Mundo de ficçãoIniciar sessãoEra fim de tarde de setembro. O frio já não dava mais conta do dia, e o campus parecia mais cheio do que o normal. Gente espalhada por todo lado, vozes altas, movimento demais pra quem só queria ir embora.
Eu devia estar pensando nas provas. E até estava, mas não o suficiente.
Aos vinte e cinco anos, eu vivia num conflito constante: de um lado, a razão moldada pela vida acadêmica; do outro, impulsos que insistiam em me atravessar sem pedir licença. Estudava o corpo humano com o mesmo fascínio de quem observa estrelas, tentando entender, no prazer, a lógica da entrega. Cada descoberta só aumentava a obsessão: até onde era possível ir? O que mais dava pra sentir?
Havia coisas que eu nunca tinha tentado. Não por falta de vontade, mas porque certas ideias, quando passam do ponto, deixam de ser curiosidade e começam a virar problema.
Algumas delas envolviam mais gente do que eu costumava permitir.
Esse lado, porém, era meu. Um território fechado, guardado a sete chaves, bem escondido atrás da imagem discreta que todo mundo via. Sempre achei patético quem transforma desejo em troféu. Eu preferia o oposto: silêncio, mistério… e experiências escolhidas com cuidado: intensas, raras e impossíveis de esquecer.
Mesmo assim, havia limites. Por mais impulsivo que eu fosse, ainda existia uma parte de mim que sabia a hora de frear. Eu tinha consciência de que, com os recursos que tinha, levar certas fantasias adiante poderia custar caro. Até cogitei soluções mais fáceis, práticas… mas descartei a ideia quase na mesma hora. Não queria algo mecânico, forçado.
Fantasias, quando acontecem do jeito certo, têm outro sabor.
Então deixei aquilo de lado. Pelo menos por enquanto. O semestre estava começando, e as provas não iam pegar leve.
Eu cursava Ciência da Computação. E, honestamente, se existia uma matéria capaz de acabar com a minha paciência, era Computação Gráfica. O clima da sala também não ajudava: vinte e quatro alunos e só uma mulher.
Nunca entendi por que tão poucas escolhem TI. Mas talvez fosse justamente isso que tornava tudo mais intenso quando uma se destacava.
E ela se destacava.
Eu tentava manter o foco no código projetado no quadro, mas era inútil. Sempre acabava olhando para ela.
Eu sabia seu nome: Andrea.
Ela tinha começado naquele semestre. E não era do tipo que chama atenção tentando. Pelo contrário. Parecia simplesmente existir no próprio espaço, sem precisar disputar nada com ninguém.
Só isso já bastava.
Andrea tinha a pele clara, quase rosada, com sardas suaves espalhadas pelo rosto. As bochechas naturalmente coradas davam a ela um ar vivo, real. O cabelo loiro caía liso até as costas, quase sempre solto, com uma franja lateral que parecia ter escolhido aquele lugar por conta própria. Os olhos de um azul tranquilo observavam tudo com atenção silenciosa.
Mas não era só isso.
O corpo dela tinha presença. Quadris largos, coxas firmes, movimentos seguros. Não era apenas a forma, era a maneira como ela ocupava o espaço, sem pedir licença, sem hesitar. Havia confiança ali. E isso… isso tornava tudo mais difícil de ignorar.
Quando ela falava, mesmo que pouco, algo em mim reagia de forma quase instintiva. Andrea era quieta, reservada, completamente alheia ao efeito que causava, e talvez fosse exatamente isso que me prendia tanto.
Eu tentei ignorar. De verdade, mas não funcionava.
Na faculdade, eu andava sempre com dois caras: Natanael e Viktor. Gente boa, na maior parte do tempo. Só que não demorou muito para perceber que eles também estavam de olho nela.
E isso me irritava mais do que deveria.
Os dois não disfarçavam. Comentavam, riam, exageravam. Como se nunca tivessem visto uma mulher antes. O pior de tudo? Andrea parecia nem notar a existência de nenhum de nós.
Quando a aula terminou, saímos juntos, como sempre. E, claro, o assunto não podia ser outro.
— Porra, Natan — reclamou Viktor. — Não consigo me concentrar quando ela está por perto, meu pau reage instantaneamente.
— Difícil mesmo — respondeu ele, rindo. — Com aquele corpo, aquele batom vermelho e o jeito inteligente dela, quem consegue? Toda vez que passa por mim, perco o foco e começo a pensar com a cabeça de baixo instantaneamente. Mas sabe o que é pior? Ela tem namorado. Vi os dois outro dia no refeitório, de mãos dadas, pareciam bem felizes.
— Bem feito pra vocês, seus idiotas — provoquei, rindo. — Ficam aí cobiçando a mulher dos outros, agora aguentem a frustração e fiquem de pau duro até sentirem a cabeça latejar. Talvez assim prestem atenção na aula, em vez de olhar para a bunda dela o tempo todo.
— Ah, Dante, fala sério! — debochou Natan. — Vai dizer que você não sente nada quando ela passa? Já vi o jeito que olha pra ela.
— Diferente de vocês, eu sei calar a boca — respondi. — Não preciso sair falando por aí quando tô atraído por alguém. De qualquer forma — digo —, esqueçam isso. Como vocês mesmos viram, ela tem namorado. Nenhum de nós tem chance.
Os dois bufaram, frustrados, e logo seguiram caminhos diferentes pelo campus. Fiquei alguns segundos parado ali, observando o movimento das pessoas indo embora. Tentei convencer a mim mesmo de que aquilo não importava, de que Andrea era apenas mais uma colega de turma e nada além disso. Mas, por algum motivo, a imagem dela não saía da minha cabeça. O jeito como se concentrava nas aulas. O batom vermelho. A forma como parecia completamente alheia ao efeito que causava nos outros. E… ela causava! A turma inteira babava nela.
Balancei a cabeça, tentando afastar aquele pensamento. Era melhor esquecer aquilo de uma vez.
Mal sabia eu que, dois dias depois, Andrea seria a primeira a quebrar essa regra.







