Depois daquele domingo na igreja, algo mudou entre nós.
Não foi algo dramático ou repentino. Nenhuma promessa foi feita, nenhum plano foi elaborado.
Simplesmente aconteceu.
Na sexta-feira seguinte, Laura decidiu que faríamos um jantar.
— A Rebeca precisa sair um pouco de casa — disse ela enquanto mexia nas panelas da cozinha. — E ninguém merece ficar sofrendo por causa de um idiota que diz que quer ser padre e duas semanas depois aparece com outra.
Eu estava picando tomates na bancada.
— Você vai falar isso pra ela?
— Não.
— Então talvez seja melhor não falar também enquanto ela estiver aqui.
Laura revirou os olhos.
— Você sempre estraga minhas melhores falas.
A casa estava cheia de cheiros.
Alho refogado, molho de tomate, pão aquecendo no forno. A cozinha era o lugar mais vivo da casa nas noites de sexta-feira, e naquele dia parecia ainda mais movimentada.
Gabriel e Daniel chegaram primeiro.
Como sempre.
Daniel entrou sem bater, como fazia desde que éramos adolescentes.
— Cheiro de comida boa! — anunciou ele da sala.
— Então você veio pelo motivo certo — respondeu Laura.
Gabriel apareceu logo atrás, encostando no batente da cozinha.
— A gente trouxe vinho.
— Ótimo — disse Laura. — Porque se essa noite depender da Helena cozinhar sóbrio, estamos todos em risco.
— Eu sei cozinhar — protestei.
— Você segue receitas.
— Isso é literalmente cozinhar.
Daniel já estava abrindo uma das garrafas quando Yasmin chegou.
Ela entrou animada, como sempre, falando antes mesmo de tirar a bolsa do ombro.
— Gente, vocês não têm noção do que aconteceu hoje no trabalho…
Ela parou no meio da frase quando viu a cozinha cheia.
— Ah, ótimo. Já começaram sem mim.
— Você está no horário perfeito — disse Gabriel.
A mesa começou a se encher de pratos.
Pratos simples, mas suficientes para alimentar cinco pessoas com fome e disposição para conversar até tarde.
A única pessoa que ainda não tinha chegado era Rebeca.
— Será que ela desistiu? — perguntou Yasmin.
Laura balançou a cabeça.
— Ela confirmou que vinha.
Daniel tomou um gole de vinho.
— Talvez esteja só atrasada.
Foi exatamente nesse momento que a campainha tocou.
Laura largou o pano de prato imediatamente.
— Deve ser ela.
Eu estava terminando de arrumar os talheres quando ouvi a porta abrir.
E então ouvi a voz de Rebeca.
— Oi!
Algumas risadas.
Passos entrando na sala.
E então Laura disse algo que eu não esperava.
— Vocês trouxeram reforço?
Eu franzi a testa.
Reforço?
Curiosa, caminhei da cozinha até a sala.
E foi aí que eu o vi.
Ele estava parado logo atrás de Rebeca, perto da porta.
Alto.
Muito mais alto do que qualquer pessoa na sala.
A primeira coisa que chamou minha atenção foi a postura dele.
Não era arrogância.
Era… presença.
O tipo de presença que faz uma pessoa parecer ocupar mais espaço do que realmente ocupa.
Ele usava uma camisa simples de mangas curtas e uma calça escura. Nada sofisticado. Nada chamativo.
Mas havia algo nele que fazia com que todos olhassem.
Pele escura.
O rosto sério, mas tranquilo.
Os ombros largos que faziam a camisa parecer pequena demais para ele.
E os olhos.
Ele estava observando o ambiente com um olhar calmo, como alguém que prefere entender primeiro antes de falar.
Rebeca percebeu que eu tinha chegado na sala.
— Helena, esse é o Davi.
Ela sorriu.
— Meu namorado.
Por um segundo muito curto, ninguém falou nada.
Então Daniel estendeu a mão.
— Prazer, cara.
Davi apertou a mão dele com firmeza.
— Prazer.
A voz dele era grave.
Calma.
Daquelas vozes que parecem sempre controladas.
Gabriel apareceu logo atrás.
— Eu sou o Gabriel.
— Davi.
Mais um aperto de mão.
Yasmin se aproximou com um sorriso curioso.
— Então você é o famoso Davi.
Ele levantou uma sobrancelha.
— Famoso?
— Rebeca falou de você.
Rebeca riu.
— Não exagera.
Laura cruzou os braços, observando a cena com atenção.
— Você trouxe ele escondido esse tempo todo?
— A gente só está saindo há pouco tempo — respondeu Rebeca.
Davi finalmente olhou para mim.
Foi rápido.
Mas foi direto.
— Você deve ser a Helena.
Eu pisquei.
— Sou.
— Rebeca disse que a casa é sua.
— É.
Houve um pequeno silêncio estranho.
Então Laura bateu palmas.
— Certo, apresentações feitas. Agora todo mundo pra mesa antes que a comida esfrie.
O jantar começou animado.
Gabriel contou histórias do trabalho.
Yasmin falou sobre um cliente maluco que tinha atendido naquele dia.
Daniel discutiu futebol com Laura.
Rebeca parecia mais leve do que eu a tinha visto nas últimas semanas.
E Davi…
Davi falava pouco.
Mas quando falava, todo mundo prestava atenção.
Ele contou que trabalhava desde muito novo.
Que ajudava a mãe.
Que tinha mais de um emprego.
Nada dito de forma dramática.
Apenas fatos.
Simples.
Diretos.
Em algum momento da noite, enquanto todos estavam distraídos com uma história exagerada de Gabriel, eu levantei os olhos.
E percebi algo.
Davi estava olhando para mim.
Não de forma descarada.
Mas atento.
Observador.
Como se estivesse tentando entender algo.
Assim que percebeu que eu tinha notado, ele desviou o olhar.
E voltou para a conversa.
Talvez tenha sido apenas coincidência.
Talvez tenha sido minha imaginação.
Mas naquele momento, sem entender exatamente por quê, tive a sensação estranha de que algo havia mudado naquela sala.
Algo pequeno.
Quase invisível.
Mas real.
E, naquela noite, enquanto recolhíamos os pratos depois que todos foram embora, Laura encostou no balcão da cozinha e me lançou um olhar curioso.
— Então?
— Então o quê?
Ela cruzou os braços.
— O que você achou do namorado novo da Rebeca?
Eu dei de ombros.
— Parece gente boa.
Laura sorriu de lado.
— Só isso?
— Só.
Ela pegou um copo de água.
— Interessante.
— O que é interessante?
Laura bebeu um gole.
E então disse algo que, naquela época, eu não levei muito a sério.
— Ele olhou bastante pra você.
Eu revirei os olhos.
— Você está imaginando coisas.
Laura deu um sorriso lento.
— Talvez.
Mas naquela noite…
antes de dormir…
eu me peguei pensando em algo que não consegui ignorar.
A forma como os olhos dele tinham parado em mim por alguns segundos.
Tempo suficiente para me deixar com uma sensação estranha.
Uma sensação que eu não sabia explicar.
E que eu ainda levaria muito tempo para entender.