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Se um dia me dissessem que eu estaria dentro de uma limosine, ao lado do meu pai, a caminho do casarão da família Ackles para conhecer o homem que, por contrato, se tornaria meu marido… um completo desconhecido…
eu teria fugido antes mesmo de a tinta secar naquele maldito papel. O couro do banco sob minhas mãos é macio demais, luxuoso demais… sufocante demais. Solto um suspiro lento, tentando aliviar o aperto no peito, e abaixo o olhar para minhas roupas. O vestido em tom rosé desliza pelo meu corpo com delicadeza, leve como uma mentira bem contada. O tecido fino abraça minha cintura, destacando cada curva com elegância calculada. Segundo meu pai, aquela cor combinava perfeitamente com meus cabelos dourados mel. Como se isso importasse. — Sabe como deve agir, certo? — a voz dele corta o silêncio, firme, carregada de expectativa. Dou um sorriso quase imperceptível, daqueles que não chegam aos olhos. — Como uma esposa submissa, quieta… que só está ali para satisfazer o marido? Claro — murmuro, com um leve traço de ironia que não me esforço em esconder. O ar dentro da limosine pesa. Escuto meu pai soltar um suspiro contido, claramente insatisfeito, mas sem disposição para discutir. — É uma honra se juntar à família Ackles. Você vai ter tudo que quer! — ele insiste, como se repetisse algo que já disse vezes demais… talvez até para si mesmo. Desvio o olhar. Nem tudo. Existem coisas que dinheiro nenhum compra. E no momento em que assinei aquele contrato… foram exatamente essas coisas que perdi. Viro o rosto lentamente em direção à janela. E então eu vejo. O casarão dos Ackles surge diante de mim como algo saído de outro mundo — imponente, silencioso… quase ameaçador. O portão principal, feito de ferro negro trabalhado, se ergue alto o suficiente para intimidar qualquer um que ousasse se aproximar. Os detalhes em arabescos entrelaçados lembram antigas famílias europeias, enquanto o brasão no centro — discreto, mas imponente — denuncia poder, tradição… e segredos. Assim que a limosine se aproxima, os portões se abrem lentamente, rangendo com um som grave, quase solene, como se estivéssemos cruzando um limite do qual não há retorno. O caminho que se estende à frente é longo, pavimentado com pedras irregulares que reforçam o estilo rústico e sofisticado ao mesmo tempo. Árvores altas alinham-se dos dois lados, suas copas densas formando uma espécie de túnel natural que filtra a luz do entardecer. O jardim é impecável — mas não de um jeito delicado. Arbustos perfeitamente podados, esculturas de pedra envelhecida e pequenas fontes de água criam uma atmosfera elegante… porém fria. Não há cores vibrantes, apenas tons sóbrios, verdes profundos e o cinza das rochas. Beleza controlada. Como tudo naquele lugar. Mais adiante, o casarão finalmente se revela por completo. Construído em pedra escura, com detalhes em madeira envelhecida, ele mistura o charme rústico com uma imponência quase opressiva. As janelas altas refletem a luz de forma discreta, enquanto varandas amplas e colunas robustas sustentam a estrutura como se ela fosse eterna. À direita, uma área de estacionamento se estende com vários carros de luxo alinhados de forma impecável — todos escuros, todos imponentes, como se até os veículos seguissem um padrão de respeito silencioso. Homens de terno estão posicionados estrategicamente pelo local. Observando. Sempre observando. Engulo em seco, sentindo um arrepio percorrer minha espinha. Aquilo não é apenas uma casa. É território. E eu acabei de entrar nele. Um homem vem até a limosine e abre a porta para que eu saia. O movimento é preciso, silencioso… treinado. Respiro fundo antes de colocar os pés para fora, sentindo o ar mais frio tocar minha pele. Tudo ali parece… diferente. Mais pesado. Espero meu pai vir até o meu lado, e juntos caminhamos em direção à entrada principal. As portas de madeira maciça se abrem antes mesmo de chegarmos completamente, como se nossa presença já fosse esperada. E então entramos. Dou alguns passos para dentro da sala… …e meu olhar se perde. A sala de estar é simplesmente imponente. O pé-direito alto faz com que o ambiente pareça ainda maior, quase intimidador. As paredes são revestidas em pedra escura, combinando perfeitamente com vigas de madeira expostas no teto, reforçando o estilo rústico — mas longe de ser simples. Tudo ali exala luxo. Um enorme tapete persa cobre boa parte do chão de madeira polida, seus padrões intricados contrastando com os móveis robustos. Sofás de couro escuro, amplos e sofisticados, estão dispostos de forma estratégica ao redor de uma mesa de centro feita de madeira maciça, com acabamento impecável. Uma lareira ocupa uma das paredes, acesa mesmo sem necessidade, lançando uma luz quente que dança pelo ambiente — mas não o suficiente para torná-lo acolhedor. Quadros grandes, com molduras pesadas, decoram as paredes. Paisagens antigas, retratos sérios… todos com aquele ar de tradição e poder silencioso. Há também estantes com garrafas de bebidas caras, cristais perfeitamente alinhados… e, espalhados pelo ambiente, homens de terno. Parados. Atentos. Observando cada movimento. Engulo em seco. Que lindo… e assustador. — Meu grande amigo! — uma voz masculina ecoa pelo ambiente. Viro-me imediatamente. Meus olhos encontram um homem alto, de postura firme. A barba cheia e bem cuidada contrasta com os fios grisalhos do cabelo, que só parecem reforçar sua presença imponente. Ele deve ter a idade do meu pai… mas, diferente dele, há algo ali