Na semana seguinte, eu achei que as coisas voltariam ao normal.
Afinal, o beijo na mão tinha sido só uma brincadeira.
Todo mundo estava rindo.
Ninguém parecia ter levado aquilo a sério.
Então não havia motivo para eu continuar pensando nisso.
Era isso que eu repetia para mim mesma.
Mesmo que não estivesse funcionando muito bem.
Na sexta-feira, quando a campainha tocou, eu já sabia quem seria.
As sextas tinham se tornado previsíveis.
Gabriel chegou primeiro, como sempre.
Daniel apareceu logo depois.
Yasmin trouxe sobremesa.
Laura já estava na cozinha, preparando alguma coisa que cheirava bem demais para ser uma refeição improvisada.
E então a porta abriu novamente.
— Boa noite! — disse Rebeca.
Eu estava na sala quando ela entrou.
E logo atrás dela veio Davi.
Ele cumprimentou todo mundo com a mesma tranquilidade de sempre.
Abraçou Gabriel.
Deu um tapa amistoso no ombro de Daniel.
Yasmin começou a perguntar alguma coisa sobre o trabalho dele.
Tudo parecia exatamente como nas outras semanas.
Exceto por um detalhe.
Quando ele me viu, abriu um pequeno sorriso.
— Helena.
— Davi.
Nada demais.
Nada diferente.
Mas, por algum motivo, senti uma pontada estranha no estômago.
A noite seguiu normalmente.
Conversa.
Comida.
Vinho.
Daniel estava no meio de uma discussão animada com Gabriel sobre futebol quando Yasmin começou a contar uma história absurda sobre um cliente do trabalho.
Rebeca estava rindo tanto que precisou enxugar os olhos.
Eu estava sentada na ponta do sofá quando percebi algo.
Davi estava me observando de novo.
Não de forma insistente.
Mas atento.
Como se estivesse prestando atenção nas minhas reações durante a conversa.
Quando percebeu que eu tinha notado, ele desviou o olhar.
E entrou na discussão com Gabriel.
Eu tentei ignorar.
Mas, depois de um tempo, comecei a me sentir inquieta.
Levantei.
— Vou pegar mais vinho.
— Traz pra mim também! — gritou Daniel.
— Para mim também — disse Yasmin.
Eu fui até a cozinha.
Abri a garrafa.
Peguei algumas taças.
Respirei fundo.
Talvez eu estivesse exagerando.
Talvez estivesse imaginando coisas.
Peguei as taças e voltei para a sala.
Mas antes mesmo de chegar até a mesa, Gabriel disse algo que fez todo mundo rir.
— A Helena parece sempre brava.
— Eu não pareço brava — respondi.
— Parece sim — disse Yasmin.
Daniel concordou.
— Você tem cara de quem vai dar bronca em alguém.
Eu revirei os olhos.
— Vocês são impossíveis.
Rebeca riu.
— Eu também achei isso quando conheci ela.
Gabriel levantou a taça.
— A Helena tem cara de brava, mas no fundo é boazinha.
— Obrigada pelo elogio estranho.
Foi então que Davi falou.
— Ela não parece brava.
Todos olharam para ele.
— Não? — perguntou Gabriel.
Davi deu de ombros.
— Não.
Ele olhou diretamente para mim.
— Ela só parece séria.
Laura sorriu.
— Viu?
Gabriel cruzou os braços.
— Então prova.
— Prova o quê?
— Abraça ela.
A sala inteira começou a rir.
— Gabriel… — eu avisei.
— O quê? Dizem que abraço quebra cara de bravo.
— Você acabou de inventar isso.
Yasmin entrou na brincadeira.
— Eu apoio o experimento.
Daniel levantou a taça.
— Ciência.
Eu balancei a cabeça.
— Vocês são ridículos.
Mas Davi já tinha se levantado.
— Posso?
Ele perguntou com um sorriso leve.
A pergunta era simples.
Mas, por algum motivo, fez meu coração acelerar um pouco.
— Tanto faz — respondi, tentando parecer indiferente.
Ele deu alguns passos na minha direção.
Sem pressa.
Sem exagero.
Quando chegou perto, abriu os braços.
Eu hesitei por meio segundo.
E então aceitei o abraço.
Foi rápido.
Era para ser apenas uma brincadeira.
Mas o abraço dele era firme.
Quente.
Aqueles segundos duraram muito mais do que eu esperava.
Talvez porque ele fosse mais alto.
Talvez porque os braços dele fossem muito mais largos do que eu tinha imaginado.
Talvez porque, por um instante, pareceu que o mundo na sala tinha diminuído de volume.
Quando ele se afastou, Gabriel começou a bater palmas.
— Funcionou!
Yasmin estava rindo.
— Ela ainda parece séria.
Daniel levantou a taça.
— Precisamos de mais testes.
Eu revirei os olhos.
— Vocês são infantis.
Davi voltou para o lugar dele no sofá como se nada tivesse acontecido.
Rebeca continuava conversando com Yasmin.
Gabriel já estava contando outra história.
Mas eu ainda sentia a sensação estranha daquele abraço.
Como se algo tivesse ficado no ar por alguns segundos.
Quando a noite terminou e todos começaram a ir embora, eu fui até a porta para me despedir.
Rebeca me abraçou primeiro.
— Boa noite.
— Boa noite.
Davi veio logo atrás.
— Até semana que vem.
Ele abriu os braços de novo.
Dessa vez sem plateia.
Sem brincadeira.
Eu o abracei rapidamente.
Mas quando ele se afastou, falou algo baixo o suficiente para só eu ouvir.
— Você não parece brava.
Eu levantei uma sobrancelha.
— Não?
Ele sorriu de leve.
— Só parece difícil de entender.
E então saiu pela porta com Rebeca.
Eu fiquei ali por alguns segundos.
Observando o corredor vazio.
Com uma sensação estranha no peito.
Porque, pela segunda vez em poucas semanas…
Davi tinha feito algo simples.
Pequeno.
Quase insignificante.
E ainda assim…
tinha conseguido mexer comigo de um jeito que eu não sabia explicar.