Henry sentiu um nó no estômago e cada palavra ecoou em sua mente como o sino de uma catedral. A ideia de que Rebecca, a mulher com quem estava preso por um casamento vazio, pudesse se libertar e estar com outro homem, era uma possibilidade que de repente se cravava nele como uma pontada incômoda. Nem sequer entendia o que era, e definitivamente não teria chamado de ciúmes, raiva e confusão, só era...
Droga! Ela tinha feito sua vida miserável durante dois anos jurando que o amava e agora falava tão tranquilamente dos homens com quem ia se deitar?!
A atitude distante de Rebecca era pior que qualquer reclamação, e podia jurar que jamais tinha visto um olhar como aquele nos olhos dela, um que nem sequer se abalava ao ver Julie Ann abraçada à sua cintura.
— Do que você está falando? — rosnou como se buscasse um sentido diferente nas palavras dela.
E Rebecca o olhou, mas não com raiva nem reprovação, e sim com uma calma estranha, como se falasse de um lugar muito longe do seu coração.
— Tranquilizo sua mulher grávida — disse com um tom suave no qual quase não se distinguia o veneno. — Afinal ela esperou tanto por você... sacrificou tanto por você... te ama tanto...
Henry sentiu um formigamento estranho nas palmas das mãos, como o de um homem diante de um abismo de mil metros.
— Não se atreva a mexer com a Julie Ann! — sibilou enquanto a garota se apertava contra um de seus braços como se fosse uma criança com medo.
— Não faça isso — disse Rebecca inclinando a cabeça. — Para alguém que transa com o marido de outra, essas poses infantis não combinam com você. — E antes que alguém pudesse responder, ela se virou. — Vamos ver se você continua gostando tanto quando ele for seu marido.
Henry abriu a boca, mas de repente seu peito ficou ali, cheio de ar enquanto tudo o que restava na sala era o som dos saltos elegantes de Rebecca. Julie Ann o puxou e o levou ao check-up pré-natal, praguejando entre dentes; mas por mais ilusionado que Henry estivesse, enquanto lhe mostravam a ultrassom do seu primogênito, as palavras que sua mente seguia repetindo como um disco arranhado eram: "Dois anos de vontade reprimida. Consegue imaginar o prazer que vou ter quando esse casamento acabar?"
E seu cérebro continuou traindo-o esse dia e todos os que se seguiram, porque uma semana depois Henry parecia um javali acuado e nem ele mesmo entendia por quê. As coisas na companhia não iam tão bem quanto todos acreditavam. A empresa não estava na ruína, mas os gráficos não mostravam crescimento, e cada vez que chegava em casa, o ambiente frio e silencioso o atingia no rosto, porque aquela saudação calorosa que odiava receber finalmente tinha desaparecido.
Seis noites exatas depois, Henry entrou desatando o nó da gravata com um gesto de impotência, e jogou a pasta sobre um móvel.
Tinha a testa franzida, os ombros rígidos e a mente a mil por segundo. Tinha passado uma semana, Rebecca sempre lhe pedia um beijo por semana; e quando a viu apoiada no batente da porta, com uma xícara de café na mão, já sabia o que ela ia exigir.
— Você é mais exata que um maldito relógio suíço — rosnou olhando-a de cima a baixo.
Usava um vestido corte império, com um decote suave que não insinuava nada, enquanto a barra inferior roçava suavemente o chão. Não havia lingerie provocativa nem olhares acesos. Só uma calma espessa, indiferente. E essa frase... "o prazer que vou ter quando esse casamento acabar".
— Deixa eu adivinhar — sibilou se aproximando dela sem que ela pedisse. — Não quer me cobrar o beijo número cem...?
Não sabia por que isso precisamente lhe fervia o sangue da pior maneira. Os dois sabiam o que significava: depois desse último beijo ele seria livre. Mas ela não queria exigi-lo ou ele não queria dá-lo? Por que a ideia de que ela fosse embora com outro, que desejasse estar com outro, estava o atormentando...?
E antes que fizesse o primeiro movimento, essa mão com a xícara de café fervendo foi a que colocou distância entre eles, ameaçando queimá-lo, literalmente.
— Não, Henry, não quero nenhum beijo — respondeu Rebecca com um sorriso cansado. — Na verdade, estava te esperando por algo bem diferente: te deixo livre.
Henry franziu a testa, desconcertado, enquanto a via apontar para um monte de documentos sobre a mesa da sala de jantar. Seus olhos se estreitaram enquanto caminhava lentamente em direção a eles, e quando os teve nas mãos, suas pupilas se dilataram quase fazendo desaparecer o cinza.
— E que porra é isso, Rebecca?! — disparou levantando-os com uma mão e sacudindo-os como se fossem a evidência de um crime.
— Exatamente o que se lê no cabeçalho. É um pedido de divórcio — respondeu ela sem se abalar.
— Sério? — ele quase gargalhou, bastante seguro de que os oceanos secariam antes de Rebecca Callaway consentir em lhe dar voluntariamente o divórcio. — Que tipo de armadilha é essa? Quer me explicar? — a increpou esfregando o rosto com uma mão. — Não, espera, vou adivinhar! Vai me acusar de adultério agora que a Julie Ann está grávida!
Rebecca o olhou, serena, sem rastro de emoção no rosto, mas com uma força interior que ele não pôde ignorar.
— Frio, frio, querido.
— Então o quê? Vai me ameaçar para tirar metade da empresa? Ou vai fazer algo mais dramático, como dizer que vai se matar por mim se eu assinar, ou algo assim?
Rebecca fez uma careta que não era para ele, e sim para si mesma, para sua teimosia e seu amor-próprio.
— Teria que ser muito estúpida ou estar muito apaixonada para ficar com um homem que fala da minha morte como se fosse uma piada de mau gosto — sentenciou ela. — Então suponho que aí está sua resposta. Não sou estúpida, e já não estou apaixonada. Fim do assunto.
E se ele esperava uma explosão de sentimentos, uma reprovação ou até choro... bem, ficaria esperando.
— Se o que te preocupa é sua empresa, tranquilo. Não quero nada de você — garantiu Rebecca. — Leia o acordo, assine. Vou embora daqui dez minutos depois que me entregar.
— Não vou assinar nada! — disparou Henry sem se dar conta das palavras que saíam de sua boca. — Isso... deve ser uma armadilha!
Mas sua esposa de mentira só se virou e saiu da sala, enquanto ele ficava com a cabeça cheia de perguntas que não encontrava como responder.
Rebecca tinha passado dois anos implorando por sua atenção, por seus beijos, por seu carinho. Como tinha passado exatamente, quando, por quê...?
Não tinha ideia de que o mais importante já não era o que tinha passado, e sim o que estava por vir, e é claro que também não tinha ideia de que naquele momento preciso, Rebecca pegava seu telefone com decisão e discava o número da sogra.
— Carlotta, querida, quero convidar toda a família para um café da manhã amanhã... — disse com descaramento. — E traga a amante do seu filho!
— O que você está planejando, Rebecca? — cuspiu a sogra com aborrecimento.
— Ah, algo especial! Tenho algo muito especial preparado... para comemorar meu divórcio.