que chama atenção. Força. Controle. Perigo. — Como vai, Daniel? — meu pai diz, aproximando-se e estendendo a mão. Os dois trocam um aperto firme, quase como um acordo silencioso sendo reafirmado. Os olhos verdes escuros daquele homem se voltam para mim. Sinto como se estivesse sendo avaliada… medida. — Esta é sua filha? — ele pergunta, aproximando-se. Antes que eu responda, ele pega minha mão com delicadeza calculada e a ergue até seus lábios. — Sou Daniel Ackles, senhorita. É um prazer conhecê-la — diz, depositando um beijo leve sobre minha pele. O gesto é educado. Mas há algo por trás dele que me deixa… alerta. Mordo os lábios, mantendo a postura. — O prazer é meu — murmuro, com a voz controlada. — Por que a senhorita não vai conhecer sua futura casa? Eu e seu pai temos muito o que conversar — ele sugere, com um leve sorriso que não chega aos olhos. Futura casa. As palavras pesam mais do que deveriam. Lanço um olhar para meu pai. Ele apenas faz um pequeno aceno com a cabeça, como se aquilo fosse o esperado. Como se eu não tivesse escolha. Retribuo com um aceno discreto, voltando meu olhar ao redor mais uma vez, absorvendo cada detalhe daquele lugar que, aparentemente, agora também me pertence. Ou me aprisiona. Sem dizer mais nada, viro-me e sigo em direção à escadaria. Os degraus largos de madeira rangem suavemente sob meus passos, e conforme subo… a sensação de estar entrando cada vez mais fundo naquele mundo só aumenta. Caminho pelo corredor repleto de portas, meus passos ecoando suavemente no silêncio elegante do andar superior. O ambiente inteiro parece carregado de presença, como se cada detalhe tivesse sido pensado para impor respeito. Meu olhar passeia pelas portas fechadas, até que uma delas chama minha atenção por estar entreaberta. Mordo os lábios, sentindo uma curiosidade incômoda crescer dentro de mim, insistente, quase como um sussurro dizendo para eu descobrir o que há ali dentro. Lanço um olhar ao redor, certificando-me de que não há ninguém por perto — o corredor permanece vazio, silencioso demais — e então cedo ao impulso. Empurro a porta com cuidado e entro, fechando-a logo atrás de mim, garantindo que, caso alguém apareça, não perceba minha presença ali. O ambiente me envolve imediatamente. É um quarto rústico, aconchegante e ao mesmo tempo absurdamente elegante. A iluminação baixa, em tons quentes, cria sombras suaves que percorrem as paredes de madeira escura, destacando cada detalhe do espaço. Os móveis são sólidos, imponentes, com um acabamento impecável, e tudo ali carrega um ar masculino, sofisticado e perigosamente organizado, como se cada objeto tivesse seu lugar exato. Caminho lentamente até a escrivaninha, meus dedos deslizando pela superfície lisa enquanto observo alguns documentos espalhados de forma despretensiosa. Ao lado deles, folhas com desenhos chamam minha atenção. Pego uma delas com cuidado e analiso os traços firmes, precisos, cheios de personalidade. São bons… muito bons. Há técnica, intensidade… e algo mais ali, algo que não sei explicar, mas que prende meu olhar por alguns segundos a mais. A pessoa que é dona daquele quarto não desenha por passatempo. Existe talento ali. Muito. Deixo o papel exatamente onde estava e continuo andando pelo quarto, absorvendo cada detalhe, cada sensação que aquele lugar transmite. Há algo ali que não combina com o restante da casa — algo mais íntimo, mais real. Aproximo-me da cama e passo os dedos lentamente pelo tecido escuro, sentindo a maciez sob minha pele, um contraste inesperado com a imponência do ambiente. — Que macio… — murmuro, quase em um sussurro. — Concordo. A voz surge atrás de mim, grave, calma… perigosa. Meu corpo reage instantaneamente, um arrepio sobe pela minha espinha enquanto viro rápido demais, o coração batendo forte contra o peito. E então eu o vejo. Encostado na parede, como se sempre tivesse estado ali, como se estivesse me observando desde o momento em que entrei. Os braços cruzados destacam a largura dos ombros, a postura relaxada demais para alguém que claramente está no controle da situação. Ele veste uma camisa escura, ajustada ao corpo na medida certa, com as mangas dobradas até os antebraços, revelando músculos definidos e veias discretamente marcadas. O cabelo escuro está levemente desalinhado, caindo de forma natural sobre a testa, dando a ele um ar descuidado que contrasta com a intensidade da sua presença. Seu rosto é marcante, com traços fortes, mandíbula bem definida e lábios firmes, sustentando uma expressão neutra… controlada demais. Mas são os olhos que me prendem. Verdes escuros. Profundos. Intensos de um jeito que faz meu estômago apertar. São os mesmos olhos do homem lá de baixo… mas diferentes. Mais frios. Mais perigosos. Mais… vivos. Ele me observa como se estivesse analisando cada detalhe meu, sem pressa, sem qualquer constrangimento por ter me pego ali. E o pior de tudo é perceber que eu nem sequer notei quando ele entrou. A presença dele domina o ambiente de uma forma quase sufocante. — Ah… é… desculpa — digo, tropeçando nas palavras, odiando o quanto minha voz denuncia meu nervosismo. — A porta estava aberta… Ele não se move. Não se aproxima. Apenas continua me encarando, como se estivesse esperando algo, como se estivesse me estudando com aqueles olhos que parecem enxergar mais do que deveriam. — E achou que era um convite para entrar no meu quarto? — ele questiona, a voz baixa, controlada, carregada de uma frieza que deveria me afastar… mas não afasta. Pelo contrário. Só me prende ainda mais ali.






