Capítulo 2
Por um instante, Cristiano pareceu surpreso.

Mas não respondeu.

E eu não insisti.

Naquela noite, não consegui dormir.

Passei horas me revirando na cama, até que o céu começou a clarear.

Pouco a pouco, coisas que durante anos nunca tinham feito sentido começaram a se encaixar.

Quando Henrique sofreu o acidente, eu nem sequer pude vê-lo pela última vez.

Também não recebi nenhum pertence dele.

Nada.

Disseram apenas que o acidente havia sido grave demais e que o corpo não pudera ser identificado no local.

Quando recebi a notícia, desmaiei.

Na época, eu mal conseguia ficar de pé, muito menos fazer perguntas.

Mais tarde, quis ir ao local do acidente, mas Cristiano não deixou.

Disse que a área estava interditada e que nem os familiares tinham autorização para entrar.

Minha mãe também tentou me convencer a desistir.

Segundo ela, Henrique já estava morto. Fazer perguntas não o traria de volta.

Até o funeral havia sido realizado com um caixão vazio.

No dia seguinte, ainda atordoada, fui até a floricultura que Carolina costumava frequentar.

A dona me reconheceu assim que entrei e abriu um sorriso.

— Você é a melhor amiga da Carol, não é?

Antes que eu respondesse, ela continuou:

— O marido dela esteve aqui ontem. Encomendou um buquê para ela.

Por um segundo, meu coração pareceu parar.

Mantive a expressão o mais neutra possível e perguntei, fingindo casualidade:

— Eles costumam comprar flores aqui?

— Hoje em dia, nem tanto. Mas, uns anos atrás, pediam bastante. Quando o bebê nasceu, então, era toda hora. O marido dela também veio pessoalmente algumas vezes. Sempre foi muito atencioso com ela.

"Quando o bebê nasceu..."

Fiquei parada no meio da loja, sentindo o chão fugir sob meus pés.

Quando voltei para casa, Cristiano já estava lá.

Havia uma panela de sopa no fogo.

Meus remédios estavam sobre a mesa.

Tudo parecia exatamente igual a todos os outros dias.

Calmo.

Rotineiro.

Como se nada tivesse mudado.

Então o celular dele tocou.

Cristiano conferiu a tela, pegou o aparelho e começou a andar em direção à varanda.

Foi quando vi o nome salvo no contato.

Carol.

Minha respiração travou.

O último fio de esperança que eu ainda tentava preservar se rompeu.

Não tive mais dúvidas.

Enquanto Cristiano atendia à ligação, virei as costas e saí de casa.

Dessa vez, eu precisava ver com meus próprios olhos.

Precisava ver Henrique depois de tudo o que ele tinha feito comigo.

Precisava ver Carolina ocupando o lugar que um dia fora meu e vivendo tranquilamente, como se não tivesse destruído nada no caminho.

Com o endereço que a dona da floricultura havia me passado, fui até o prédio onde eles moravam.

Mas a primeira pessoa que vi ao chegar não foi Henrique.

Foi minha mãe.

Ela carregava duas sacolas grandes, abarrotadas de produtos para bebê.

O segurança a reconheceu de imediato e ainda sorriu ao cumprimentá-la com um aceno.

Foi ali que alguma coisa dentro de mim finalmente se partiu.

Entrei no prédio e subi até o mesmo andar.

Quando as portas do elevador se abriram, encontrei um corredor silencioso.

Minha mãe parou diante de um dos apartamentos e bateu à porta com a intimidade de quem já tinha feito aquilo muitas vezes.

A porta se abriu quase imediatamente.

Henrique apareceu do outro lado.

Parei onde estava.

Por alguns segundos, até respirar pareceu impossível.

Ele usava roupas confortáveis para ficar em casa e carregava uma criança pequena nos braços.

O rosto da menina estava avermelhado, como se ela tivesse chorado há pouco.

Assim que viu minha mãe, estendeu os bracinhos em sua direção e chamou com a voz doce e infantil:

— Vovó.

O som atravessou minha cabeça como uma pancada.

Meu corpo inteiro ficou rígido.

Minha mãe pegou a menina no colo sem hesitar e começou a consolá-la.

— A febre já baixou?

Henrique abriu passagem para que ela entrasse e pegou as sacolas de suas mãos com a maior naturalidade.

— Já, está bem melhor. A Carol acabou de acordar. Está lá dentro.

Ouvir aquele nome na boca dele, dito com tanta familiaridade, doeu mais do que eu imaginava.

A porta permaneceu aberta por alguns instantes.

Da entrada, eu conseguia enxergar a sala.

Havia uma manta largada no sofá, uma mamadeira sobre a mesa de centro e blocos de montar espalhados pelo chão.

Não era uma encenação.

Era uma casa.

Uma família.

Tudo o que eu tinha desejado durante tantos anos.

Todos sabiam.

Menos eu.

E, enquanto eles construíam aquela vida juntos, eu sequer tivera o direito de saber que ela existia.

Carolina apareceu pouco depois e pegou a menina no colo.

Vestia roupas confortáveis, estava com o cabelo preso de qualquer jeito e ainda tinha no rosto o ar sonolento de quem acabara de acordar.

Henrique ergueu a mão, afastou uma mecha que havia caído sobre o rosto dela e a prendeu atrás de sua orelha.

Precisei apoiar a mão na parede.

Quando eu cozinhava e meu cabelo caía sobre o rosto, ele fazia a mesma coisa comigo.

No inverno, se meu cachecol ficava torto, ele abaixava a cabeça e o ajeitava com cuidado.

Durante anos, eu acreditara que aqueles pequenos gestos pertenciam a nós dois.

Agora entendia que nunca tinham sido exclusivamente meus.

E a mulher que os recebia era justamente Carolina.

Minha melhor amiga.

Minha mãe se sentou com a menina no colo, sorrindo enquanto falava sobre os alimentos infantis que havia levado.

Disse que, na próxima visita, compraria roupas novas para a criança.

A babá saiu da cozinha e perguntou se alguém queria que ela esquentasse a sopa.

Henrique serviu água.

Carolina conversava baixinho com a filha.

Tudo parecia tão natural.

Tão completo.

Parada do lado de fora, eu era a única pessoa que não pertencia àquela cena.

Quando as lágrimas começaram a escorrer, nem tentei enxugá-las.

Apenas me virei e caminhei em direção ao elevador.

Foi então que meu celular tocou.

Era Cristiano.

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