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Capítulo 3 - Lições de cálculo

Mais um dia começou com a aula de cálculo.

Sentei no lugar de sempre, na terceira fileira, mais ou menos no meio da sala. Natan e Viktor não tinham essa matéria, então eu estava sozinho.

Comecei a tirar minhas coisas da mochila quando senti alguém se sentar na fileira ao lado. Não dei muita importância no início, devia ser só mais um aluno chegando, mas a curiosidade venceu, e quando olhei, era ela: Andrea.

A presença dela era impossível de ignorar, principalmente por causa daquele perfume. E, para minha surpresa, ela falou comigo.

— Oi, tudo bem? Eu sou a Andrea.

— Oi, Andrea. Eu sou o Dante — respondi no tom mais normal que consegui, tentando parecer tranquilo.

— Já te vi algumas vezes aqui na sala, mas ainda não tinha tido a oportunidade de falar com você. Vi que você é ótimo em cálculo e, sinceramente — ela deu um sorriso sem graça — essa não é minha matéria favorita. Pensei se algum dia desses você poderia me ajudar.

Fiquei completamente atônito, mas disfarcei tentando parecer calmo, mesmo com o coração acelerado.

— Claro, posso te ajudar sim. Mas olha, eu não sou tão bom quanto parece, hein — disse, tentando manter a voz firme. — Ainda assim, acho que dá pra te dar uma força.

— Certo, então podemos ir pra minha casa amanhã depois da aula pra começarmos a estudar? — disse ela.

Confesso que fiquei pensando nisso com atenção. Eu sabia que podia ser uma péssima ideia, mas, ao mesmo tempo, não fazia sentido recusar. Eu nem sabia se ela morava sozinha ou com os pais, mas, se era ela quem estava chamando, então não tinha por que hesitar.

— Podemos sim, mas você mora onde? Tô perguntando só pra saber se devo ir de carro ou não. Geralmente não venho dirigindo pra faculdade, já que moro perto.

— Moro em São Bernardo do Campo, pertinho da UFABC. Costumo vir de carro, então podemos ir no meu, o que acha?

— Por mim, tudo bem.

— Combinado, então — disse Andrea.

Passei o restante da aula pensando nisso. Era incrível como parecia que o universo conspirava a meu favor. Sempre observei Andrea, mas nunca cheguei nela; não tenho esse costume. Ainda assim, quando desejo alguém, parece que a pessoa vem até mim sem que eu precise fazer nada.

Não sei por que estou pensando desse jeito, já que ela só me pediu ajuda com os estudos. Só preciso ajudá-la em Cálculo e, mesmo assim, me pego imaginando comer com ela, como o idiota que sou.

Tentei não pensar muito nisso pelo resto da aula. Precisava me concentrar, e também existia a chance de que ela desmarcasse, o que só me deixava frustrado. Onde eu estava com a cabeça? Cheio de expectativas por algo que, no fim das contas, era só uma sessão de estudos.

Enfim… o dia seguiu normalmente.

***

Acordei cedo, como de costume, pra me arrumar e ir pra aula. Separei meus livros, o notebook e tudo o que precisava. Como ainda estava adiantado, decidi ir logo pra faculdade e esperar um tempo no refeitório até a aula começar.

Fui caminhando, e assim que entrei no campus, vi Andrea de longe com o namorado. Pareciam se despedir, ele devia estar indo embora. Passei por eles, e ela nem me notou, o que, pra ser sincero, foi ótimo.

Chegando ao refeitório, fui direto pra fila pegar meu café da manhã. O lugar ainda estava meio vazio, do jeito que eu gostava. 

Quando chegou minha vez, uma mulher do outro lado do balcão estendeu a bandeja na minha direção. Não parecia alguém que eu já tivesse visto antes ali, mas, ao mesmo tempo, ela agia com naturalidade, como se sempre estivesse naquele lugar.

— Café preto sem açúcar, certo?

Franzi levemente a testa.

— É — respondi, pegando a bandeja. — Como você sabe?

