2. A Estrada Nunca Erra

John narrando:

Sou John Bradley.

E a estrada é a única coisa que nunca me abandonou.

Quatro… talvez cinco anos longe.

Eu já nem contava mais.

Voltei porque minha mãe pediu.

E quando ela pede, eu apareço.

Ainda mais com um motivo desses:

o casamento do Robert.

Meu irmão mais novo.

O sol castigava o asfalto quando entrei na I-80, já perto de Fairhaven.

A paisagem não tinha mudado.

Campos abertos.

O ar seco.

O mesmo silêncio de sempre.

Faltava pouco pra chegar… quando vi.

Um carro parado no acostamento.

Porta do motorista escancarada.

E quatro… talvez cinco motos ao redor.

Meu maxilar travou.

Não precisei pensar.

Pisei no freio da carreta e encostei no acostamento.

O motor ainda roncava quando desci, já puxando o rifle de dentro da cabine.

A poeira subia atrás de mim enquanto eu caminhava na direção deles.

Um dos caras estava perto demais da porta do carro.

Outro olhava lá pra dentro.

Havia algo de errado.

Muito errado.

Engatilhei o rifle.

O som metálico cortou o ar quente.

— O que está acontecendo aqui?

Minha voz saiu baixa.

Firme.

Sem pressa.

Um deles virou devagar.

Sorriso torto.

— Nada que você possa se meter.

Então eu ouvi.

— Por favor… me ajuda!

A voz dela cortou o ar como uma lâmina.

Foi o suficiente.

Ergui o rifle um pouco mais.

— Vocês vão sair daqui. Agora.

O líder me encarou.

Calculando.

Pesando o risco.

Eu não desviei.

Alguns segundos depois, ele cuspiu no chão.

— Não vale a pena.

Subiram nas motos e foram embora levantando poeira.

Covardes.

Só então olhei pra ela.

Caída no chão, apoiada nas mãos, respirando rápido demais.

O cabelo grudado no rosto pelo suor.

As pernas tremendo.

Aproximei-me devagar.

— Você tá bem?

Ela levantou o rosto.

Os olhos encontraram os meus.

— S-sim… você me salvou…

Assenti.

Mas não consegui responder.

Porque foi nesse momento que eu realmente vi.

Olhos escuros.

Profundos.

Firmes demais pra alguém que acabou de ser cercada.

Meu olhar desceu sem pedir permissão.

Cintura fina.

Respiração curta.

Pele quente pelo sol.

Porra.

Desviei o olhar.

Tarde demais.

Ela se levantou… e me abraçou.

Fiquei imóvel.

O corpo dela colou no meu, leve, quente, ainda tremendo.

As mãos pequenas seguraram minha camisa como se eu fosse a única coisa segura ali.

Um segundo.

Dois.

Errado.

Completamente errado.

Mas eu não afastei.

O cheiro dela me atingiu. Doce. Suave. Feminino demais pra aquela estrada cheia de poeira.

Quando ela me soltou… senti falta.

Na mesma hora.

Isso cheirava problema.

— John — falei. — Meu nome.

Ela respirou fundo.

— Sarah.

O nome ficou na minha cabeça mais do que devia.

— O que aconteceu com o carro?

— Eu não sei… ele só parou… fiquei presa aqui…

— Deixa eu ver.

Abri o capô. O calor do motor subia, mas eu sentia outra coisa.

O olhar dela.

Pesado.

Constante.

Preso em mim.

Ignorei.

Ou tentei.

Mexi nos cabos, apertei conexões, testei a ignição.

O motor tossiu… e voltou.

— Nossa… foi rápido — ela disse.

Soltei um riso curto.

— Não foi. Ficamos aqui quase duas horas.

Ela me olhou… distante.

— Sarah.

Nada.

— Sarah.

Ela piscou.

— Oi!

Franzi a testa.

— Você tá bem mesmo?

— Tô… consigo dirigir.

— Leva numa oficina quando chegar na cidade.

Ela assentiu.

O silêncio caiu entre nós.

Estranho.

Denso.

— Então… até algum dia — ela disse.

Assenti.

Subi na carreta antes que mudasse de ideia.

Antes que falasse mais do que devia.

Antes que fizesse alguma besteira.

Segui viagem.

Devia ter sido só isso.

Só mais uma parada na estrada.

Mas não foi.

Não com ela.

Quando entrei na propriedade, tudo estava igual.

A casa branca.

A varanda de madeira.

A poeira levantando sob os pneus.

Minha mãe apareceu na janela no mesmo instante.

Como se sempre soubesse quando eu voltaria.

Desci da carreta e ela me abraçou forte.

— Você voltou…

— Prometi que vinha.

Dentro de casa, comida quente.

Cheiro de café.

Tudo igual.

Depois do jantar, apaguei no sofá.

Quando acordei, já era noite.

Ouvi o carro do Robert.

Ele entrou rindo, me viu e veio direto.

— Até que enfim você apareceu!

— Tive que vir. Antes que você faça besteira.

Ele riu.

Então virou o corpo.

— Sarah, esse é o meu irmão mais velho.

Eu já estava olhando.

Antes mesmo do nome.

E quando vi…

Reconheci na hora.

A mulher da estrada.

Claro que era ela.

Fiquei parado.

Só observando.

Ela também sabia.

Vi no jeito que respirou.

No modo como os dedos apertaram o braço do Robert.

Dei um passo à frente.

Estendi a mão.

— Sarah…

Minha voz saiu mais baixa.

— Prazer em conhecer a mulher que domou meu irmão.

Os dedos dela tocaram os meus.

Quentes.

Delicados.

Suaves demais.

Segurei um segundo a mais do que devia.

Meu polegar roçou levemente o pulso dela.

Quase nada.

O suficiente.

Ela puxou a mão de volta.

E se agarrou ao braço do Robert.

Certo.

Era assim que tinha que ser.

Eles entraram.

Eu fui atrás.

Mas uma coisa ficou clara naquele momento:

Isso não ia acabar bem. 🔥

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