Casamentos sempre foram eventos perigosos na nossa comunidade.
Não perigosos no sentido literal — ninguém brigava, ninguém gritava, ninguém quebrava taças contra a parede. Pelo contrário. Tudo era sempre extremamente educado, organizado, bonito.
Mas existia algo nos casamentos que fazia as emoções escaparem pelas bordas.
Talvez fosse o vinho.
Talvez fosse a música.
Ou talvez fosse simplesmente o fato de que, quando duas pessoas se comprometem diante de todo mundo, todos os outros começam a pensar sobre as próprias vidas.
Naquela noite, a igreja estava mais cheia do que o normal.
As velas alinhadas ao longo do corredor iluminavam o chão de pedra com uma luz tremida, e o perfume das flores brancas espalhadas pelo altar se misturava ao cheiro familiar de incenso.
Eu estava sentada ao lado de Laura.
Minha irmã sempre parecia mais confortável nesses eventos do que eu. Enquanto eu observava tudo em silêncio, ela já conversava com três pessoas diferentes ao mesmo tempo, rindo baixo para não chamar atenção durante a cerimônia.
Gabriel estava algumas fileiras à frente, ao lado de Yasmin.
Daniel ainda não tinha chegado.
Eu estava distraída observando os detalhes da decoração quando Laura encostou no meu braço.
— Olha lá.
Segui o olhar dela.
Na terceira fileira do lado direito estavam Rebeca e Eduardo.
Eles estavam ali como padrinhos.
Rebeca usava um vestido azul escuro que parecia ter sido feito exatamente para ela. O tecido acompanhava o movimento do corpo de um jeito elegante, e o cabelo estava preso em um coque baixo que deixava o pescoço à mostra.
Ela parecia tranquila.
Eduardo também.
Talvez até mais do que o normal.
Se alguém olhasse aquela cena de longe, veria apenas um casal bonito sentado lado a lado durante a cerimônia de um casamento.
Nada estranho.
Nada fora do lugar.
Mas Laura franziu a testa.
— Ele está estranho — murmurou.
— Quem?
— O Eduardo.
Olhei de novo.
Confesso que, naquele momento, eu não percebi nada demais.
Ele estava sério, é verdade. Mas padrinhos costumam ficar sérios em cerimônias. Talvez estivesse apenas concentrado.
A música começou.
A noiva entrou.
A igreja inteira se levantou.
Durante alguns minutos, todo mundo esqueceu qualquer outra coisa que não fosse o casal diante do altar.
O padre falou sobre amor.
Falou sobre compromisso.
Falou sobre fidelidade.
Palavras que, naquela noite, pareceriam quase irônicas horas depois.
A cerimônia terminou entre aplausos e abraços. Como sempre acontece, o clima imediatamente mudou assim que as portas da igreja se abriram.
O frio da noite entrou junto com o barulho das conversas.
Todo mundo começou a se mover.
Cumprimentos, risadas, fotos.
E então seguimos para o salão da festa.
O lugar estava lindo.
Mesas redondas cobertas por toalhas claras, arranjos de flores altas no centro, luzes penduradas no teto formando pequenas constelações artificiais.
A banda já tocava uma música animada quando chegamos.
Laura imediatamente desapareceu entre conhecidos.
Gabriel apareceu ao meu lado alguns minutos depois, segurando duas taças de vinho.
— Achei que você ia se esconder num canto — disse ele, entregando uma delas para mim.
— Ainda posso fazer isso.
Ele riu.
— Hoje não. Hoje tem festa.
Yasmin se juntou a nós logo em seguida, puxando Gabriel pelo braço para a pista de dança.
Daniel finalmente chegou pouco depois, cumprimentando todo mundo com aquele sorriso fácil que ele sempre teve.
Por alguns minutos, tudo parecia exatamente como deveria ser em um casamento.
Até que Rebeca apareceu.
Ela estava andando na nossa direção, mas havia algo diferente nela.
Algo que eu não soube identificar de imediato.
Talvez fosse a forma como ela segurava o próprio braço.
Talvez fosse o olhar.
Ou talvez fosse o fato de que Eduardo não estava com ela.
Laura percebeu primeiro.
— Cadê o Eduardo?
Rebeca tentou sorrir.
Mas não conseguiu sustentar o sorriso por muito tempo.
— Ele foi embora.
O silêncio que se seguiu foi pequeno.
Mas pesado.
— Como assim, foi embora? — perguntou Gabriel.
Rebeca respirou fundo.
E então disse algo que, naquele momento, parecia impossível de entender.
— Ele terminou comigo.
Daniel franziu a testa.
— Aqui?
Ela assentiu.
— Na festa.
Por alguns segundos, ninguém falou nada.
A música continuava tocando.
Pessoas dançavam.
Garçons passavam com bandejas de bebidas.
Mas dentro daquele pequeno círculo que se formou ao redor de Rebeca, o ar parecia completamente diferente.
— O que ele disse? — perguntou Laura, incrédula.
Rebeca demorou alguns segundos para responder.
— Disse que acha que a vocação dele pode ser outra.
— Outra? — repetiu Gabriel.
— Ele disse que talvez queira ser padre.
Daniel piscou devagar, como se estivesse tentando processar a frase.
— Espera… ele terminou com você no meio de um casamento… porque acha que quer virar padre?
Rebeca deu uma risada curta.
Mas não era uma risada feliz.
— Basicamente.
Laura ficou indignada.
— Isso não faz sentido nenhum!
— Faz menos ainda porque… — Rebeca hesitou.
— Porque o quê? — perguntou Yasmin.
Ela respirou fundo.
— Porque ele disse que já estava pensando nisso há algum tempo.
Gabriel passou a mão no rosto.
— Então por que continuou namorando?
Rebeca não respondeu.
Mas os olhos dela ficaram brilhantes de um jeito que dizia tudo.
Eu fiquei em silêncio.
Observando.
Como sempre.
Havia algo profundamente estranho em toda aquela situação.
Algo que não encaixava direito.
Mas, naquela noite, ninguém teria tempo de pensar muito nisso.
Porque duas semanas depois, a notícia que chegaria à comunidade inteira faria aquele término parecer ainda mais absurdo.
Eduardo não tinha desaparecido para refletir sobre a vocação.
Ele não estava em retiro espiritual.
Nem em silêncio vocacional.
Duas semanas depois…
ele apareceria na igreja novamente.
De mãos dadas.
Com outra garota.
E foi naquele momento que todo mundo percebeu que aquela história estava muito longe de terminar.