Ela deu um leve sorriso, apoiando as mãos no balcão.

— Você costuma vir nesse horário.

Aquilo me pegou desprevenido por um segundo.

— Ah… — soltei, sem saber muito bem o que dizer.

Ela inclinou a cabeça de leve, me observando com atenção demais pra uma interação tão simples.

— Qual seu nome?

— Dante.

Ela repetiu baixinho, quase saboreando o nome.

— Dante…

Levantou o olhar de novo pra mim.

— Bonito nome.

Assenti, meio sem reação, sentindo um leve desconforto que não soube explicar.

— Você é novo por aqui, não é?

Dessa vez, encarei ela com mais atenção.

— Na verdade, não tanto. Comecei no semestre passado.

Ela assentiu devagar, como se já soubesse.

— E tá gostando de estudar aqui?

Dei de ombros.

— É tranquilo, nada fora do normal.

Ela inclinou levemente a cabeça, analisando minha resposta com mais interesse do que deveria.

— Você parece o tipo que observa mais do que fala.

A frase me pegou desprevenido.

— Talvez.

Ela sorriu de canto, satisfeita demais com aquilo.

— Dá pra perceber.

Ficou um pequeno silêncio. Ela não desviava o olhar, como se estivesse tentando encaixar alguma coisa sobre mim.

— Você sempre fica por aqui antes da aula?

— Às vezes — respondi, já um pouco mais atento. — Depende do dia.

Inclinei a cabeça, encarando melhor.

— Você trabalha há muito tempo aqui? — perguntei, mais curioso do que qualquer outra coisa.

— Tempo suficiente para conhecer os hábitos dos alunos.

Aquilo não explicava muita coisa, mas, de algum jeito, parecia que ela preferia manter assim.

Peguei a bandeja com mais firmeza.

— Bom, obrigado.

— Imagina — ela respondeu, dando um pequeno passo pra trás. — A gente ainda se vê por aí.

Fiquei parado por um instante, observando ela se afastar e se misturar com o movimento do refeitório, com aquela sensação incômoda de que tinha algo fora do lugar.

No fim, só balancei a cabeça e fui me sentar em uma das mesas vazias.

Então, como se o universo estivesse brincando comigo, Andrea apareceu de novo. Veio caminhando com uma bandeja nas mãos, mochila nas costas, usando um vestido jeans, o cabelo solto e aquele batom vermelho que me desmontava por dentro. O perfume dela… impossível descrever. Nunca senti nada igual.

Ela se aproximou devagar e perguntou:

— Oi, Dante, bom dia! Posso me sentar aqui com você?

— Claro, Andrea, fica à vontade.

Ela puxou a cadeira e se sentou de frente pra mim. Apoiou a bandeja na mesa com cuidado e me lançou um sorriso leve, quase tímido. Começou a mexer no café enquanto me observava por cima dos óculos.

— Você sempre chega cedo assim ou hoje é um caso especial?

— Sempre chego um pouco antes. Prefiro pegar o campus mais vazio. Dá pra pensar melhor.

— Organizado, gostei — ela disse, inclinando a cabeça. — Eu normalmente chego em cima da hora, mas hoje acordei inspirada.

— Inspirada com as matérias da faculdade?

Ela riu.

— Não exagera. Só inspirada mesmo.

Ela começou a comer, e até o jeito que fazia aquilo parecia carregar alguma intenção, mesmo que fosse só coisa da minha cabeça. Era natural demais. Tudo nela era.

— E aí, tudo certo pra estudarmos na minha casa hoje? — Andrea perguntou. — Tenho aula até umas 13h30, depois estou livre.

— Sim, eu também fico livre nesse horário.

— Ótimo. Eu estava com medo de você inventar alguma desculpa e fugir.

— Fugir? — eu ergui uma sobrancelha. — Por que eu fugiria?

— Sei lá, às vezes você parece meio reservado demais.

— Reservado não é a mesma coisa que desinteressado.

Ela sustentou meu olhar por alguns segundos a mais do que o normal.

