Por um instante, Cristiano pareceu surpreso.
Mas não respondeu.
E eu não insisti.
Naquela noite, não consegui dormir.
Passei horas me revirando na cama, até que o céu começou a clarear.
Pouco a pouco, coisas que durante anos nunca tinham feito sentido começaram a se encaixar.
Quando Henrique sofreu o acidente, eu nem sequer pude vê-lo pela última vez.
Também não recebi nenhum pertence dele.
Nada.
Disseram apenas que o acidente havia sido grave demais e que o corpo não pudera ser identificado no local.
Quando recebi a notícia, desmaiei.
Na época, eu mal conseguia ficar de pé, muito menos fazer perguntas.
Mais tarde, quis ir ao local do acidente, mas Cristiano não deixou.
Disse que a área estava interditada e que nem os familiares tinham autorização para entrar.
Minha mãe também tentou me convencer a desistir.
Segundo ela, Henrique já estava morto. Fazer perguntas não o traria de volta.
Até o funeral havia sido realizado com um caixão vazio.
No dia seguinte, ainda atordoada, fui até a floricultura que Carolina costumava frequentar.
A dona me reconheceu assim que entrei e abriu um sorriso.
— Você é a melhor amiga da Carol, não é?
Antes que eu respondesse, ela continuou:
— O marido dela esteve aqui ontem. Encomendou um buquê para ela.
Por um segundo, meu coração pareceu parar.
Mantive a expressão o mais neutra possível e perguntei, fingindo casualidade:
— Eles costumam comprar flores aqui?
— Hoje em dia, nem tanto. Mas, uns anos atrás, pediam bastante. Quando o bebê nasceu, então, era toda hora. O marido dela também veio pessoalmente algumas vezes. Sempre foi muito atencioso com ela.
"Quando o bebê nasceu..."
Fiquei parada no meio da loja, sentindo o chão fugir sob meus pés.
Quando voltei para casa, Cristiano já estava lá.
Havia uma panela de sopa no fogo.
Meus remédios estavam sobre a mesa.
Tudo parecia exatamente igual a todos os outros dias.
Calmo.
Rotineiro.
Como se nada tivesse mudado.
Então o celular dele tocou.
Cristiano conferiu a tela, pegou o aparelho e começou a andar em direção à varanda.
Foi quando vi o nome salvo no contato.
Carol.
Minha respiração travou.
O último fio de esperança que eu ainda tentava preservar se rompeu.
Não tive mais dúvidas.
Enquanto Cristiano atendia à ligação, virei as costas e saí de casa.
Dessa vez, eu precisava ver com meus próprios olhos.
Precisava ver Henrique depois de tudo o que ele tinha feito comigo.
Precisava ver Carolina ocupando o lugar que um dia fora meu e vivendo tranquilamente, como se não tivesse destruído nada no caminho.
Com o endereço que a dona da floricultura havia me passado, fui até o prédio onde eles moravam.
Mas a primeira pessoa que vi ao chegar não foi Henrique.
Foi minha mãe.
Ela carregava duas sacolas grandes, abarrotadas de produtos para bebê.
O segurança a reconheceu de imediato e ainda sorriu ao cumprimentá-la com um aceno.
Foi ali que alguma coisa dentro de mim finalmente se partiu.
Entrei no prédio e subi até o mesmo andar.
Quando as portas do elevador se abriram, encontrei um corredor silencioso.
Minha mãe parou diante de um dos apartamentos e bateu à porta com a intimidade de quem já tinha feito aquilo muitas vezes.
A porta se abriu quase imediatamente.
Henrique apareceu do outro lado.
Parei onde estava.
Por alguns segundos, até respirar pareceu impossível.
Ele usava roupas confortáveis para ficar em casa e carregava uma criança pequena nos braços.
O rosto da menina estava avermelhado, como se ela tivesse chorado há pouco.
Assim que viu minha mãe, estendeu os bracinhos em sua direção e chamou com a voz doce e infantil:
— Vovó.
O som atravessou minha cabeça como uma pancada.
Meu corpo inteiro ficou rígido.
Minha mãe pegou a menina no colo sem hesitar e começou a consolá-la.
— A febre já baixou?
Henrique abriu passagem para que ela entrasse e pegou as sacolas de suas mãos com a maior naturalidade.
— Já, está bem melhor. A Carol acabou de acordar. Está lá dentro.
Ouvir aquele nome na boca dele, dito com tanta familiaridade, doeu mais do que eu imaginava.
A porta permaneceu aberta por alguns instantes.
Da entrada, eu conseguia enxergar a sala.
Havia uma manta largada no sofá, uma mamadeira sobre a mesa de centro e blocos de montar espalhados pelo chão.
Não era uma encenação.
Era uma casa.
Uma família.
Tudo o que eu tinha desejado durante tantos anos.
Todos sabiam.
Menos eu.
E, enquanto eles construíam aquela vida juntos, eu sequer tivera o direito de saber que ela existia.
Carolina apareceu pouco depois e pegou a menina no colo.
Vestia roupas confortáveis, estava com o cabelo preso de qualquer jeito e ainda tinha no rosto o ar sonolento de quem acabara de acordar.
Henrique ergueu a mão, afastou uma mecha que havia caído sobre o rosto dela e a prendeu atrás de sua orelha.
Precisei apoiar a mão na parede.
Quando eu cozinhava e meu cabelo caía sobre o rosto, ele fazia a mesma coisa comigo.
No inverno, se meu cachecol ficava torto, ele abaixava a cabeça e o ajeitava com cuidado.
Durante anos, eu acreditara que aqueles pequenos gestos pertenciam a nós dois.
Agora entendia que nunca tinham sido exclusivamente meus.
E a mulher que os recebia era justamente Carolina.
Minha melhor amiga.
Minha mãe se sentou com a menina no colo, sorrindo enquanto falava sobre os alimentos infantis que havia levado.
Disse que, na próxima visita, compraria roupas novas para a criança.
A babá saiu da cozinha e perguntou se alguém queria que ela esquentasse a sopa.
Henrique serviu água.
Carolina conversava baixinho com a filha.
Tudo parecia tão natural.
Tão completo.
Parada do lado de fora, eu era a única pessoa que não pertencia àquela cena.
Quando as lágrimas começaram a escorrer, nem tentei enxugá-las.
Apenas me virei e caminhei em direção ao elevador.
Foi então que meu celular tocou.
Era Cristiano.