e eu tremia da cabeça aos pés.
Ele correu até mim e segurou meu braço.
— Júlia!
O puxão me fez perder o equilíbrio por um instante.
Virei o rosto e o encarei.
Os olhos dele estavam vermelhos.
Nunca o tinha visto daquele jeito.
Mas já não senti nada.
— Volta comigo.
A voz dele vacilou.
— Você acabou de sair de uma cirurgia. Não pode ir embora assim.
— Me solta.
Arranquei o braço de suas mãos.
O movimento foi brusco demais para o estado em que eu estava, e minhas pernas cederam.
Cristiano me segurou antes que eu caísse.
Olhei para ele.
— O bebê era seu, Cristiano.
Minha voz mal passava de um sussurro.
— Agora você acredita em mim?
Toda a cor desapareceu do rosto dele.
— Me responde uma coisa. Agora que o bebê morreu, vocês finalmente estão satisfeitos?
Sustentei seu olhar.
Minha própria voz me pareceu estranhamente fria.
— Você ficou cinco anos ao meu lado só para garantir que eu nunca descobrisse que eles estavam vivos. Agora eu já sei de tudo, e o bebê também se foi. Então pronto. Vocês podem respirar aliviados, não podem?
— Ju...
— Não me chama de Ju.
Afastei-o com um empurrão e me virei.
Eu mal havia dado alguns passos quando um carro freou bruscamente diante da emergência.
A porta se abriu, e Carolina saiu quase tropeçando.
Assim que me viu, começou a chorar.
Correu na minha direção, tentando alcançar minha mão.
— Ju! Ju, me escuta. Deixa eu explicar!
Antes que ela chegasse perto, Cristiano se colocou entre nós.
— Ju, se acalma!
Henrique também saiu do carro.
Puxou Carolina para trás de si e me encarou com frieza.
— Esconder isso de você durante cinco anos também não foi fácil para a gente. Não podíamos correr o risco de você ter outra recaída e precisar de tratamento de novo.
Os dois estavam diante de mim, bloqueando minha passagem.
Carolina chorava atrás deles, os ombros sacudidos pelos soluços.
— Ju, eu sei que errei. A culpa foi minha...
Ela mal conseguia falar.
— Eu não consigo viver sem o Rick. O Cris só quis me ajudar a ficar com ele.
Comecei a tremer ainda mais.
O curativo da agulha continuava preso ao dorso da minha mão, e a dor no baixo-ventre vinha em ondas, uma atrás da outra.
— Eu vou deixar vocês em paz. Então, por favor, parem de tentar me impedir de ir embora.
Carolina desabou em mais lágrimas.
Empurrou Henrique para o lado e tentou vir até mim.
— Ju, me xinga. Faz o que quiser comigo. Eu me ajoelho na sua frente...
E começou a se abaixar.
Henrique e Cristiano se moveram ao mesmo tempo para segurá-la.
Nesse momento, uma pontada feroz atravessou meu ventre.
Baixei os olhos.
Uma nova mancha de sangue se espalhava pela minha calça.
Um zumbido abafou todos os sons ao redor. As luzes da entrada do hospital se tornaram fortes demais, quase cegantes.
— Ju?
A voz de Cristiano parecia vir de muito longe.
Levantei os olhos.
Bastou ele olhar para mim para perceber que havia algo errado.
Cristiano correu em minha direção.
Achei que fosse cair no chão.
Antes que isso acontecesse, porém, alguém surgiu atrás de mim e me amparou com firmeza.
— Ju... Eu cheguei tarde demais.