— Ainda bem.

— Você sempre convida colegas da faculdade pra estudar na sua casa? — perguntei, tentando manter o tom casual.

— Não. — Ela respondeu rápido demais. — Na verdade, você é o primeiro.

Aquilo mexeu comigo mais do que deveria.

— Espero não decepcionar como professor particular.

— Acho que não vai — ela disse baixinho, antes de dar outro gole no café.

***

Depois de conversar um pouco com ela, descobri que todas as nossas aulas daquele dia eram em comum. Passei o resto da manhã pensando em como eu ia controlar meu corpo para não deixar transparecer nada. Era estranho. Eu queria me comportar, sabia que não deveria ter esperança nenhuma além dos estudos, mas aquele efeito que ela tinha em mim era involuntário e meu pau reagiu instantaneamente só de pensar em qualquer possibilidade de tê-la pra mim.

Quando terminamos o café, fomos juntos para a sala. Andrea sentou no lugar de sempre. Os caras só teriam duas aulas em comum conosco, então nem mencionei que ajudaria Andrea mais tarde. Era só estudo mesmo.

As aulas acabaram e finalmente nosso tempo na faculdade terminou. A essa altura, Natan e Viktor já tinham ido embora.

— Meu carro está no estacionamento da universidade. Podemos ir andando até lá, o que acha? — ela perguntou.

— Tudo bem por mim.

O caminho até o carro foi silencioso. Na viagem até a casa dela, conversamos sobre coisas aleatórias. Ela me fez algumas perguntas e eu respondi, tentando parecer tranquilo.

Chegamos ao Edifício Monet, um lugar absurdamente luxuoso, daqueles onde só mora gente com muito dinheiro. Por um segundo, achei que ela tinha errado o endereço, mas Andrea caminhou com tanta naturalidade que percebi que era realmente onde ela morava.

— Moro no último andar, o trigésimo nono. Definitivamente não vou perguntar se você quer ir de escada. Vamos de elevador — ela brincou.

Eu dei um sorriso e concordei.

— Pensei em pedir comida pra gente, já que não almoçamos ainda. Você gosta de comida japonesa? — ela perguntou enquanto apertava o botão do elevador.

— Sim, é minha favorita, pra falar a verdade — respondi, sorrindo.

— Ótimo. Tem um japonês incrível aqui perto, e eles entregam rapidinho. Tô morrendo de fome — ela disse, sorrindo de volta.

— Eu também.

Eu já não sabia se era coincidência ou se o destino estava jogando contra mim. Até minha comida favorita ela acertou. Pareceu um pouco estranho, mas tentei não pensar nisso pelo resto do dia.

A comida chegou e conversamos enquanto comíamos. Andrea brincava, ria, fazia comentários leves, e eu não conseguia deixar de notar o quanto ela era linda. Tudo nela era natural. Ela não precisava fazer esforço nenhum pra chamar atenção.

Depois de comer, pegamos os livros e começamos a separar o material para estudar.

— Se incomoda se eu me sentar ao seu lado? — ela perguntou. — Vou precisar te mostrar alguns pontos do livro, e como a mesa é muito larga, fica difícil te mostrar daqui.

 — Pode sim. Acho melhor também.

Andrea deu um sorrisinho, daqueles que entregam mais do que deveriam, e naquele instante eu percebi que o clima não era só acadêmico. Fiquei me perguntando como não notei antes. Por mais que minha cabeça sempre criasse segundas intenções, eu realmente não tinha cogitado que Andrea pudesse estar interessada em mim de verdade.

Eu não era exatamente o tipo de cara que chama atenção logo de cara. Não tinha abdômen trincado, não era rico, não tinha cara de protagonista de filme. Era mais pro lado nerd, discreto, o tipo que passa despercebido em ambientes lotados, e mesmo assim eu consegui despertar algo nela. 

Mas ali, naquele apartamento luxuoso, sentindo o jeito como ela me olhava, comecei a entender que as mulheres percebem muito mais do que só aparência.

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