Mundo de ficçãoIniciar sessãoSaí da sala com o portfólio apertado contra o peito a mesma armadura que agora pesava como um fardo.
O vento quente da rua me atingiu, e foi ali, entre passos apressados e o som do trânsito, que deixei uma lágrima escapar. Mas apenas uma. O resto, eu engoli. Porque o mundo não para pra quem se sente derrotado. E, por mais cansada que eu estivesse, ainda existia dentro de mim uma teimosia bonita aquela que insiste em acreditar, mesmo quando tudo diz que não. Peguei o ônibus de volta, fechei os olhos e prometi a mim mesma que aquela não seria a última tentativa. Eu não sei quando, nem onde, mas em algum lugar... alguém ainda vai enxergar o meu talento e ver o quanto posso agregar para o crescimento. E talvez, só talvez esse alguém já esteja mais perto do que eu imagino. Só espero que não vire lenda. Estudei tanto, me esforcei para ficar só no diploma. Chego em casa tentando esconder a decepção estampada no rosto. O cheiro de café fresco vem da cozinha, e por um instante, sinto vontade de fingir que o dia foi bom. — Bom dia, filha! — a voz da minha mãe vem cheia de ternura. — Como foi na entrevista? Você nem comeu nada, Nany! Forço um sorriso e deixo a bolsa no sofá. — Bom dia, mãe... O mesmo de sempre. — suspiro. — Querem experiência, mas oportunidade que é bom, nada. Ela me olha com aquele olhar que parece enxergar além do que digo. — Em algum momento, alguém vai perceber a sorte que é ter uma arquiteta tão incrível como você. — diz, me puxando para um abraço. Encosto o rosto no ombro dela e, por um instante, deixo o peso da manhã escorrer. — Eu sei, mãe... mas tem horas que dá vontade de desistir. — confesso baixinho. — Desistir não combina com a minha filha. — ela rebate firme, me dando um beijo na testa. — Agora vai tomar um banho e descansar um pouco. Assinto. — Pode deixar, dona Ema. Mais tarde ainda tenho turno no bar. No banheiro, deixo a água fria cair sobre meu corpo, tentando lavar a frustração junto. Penso em todas as vezes que ouvi vamos entrar em contato e nunca mais ouvi nada depois. Ainda assim, me recuso a acreditar que o esforço é em vão. Depois do banho, visto um pijama leve e sento na cama com o meu velho notebook, o mesmo que minha mãe me deu quando entrei na faculdade. Lembro do brilho nos olhos dela ao dizer: Um dia, você vai ser a melhor arquiteta dessa cidade. Só por isso, eu não podia parar agora. Começo a revisar portfólios, atualizar o currículo e pesquisar novas vagas. As horas passam sem que eu perceba. — Nany, o almoço tá pronto! — ouço minha mãe gritar da cozinha. — Já vou, mãe! — respondo, pegando o celular. A tela acende com várias mensagens no grupo das meninas: Luh: E aí, amiga? Como foi a entrevista hoje? 😬 Bia: Aposto que arrasou! 💪 Eu: Infelizmente... não foi dessa vez 😔 Luh: Ah não, amiga! Esses caras não sabem o talento que estão perdendo! Bia: O mercado é cruel, mas tua hora vai chegar, Nany. Confia. Eu: Eu tô tentando… só cansa um pouco fingir que não dói. Luh: Você não precisa fingir nada. Só respira, chora se quiser e depois levanta de novo, como sempre faz. Bia: E hoje tem bar pra distrair a cabeça! Vai que o destino resolve dar uma ajudinha. 😉 Sorrio de leve com a última mensagem. Talvez fosse isso... talvez a vida só estivesse me preparando para algo maior. Fecho o notebook, respiro fundo e encaro o espelho. — Vamos lá, Audislane. — murmuro para mim mesma. — O mundo ainda vai saber quem você é. Após o almoço, senti um sopro de confiança me atravessar. Era como se, por alguns instantes, eu acreditasse que tudo daria certo. Descansei um pouco, mas logo chegou a hora de me arrumar para o trabalho.






