Na sexta-feira seguinte, ninguém precisou combinar nada.
Às oito da noite, Gabriel já estava sentado no sofá da sala com uma taça de vinho.
Daniel tinha acabado de chegar.
Yasmin estava na cozinha abrindo uma caixa de doces que dizia ter comprado “só para contribuir”, mas que claramente já tinha sido atacada no caminho.
Laura mexia uma panela no fogão com a autoridade de quem já aceitava que as sextas-feiras tinham virado tradição.
— Eu ainda acho estranho isso ter acontecido do nada — disse Yasmin.
— O quê? — perguntou Gabriel.
— A gente simplesmente decidiu jantar junto toda sexta.
Daniel deu de ombros.
— Tem coisa pior.
— Muito pior — concordou Laura.
Eu estava encostada na bancada cortando pão quando a campainha tocou.
Yasmin foi abrir a porta.
— Olha quem chegou!
Rebeca entrou primeiro, sorrindo.
— Desculpa o atraso.
Logo atrás dela veio Davi.
Ele cumprimentou todos com naturalidade, como se já fosse parte do grupo há anos.
Abraçou Gabriel.
Cumprimentou Daniel.
Yasmin já começou a perguntar alguma coisa sobre trabalho.
E Laura apontou para a cozinha.
— Se quiser ajudar, pode começar lavando as mãos.
— Justo — respondeu ele.
Em poucos minutos a sala já estava cheia de conversa.
Gabriel contava alguma história exagerada.
Daniel discutia futebol.
Rebeca estava sentada no sofá com Yasmin.
E Davi estava encostado perto da mesa, ouvindo tudo com aquele mesmo jeito tranquilo de quem presta atenção em mais coisas do que parece.
Foi Gabriel quem começou a confusão.
— Eu estava pensando em uma coisa.
— Isso raramente termina bem — comentou Laura.
Gabriel apontou para mim.
— A Helena está solteira há quanto tempo mesmo?
Eu parei de cortar o pão.
— Gabriel.
— O quê?
— Não.
Yasmin riu.
— Ele tem razão.
— Eu odeio vocês.
Daniel entrou na brincadeira imediatamente.
— É verdade.
— Não é assunto de vocês.
Gabriel levantou a taça.
— É sim.
— Não é.
— Você nunca se interessa por ninguém.
Eu respirei fundo.
— Isso não é verdade.
Laura cruzou os braços.
— Então quem foi o último?
Silêncio.
Yasmin começou a rir.
— Eu sabia.
— Vocês são ridículos.
Gabriel apontou para mim com ar dramático.
— Senhores e senhoras, temos aqui um caso clássico de exigência excessiva.
— Eu só não saio com qualquer pessoa — respondi.
Daniel levantou uma sobrancelha.
— Então qual é o critério?
— Eu não tenho um critério.
— Tem sim — disse Yasmin. — Só não conta pra gente.
Foi então que Davi falou pela primeira vez desde que a discussão começou.
— Talvez ela só não tenha encontrado alguém interessante.
A voz dele saiu calma, quase casual.
Mas foi suficiente para fazer todo mundo olhar para ele.
Gabriel abriu um sorriso.
— Então está lançado o desafio.
Davi arqueou levemente a sobrancelha.
— Desafio?
— Fazer a Helena se interessar por alguém.
Yasmin levantou a taça.
— Boa sorte.
Eu balancei a cabeça.
— Vocês estão inventando coisas.
Gabriel insistiu:
— Vai dizer que você nunca se interessou por ninguém?
— Já.
— Quem?
— Isso não é da conta de vocês.
Daniel começou a rir.
— Ela ficou ofendida.
— Não fiquei.
Gabriel se inclinou para frente.
— Ficou sim.
— Não fiquei.
— Ficou.
Eu suspirei e cruzei os braços.
— Vocês são insuportáveis.
— Ficou brava — provocou Yasmin.
— Não estou brava.
— Está sim.
Eu levantei uma sobrancelha.
— Quer saber? Estou ofendida.
Gabriel começou a rir.
— Ofendida?
— Muito.
— Por quê?
— Porque vocês ficam falando como se eu fosse incapaz de me interessar por alguém.
A sala inteira estava rindo agora.
E então aconteceu.
Davi, que estava sentado na cadeira ao lado da mesa, estendeu a mão na minha direção.
— Então venha cá.
Eu franzi a testa.
— Pra quê?
— Para eu pedir desculpa.
— Você não fez nada.
— Mesmo assim.
Sem pensar muito, eu estendi a mão.
Foi um gesto automático.
Talvez para continuar a brincadeira.
Talvez porque todo mundo estava olhando.
Davi segurou minha mão com cuidado.
A mão dele era quente.
Firme.
E por um segundo achei que ele fosse apenas fazer um gesto exagerado de desculpa, algo teatral para continuar a brincadeira.
Mas ele fez outra coisa.
Ele levantou minha mão lentamente.
E beijou.
Um gesto simples.
Rápido.
Mas inesperado o suficiente para fazer a sala inteira ficar em silêncio por um segundo.
Gabriel arregalou os olhos.
— Opa.
Yasmin começou a rir.
Daniel levantou as duas sobrancelhas.
Laura apenas observou.
Davi soltou minha mão como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
— Pronto.
Ele pegou a taça de vinho.
— Ofensa reparada.
A conversa voltou quase imediatamente.
Gabriel fez alguma piada.
Yasmin mudou de assunto.
Daniel começou outra discussão sobre futebol.
Mas eu…
eu fiquei parada por alguns segundos.
O lugar onde ele tinha tocado minha mão parecia quente demais.
Ridiculamente quente.
Como se o gesto tivesse sido muito maior do que realmente foi.
Eu tentei ignorar.
Tentei voltar para a conversa.
Mas durante o resto da noite uma coisa continuava voltando à minha cabeça.
A naturalidade com que ele tinha feito aquilo.
Como se não tivesse pensado duas vezes.
Como se fosse apenas parte da brincadeira.
E talvez tivesse sido mesmo.
Talvez não significasse absolutamente nada.
Mas quando todos foram embora naquela noite…
e eu finalmente fiquei sozinha no quarto…
uma pergunta ficou girando na minha cabeça.
Por que aquele gesto simples tinha mexido tanto comigo?
E, mais estranho ainda…
por que a sensação parecia não querer ir embora?