Mundo de ficçãoIniciar sessãoSarah narrando:
O toque da mão dele ainda queimava na minha pele. Eu tentava prestar atenção no que Robert dizia, mas minha mente insistia em voltar para o mesmo ponto. Para o mesmo olhar. Para o mesmo homem parado diante de mim. John. O caminhoneiro. O homem que me salvou horas antes. O irmão do meu noivo. Robert continuava sorrindo, feliz, claramente emocionado com a presença do irmão. Passou o braço pelos meus ombros, me puxando para perto. — Sarah, você não imagina o quanto esse cara sumiu — disse ele, rindo. — Vive rodando o país. A gente quase não se vê. Eu forcei um sorriso. — Imagino… Mas minha voz saiu mais baixa do que deveria. John continuava encostado no batente da porta, nos observando. O olhar dele era intenso, silencioso. Não havia sorriso. Não havia surpresa exagerada. Apenas reconhecimento. Como se nós dois estivéssemos compartilhando um segredo. Robert não percebeu. — Entra, cara! — ele disse, puxando John para dentro. — Temos muito o que conversar. Entramos na casa. Meu coração ainda batia acelerado. Eu sentia a presença dele atrás de mim. Era como se o ar tivesse ficado mais quente. Robert falava sem parar, contando novidades, perguntando sobre viagens, rindo sozinho. Eu mal escutava. Estava consciente demais de cada passo de John, de cada movimento, de cada silêncio. Em determinado momento, senti o olhar dele em mim. Não resisti. Virei levemente o rosto. Ele ainda me observava. Desviei imediatamente. Meu coração disparou. Isso estava errado. Muito errado. A mãe de Robert apareceu na sala, feliz por ver os dois filhos juntos. Abraçava John a todo instante com emoção. A casa se encheu de vozes, perguntas, risadas. O clima era familiar, acolhedor. Eu tentei me concentrar nisso. Era minha nova família. Eu devia estar feliz. Mas algo dentro de mim parecia inquieto. Durante o jantar, sentei ao lado de Robert. John ficou à minha frente. Aquilo parecia proposital, embora eu soubesse que não era. Mesmo assim, era impossível ignorar. Eu sentia os olhos dele levantando de vez em quando. E, sem querer, eu também olhava. Pequenos contatos. Rápidos. Perigosos. Robert segurou minha mão sobre a mesa. Um gesto carinhoso. Natural. Eu entrelacei meus dedos nos dele, tentando me ancorar ali, na segurança que ele sempre me deu. Mas, mesmo assim, lembrei das mãos de John. Grandes. Firmes. Sujas de graxa. Afastei o pensamento imediatamente. Culpa. Quando o jantar terminou, Robert me puxou pela mão. — Vamos subir? Você deve estar cansada. Assenti. Subimos para o quarto. O mesmo quarto que agora era meu. Nosso. O lugar onde eu sempre me senti segura desde que passei a morar ali. Robert fechou a porta e me abraçou por trás. — Gostou da surpresa? — Seu irmão? — Sim. Faz tempo que não aparece. Fiquei feliz. — Eu percebi… Ele me virou para frente. — Você está quieta. Aconteceu alguma coisa? Por um segundo, pensei em contar. Falar sobre a estrada. Sobre o encontro. Sobre tudo. Mas algo me travou. Se eu contasse, Robert ficaria preocupado. Talvez bravo. Talvez não gostasse de eu ter ficado sozinha com um estranho. Talvez me proibisse de sair sozinha. Ou pior… Talvez percebesse algo no meu olhar. — Não… só estou cansada — respondi. Ele sorriu, acreditando. Robert me beijou com carinho. Um beijo doce, familiar. Eu correspondi, mas minha mente estava distante. Por um segundo, sem querer, imaginei outro beijo. Os olhos verdes. A voz rouca. Me afastei levemente. — Vou tomar um banho. Entrei no banheiro e me encarei no espelho. Minha respiração ainda estava irregular. Meu coração não tinha voltado ao normal desde a rodovia. Desde ele. Depois do banho, deitei ao lado de Robert. Ele adormeceu rápido, como sempre. A respiração ficou profunda, tranquila. Eu não consegui dormir. Fiquei olhando o teto. Relembrando cada detalhe. O cheiro dele. O calor da pele. O toque da mão. O olhar silencioso. Virei de lado. Robert dormia serenamente. Eu deveria me sentir em paz. Ele era bom comigo. Me acolheu quando eu não tinha ninguém. Me deu um lar. Uma família. Eu não tinha direito de pensar em outro homem. Muito menos no irmão dele. Fechei os olhos, tentando afastar aquilo. Mas, naquele momento, percebi algo que me assustou. Eu não estava tremendo de medo. Eu estava tremendo de desejo. E isso tornava tudo muito mais perigoso.






