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Capítulo 1.0 Audislane Vieira

Acordo com o corpo cansado e a alma mais pesada do que as horas que dormi.

O bar fechou tarde como sempre e, mesmo exausta, o despertador não perdoa. Tenho entrevista logo cedo. Mais uma.

Respiro fundo.

É frustrante, sim.

Mas não sou de desistir fácil. Nunca fui.

Desde que me formei, parece que o mundo decidiu me testar. Enviei currículos, bati em portas, fiz estágio... mas nada.

A verdade é que, no papel, o meu sobrenome não abre portas ele carrega dívidas, não influência.

E no mundo em que aparência fala mais alto que esforço, ninguém quis saber o quanto eu lutei pra chegar até aqui.

Ninguém quis olhar meus projetos, nem o brilho nos olhos de quem ainda acredita que pode fazer diferença.

O bar… ah, o bar.

Foi o meu primeiro emprego e, ironicamente, o único que nunca me rejeitou.

Foi entre o som dos copos e o cheiro de bebida derramada que paguei a faculdade. Agora, é o que mantém as contas da casa, as mesmas que parecem se multiplicar desde que a empresa onde minha mãe trabalhava faliu.

Ela tenta disfarçar a tristeza, mas eu vejo nos olhos dela a culpa de quem se sente um peso.

Só que ela não é. Nunca será.

O peso é o mundo, e eu só estou tentando carregá-lo do meu jeito.

Sigo pro banheiro.

A água cai gelada, cortando minha pele e, de alguma forma, me trazendo de volta à realidade.

Fecho os olhos por um instante, tentando não chorar.

— Será que é pedir demais ter um pouco de água quente? — murmuro, com um sorriso cansado.

Talvez a água fria seja um lembrete: a vida nem sempre vem na temperatura certa.

E, mesmo assim, eu continuo.

Porque, lá no fundo, ainda existe algo uma voz pequena, insistente dizendo que as coisas vão mudar.

Que, em algum lugar entre um turno e outro, entre um currículo ignorado e um a gente entra em contato, existe um destino esperando para me notar.

E talvez... talvez, quando eu menos esperar, ele apareça.

Mesmo que seja atrás de um balcão, entre risadas e copos.

O sol ainda nem tinha se decidido entre nascer ou se esconder de vez, e eu já estava de pé, tentando parecer menos cansada do que realmente estava.

Prendi o cabelo num coque apressado, vesti minha calça social que já pedia descanso e uma blusa que um dia foi branca, mas agora só carrega o tom de quem sobreviveu a muitas lutas. Mal consegui tomar café, a ansiedade não me deixa e saio de casa com esperança.

Peguei o ônibus com o portfólio no colo, abraçado contra o peito como se fosse uma armadura.

Dentro dele estavam meus sonhos impressos: projetos, croquis, ideias que ainda não tiveram chance de existir fora do papel.

Olhei pela janela enquanto a cidade acordava, e, por um instante, imaginei o que seria acordar com a sensação de que tudo estava no lugar.

Mas não era o meu caso.

Quando cheguei ao prédio da empresa, respirei fundo.

Era linda. Moderna.

Vidros espelhados, recepcionistas elegantes, cheiro de café caro.

E ali estava eu com o coração disparado e as mãos suando.

— Bom dia, vim para a entrevista de arquitetura — falei com a recepcionista, tentando soar confiante.

Ela me olhou de cima a baixo, como se avaliasse se eu realmente pertencia àquele lugar.

— Seu nome, por favor? — ela me perguntou com desdém.

— Audislane Viera.— Falo confiante. Mesmo que seja por fora.

Digitou algo no computador e me mandou esperar.

Foram quarenta e cinco minutos.

Quarenta e cinco longos minutos observando pessoas de ternos bem cortados passarem por mim como se eu fosse invisível.

Quando finalmente chamaram meu nome, um homem alto, de sorriso ensaiado e olhar analítico, apareceu na porta.

— Audislane Vieira, certo? — ele confirmou, folheando um papel. — Vamos ser breves, estou com a agenda cheia.

Claro, pensei. Você sempre está.

A sala era ampla, cheia de maquetes perfeitas tão perfeitas que pareciam zombar das minhas maquetes tortas de faculdade.

— Vejo que se formou há cinco meses. Trabalhou em algum projeto grande desde então? — perguntou, sem levantar os olhos do papel.

— Ainda não, mas trabalhei num bar enquanto concluía a faculdade e… — comecei, tentando explicar.

Ele ergueu uma sobrancelha, impaciente.

— Um bar? — repetiu, como se a palavra tivesse gosto ruim. — Entendo… e, desculpe, você não tem nenhuma experiência significativa registrada.

— Eu… tenho projetos independentes. Posso mostrar — insisti, abrindo o portfólio, o coração acelerado.

Ele olhou por dois segundos, apenas o suficiente para manter a educação.

Fechou o portfólio com um sorriso vazio.

— Olha, o seu trabalho é bom, mas estamos procurando alguém com mais vivência de mercado.

— Eu só preciso de uma chance — respondi num fio de voz.

— Todos precisam, senhorita Vieira — disse ele, já se levantando. — A diferença é que nem todos podemos oferecer.

Sorri, por educação.

Agradeci, por orgulho.

Mas por dentro, desabei.

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